
Terno sob medida, uma gravata indefectível, a sobrancelha erguida. Assim Carlo Ancelotti subiu ao palco de uma espécie de “Essa é a sua vida” à italiana alguns anos atrás. Em sua primeira frase, sua voz grave filosofou.
— A vida é uma emoção contínua.
Uma nova emoção começou a ser vivida nesta segunda-feira (26), quando Carlo Michelangelo Ancelotti foi apresentado como o novo técnico do Brasil. A squadra mais vitoriosa do mundo se alia ao treinador mais vencedor da Europa. Uma união inédita.
O técnico de 65 anos estará em um ambiente novo, mas reconhecível. Flashes, microfones, perguntas, pressão. Para quem vivencia o mundo vulcânico do futebol, se esperaria que tivesse nascido sob as saias fumegantes do Vesúvio, vulcão ativo no sul da Itália. Sua essência, porém, é outra.
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Os primeiros passos em Reggiolo
Todo estrangeiro leva consigo as luzes de suas origens. Ancelotti carrega a calma e a humildade de uma cidade em que o tempo passa devagar. A pacata Reggiolo e seus 10 mil habitantes contrastam com o agito de metrópoles como Milão, Londres, Madri, Munique e Paris, ícones do mundo moderno e palco de vitórias do novo comandante da Seleção.
Na cidadezinha no meio da Emília-Romanha, ele é apenas Carletto, filho de uma família de agricultores, irmão de Angela. Na Itália pós-Guerra, os Ancelotti viviam uma vida simples, sem luxo. A casa típica italiana não tinha banheiro nem televisão, ainda que a energia elétrica iluminasse as noites da casa.
Reggiolo é um microponto no cano da bota desenhada pelo mapa da Itália. Um lugar pequeno, mas de importância imensa para os sabores do mundo. Entre as produções do pai estava o leite para a fabricação do famoso queijo parmesão produzido na região. Em meio a vacas e plantações criou-se a paixão pela comida e pelo futebol.
— Ele era um bom menino, praticava atletismo e ciclismo, depois escolheu o futebol. Ele é um orgulho para todos nós, se tornou um jogador que ganhou tudo, e como treinador também é um vencedor — comemora o seu amigo Aldo Ferrari, dirigente do US Reggiolo, clube amador da cidade.
Carletto ainda retorna a Reggiolo para rever amigos. A vida longe da Itália faz as visitas serem mais raras em tempos atuais. Entre as paradas obrigatórias está o restaurante Il Toscanini. O salão principal conta com pôsteres de diversos filmes antigos. Bem poderia ter um dos filmes “estrelados” por Ancelotti.
Ele era um bom menino, praticava atletismo e ciclismo, depois escolheu o futebol. Ele é um orgulho para todos nós.
ALDO FERRARI
Amigo de Ancelotti
Sem a mesma desenvoltura dos tempos de meio-campista nem o brilho como treinador, figurou em três películas. Duas produções italianas "L'allenatore Nel Pallone" e "Don Camillo". A última foi o blockbuster “Star Trek: Sem Fronteiras”. Nesta última, aparece apenas a sua perna de relance em uma cena.
"Rei" como Falcão
No Il Toscanini, revê amigos de outrora. Companheiros do US Reggiolo. No campinho localizado ao lado do Oratorio San Giuseppe, aprendeu o ofício de meio-campista. Deixou a cidade aos 15 anos para ir a Parma estudar e jogar pelo clube homônimo, ao lado do amigo Marco Fava.
A carreira como jogador
- Parma (1976-1979)
- Roma (1979-1987)
- Milan (1987-1992)
Do clube parmegiano seguiu no fim dos anos 1970 para a capital. Contratado pela Roma, encontrou na Cidade Eterna um certo Paulo Roberto Falcão, ou Falcào, como pronunciam os falantes da língua de Dante Alighieri. Anos depois, podem conversar como dois integrantes da realeza italiana.
