
Como a maioria dos cubanos que conheci em Miami, o motorista de aplicativo Julio, 37 anos, não gosta de futebol e está pouco interessado no Mundial de Clubes. Afinal, na ilha caribenha, o esporte mais popular é o beisebol.
Sem muitos assuntos em comum sobre esporte, falamos sobre política durante o trajeto até o estádio Hard Rock. Ao longo da conversa, o condutor me contou como fugiu de Havana em busca de uma vida melhor em Miami, onde mora há cinco anos e trabalha com aplicativo e como carpinteiro.
— Passei vários anos juntando dinheiro em Cuba. Aí comprei uma passagem de avião de Havana até Managua (capital da Nicarágua) e lá contratei um "coyote" para me trazer aos Estados Unidos — disse.
"Coyotes" são guias clandestinos que cobram para transportar imigrantes, geralmente ilegais, para o lado americano da fronteira, muitas vezes enfrentando condições inóspitas nos desertos do México e de estados americanos como Arizona, Novo México e Texas.
Fiquei curioso e perguntei mais detalhes a Julio. Afinal, sei que é muito difícil para um cidadão de Cuba fugir do regime comunista que vigora no país desde 1959. E que também não é fácil para um imigrante conseguir visto de trabalho nos Estados Unidos.
Julio me relatou que, a bordo de uma caminhonete, viajou por mais de três dias pelo interior da Nicarágua, de Honduras, da Guatemala e do México, até chegar à fronteira norte-americana.
— É uma viagem longa, perigosa e com pouca comida. Boa parte é em meio ao deserto. E esses "coyotes" são muitas vezes ligados aos cartéis do narcotráfico. Você não sabe ao certo o que vai acontecer — conta.
Só que, ao cruzar a fronteira, através de uma rota cujos detalhes não quis me revelar, Julio não tentou permanecer nos Estados Unidos de forma ilegal.
_ Me entreguei a um Centro de Detenção — contou.
Se entregar às autoridades pode facilitar
Essa estratégia é comum entre os cubanos. Desde os anos 1960, logo após a Revolução Cubana, a legislação norte-americana facilita que cidadãos de Cuba obtenham permissão para permanecer nos Estados Unidos, desde que já estejam em território norte-americano.
Por isso, segundo Julio, para quem foge de Cuba, é mais seguro se entregar a um dos mais de 200 centros de detenção para imigrantes espalhados ao longo da fronteira com o México, e tentar entrar no país pelas vias legais do que se tornar um imigrante ilegal.
Porém, até ter a sua entrada autorizada no país, Julio teve que "morar' por um período no centro de detenção.
— Fiquei três meses preso aguardando o meu processo — contou.
Esses centros de detenção não são como as prisões tradicionais. Afinais, cubanos que se entregam, como Julio, tecnicamente não estão cometendo crime algum. Porém, na prática, é uma rotina sem liberdade.
— Foram três meses "morando" no centro de detenção, vestindo uniforme e tudo. E sem poder sair. Não tinha mais dinheiro para voltar. Me restava aguardar o processo — disse.
Três meses depois de se entregar, Julio recebeu uma permissão de trabalho nos Estados Unidos e está com trâmites em andamento para receber um "green card", documento que garante a um estrangeiro a residência permanente no país e que os cubanos, por conta da legislação, costumam ter mais facilidades para obter.
Estima-se que 2,4 milhões de pessoas de origem cubana vivem nos Estados Unidos, sendo que mais de 1 milhão mora na Flórida, a maior comunidade de cubana no país.
Porém, até cruzar a fronteira, os cubanos vivem uma perigosa saga.
— Mas valeu a pena. Estou feliz — finalizou Julio, que pediu para não ser fotografado e não ter o sobrenome divulgado.