Juntos venceram o campeonato italiano na década de 1980. As atuações do ex-camisa 5 colorado lhe renderam o apelido de O Oitavo Rei de Roma. Quatro décadas e tanto depois, Ancelotti também tem uma alcunha digna de um soberano: Carlo V.
Os títulos como jogador
Roma
- Campeonato Italiano (1982–83)
- Copa Itália: (1979–80, 1980–81, 1983–84, 1985–86)
Milan
- Campeonato Italiano (1987–88, 1991–92)
- Supercopa Italiana (1988)
- Champions League: (1988–89, 1989–90)
- Supercopa Europeia: (1990)
- Mundial de Clubes: (1989)
O numeral se refere à quantidade de países em que foi campeão. Ergueu taças nacionais no Milan, no Chelsea, no Real Madrid, no PSG e no Bayern de Munique. Feito inédito no futebol. Mas foi nas proximidades de Reggiolo onde começou a carreira de treinador.
A vida de técnico
Após colecionar golaços de fora da área e títulos como jogador do Milan, se aposentou em 1992 em amistoso contra a Seleção Brasileira. A transição foi rápida.
Logo virou braço direito de Arrigo Sacchi, técnico finalista da Copa do Mundo de 1994. No ano seguinte, assumiu o comando da Reggiana, mais uma vez nas proximidades de sua Reggiolo.
Um início claudicante se transformou em uma campanha robusta, resultando no acesso à Série A do calcio.
— Ele é um predestinado. Era um jovem, mas já sabia alguma coisa sobre ser técnico. Teve uns problemas no começo, mas logo se revelou como aquilo que conhecemos hoje. Ele causou um impacto no time — recorda Marco Ballotta, goleiro da Reggiana e companheiro de Taffarel nos tempos de Parma.

A primeira emoção como técnico quase durou pouco. Por um detalhe, não foi demitido. Os primeiros resultados foram pobres. A direção queria sua demissão. Os jogadores o defenderam. após a permanência, o time levou 4 a 1 do Pescara em uma escalação mais afeita à vontade do elenco.
— Na terça-feira depois desse jogo, ele entrou no vestiário e disse que a partir dali íamos jogar como ele queria. Para fazer como ele dizia. A partir dali, tomamos poucos gols e subimos de divisão. Ele sabe conciliar seriedade e diversão. Sabe o momento de ser sério e de brincar, de sair para jantar com os jogadores, mas sem deixar influenciar para as decisões do time — explica Ballotta.
Um técnico humanista
O zagueiro Antonio Rüdiger conheceu bem o lado afetivo de Ancelotti. Contratado pelo Real Madrid em 2022, o alemão estava há poucas horas na sua nova casa quando batem na porta.
Ao abri-la, deu de cara com o seu novo treinador. Na versão de Rüdiger, o italiano entrou e comeu churrasco com a sua família. Ancelotti afirma que a hora da refeição havia passado e apenas conversou por duas horas com o jogador e sua família.
Ele é um predestinado. Teve uns problemas no começo, mas logo se revelou como aquilo que conhecemos hoje.
MARCO BALLOTTA
Ex-goleiro de Ancelotti na Reggiana.
O Parma do seu início no futebol foi a segunda parada na carreira. Tateando na posição, demonstrou poder ao recusar a contratação da estrela Roberto Baggio. A serenidade da experiência o fez admitir o erro anos depois.
Na sequência, a Juventus. Em Turim, viveu sob a desconfiança de ser vinculado ao Milan. Dois vices-campeonatos italianos, em 2000 e 2001, não ajudaram a melhorar a sua popularidade.
Os títulos de Ancelotti como treinador
Competições internacionais (15 títulos)
- 4 Mundiais de Clubes - 2007, 2014, 2022 e 2024
- 5 Supercopas da Europa - 2003, 2007, 2014, 2022 e 2024
- 5 Champions League - 2002/2003, 2006/2007, 2013/2014, 2021/2022 e 2023/2024
- 1 Copa Intertoto - 1999
Competições nacionais (17 Títulos)
- 1 Campeonato Italiano - 2003/04
- 1 Supercopa da Itália - 2004/05
- 1 Coppa Itália - 2002/03
- 1 Premier League - 2009/10
- 1 Supercopa da Inglaterra - 2009/10
- 1 Copa da Inglaterra - 2009/10
- 1 Campeonato Francês - 2012/13
- 2 Campeonato Espanhol - 2021/22, 2023/24
- 2 Supercopa da Espanha - 2021/22, 2023/24
- 2 Copa do Rei - 2013/14, 2022/23
- 2 Bundesliga - 2016/17, 2017/18
- 2 Supercopa - Alemanha - 2016/17, 2017/18
A amizade com os brasileiros
Desfeitos os laços com a Juventus, reatou seu vínculo com o Milan. Em 2003, venceu os seus primeiros títulos, o italiano e a Champions. Suas conquistas só não foram imparáveis nas passagens por Napoli e Everton. Em todos os outros clubes levantou taças.
Se tornou o primeiro técnico a ser campeão nacional em cinco países diferentes — também é o único pentacampeão da Champions como treinador. Aprendeu a falar francês, espanhol e inglês. Arranha no alemão.
Vencedor em tantos cenários, países e línguas, se adaptar ao Brasil e ao português não deve ser empecilho. Mesmo se apresentar um português escorreito, os jogadores ouvirão algumas palavras na língua-mãe de Ancelotti.
— É difícil demonstrar emoções em outra língua — comentou ao revelar que em alguns momentos recorre ao italiano.
Professores de português não faltarão. Ancelotti sempre esteve rodeado por brasileiros por onde passou. A relação estabelecida na base da amizade a ponto de ter batizado um de seus cachorros com o nome de Pato, em homenagem a Alexandre Pato, seu jogador no Milan.
A carreira como técnico
- Reggiana (1995 até 1996)
- Parma (1996 até 1998)
- Juventus (1999 até 2001)
- Milan (2001 até 2009)
- Chelsea (2009 até 2011)
- Paris Saint-Germain (2012 até 2013)
- Real Madrid (2013 até 2015)
- Bayern de Munique (2016 até 2017)
- Napoli (2018 até 2019)
- Everton (2019 até 2021)
- Real Madrid (2021 até 2024)
Novo técnico da Seleção
A partir de segunda-feira, Ancelotti busca mais um ineditismo para sua coleção: nunca um campeão da Copa do Mundo teve um treinador estrangeiro. Será seu quarto mundial, além de um como auxiliar, foi convocado para as edições de 1986 e 1990.
Lá pelos últimos dias do ano, quando a Fifa sortear os grupos do Mundial de 2026, torcerá para um dos jogos do Brasil ser disputado no Canadá — o torneio também terá Estados Unidos e México como sedes.
O país norte-americano virou uma de suas casas. Suas férias, em geral, são na terra de Celine Dion. Por lá, encontrou um chefe de cozinha para aperfeiçoar seus dotes culinários. Sua especialidade é a massa carbonara, com penne.
O espaguete, segundo ele, não combina tanto com os ingredientes da receita. Família e amigos atestam a qualidade do prato, mas reclamam do processo de preparo um tanto demorado.
A partir desta segunda, o Brasil se acostumará com a elegância e, de acordo com ele, a incontrolável sobrancelha erguida para as novas emoções da vida de Carlo Ancelotti.

— Desejo que ele chegue na final da Copa contra a Itália. Nos todos em Reggiolo estamos muito contentes de ver ele como o novo técnico do Brasil — diz o amigo Ferrari.
Há 150 anos, os primeiros italianos cruzaram o Atlântico para cultivar a terra, erguer cidades, construir um futuro. O imigrante Ancelotti chega para reproduzir o sucesso de seus conterrâneos na Seleção Brasileira. Terá em mãos um terreno fértil o suficiente para prosperar, os melhores jogadores do país do futebol.

