Garotos de 14 a 20 anos que dão duro para se tornar ídolos de Inter e Grêmio vivem uma cultura de consumo e formam uma tribo que ostenta artigos de grife - do tênis ao boné, do cinto às t-shirts, do relojão aos correntões. No curto tempo de folga, são vistos em shoppings portando sacolas de compra como troféus. De Cristiano Ronaldo e Neymar, copiam o corte de cabelo, o figurino e até os deslizes. Pela vaidade, ganham fama de marrentos. Mas por trás de cada roupa de marca, de cada tatuagem, de cada penteado, de cada acessório, há uma história de luta por ascensão social. Eles precisam ser vistos.
Dionathã Silva voltou das férias no final de fevereiro com dois celulares novos e não mostrou muita apreensão pelo fardo de consumo que receberia nos próximos dias: três pares de tênis, camisas esportivas, três shorts, três bermudas, meias, bonés e sandálias. Qualquer garoto teria se deslumbrado com esse kit. Não é o caso do atacante de 18 anos que joga no time sub-20 do Grêmio. A leve indiferença se manifesta porque ele possui quase tudo. Tênis, por exemplo, já calçou 50 pares nos últimos quatro anos.
– Mas acabo ficando só com os lançamentos, três ou quatro deles – afirma, sem que pareça soberba.
Calçados e roupas são benesses do contrato mantido há três anos com a Nike. Desde a época de infantis, duas vezes por ano a empresa lhe envia pacotes com lançamentos da linha esportiva e libera bônus para a linha casual, que ele retira na loja.
Yan Petter, atacante recém-chegado ao grupo principal do Inter, acumulou 80 pares de tênis em quatro anos de ligação com a Nike. Agora, aos 19 anos, mudou de turma, deixou o convívio dos garotos das categorias de base que treinam no centro de Alvorada, trocou o cabelão com franja pelo corte quadrado e alisado no alto – à semelhança do atacante peruano Paolo Guerrero – e entrou na dureza do ambiente profissional do Parque Gigante. Dispõe de menos tempo para a escolha do que calçar.
– Eu guardo os tênis em armários, pelos cantos da casa, por onde der – diz o jogador, que mora com os pais, irmãos, mulher e filho recém-nascido perto da Praça da Encol, em Porto Alegre.

Yan e Dionathã integram uma elite patrocinada desde cedo por fornecedoras de material esportivo – nas categorias de base da dupla Gre-Nal, apenas uma dúzia deles tem o privilégio. O restante das quase três centenas de guris sustenta a vaidade do próprio bolso. Todos formam uma tribo bem visível: usam boné aba reta enterrado na cabeça, relojão dourado, bermuda, calça skinny ou saruel, short e blusa estilosos, correntinhas e correntões, cintos com fivelões que demarcam a grife – e tatuagens, muitas tattoos serpenteadas dos pés à cabeça.
– Se você passar por garotos tatuados andando pelo shopping, pode apostar, são jogadores de futebol – diz um empresário que deixou de trabalhar com atletas de base justamente por discordar da futilidade dos meninos em início de carreira.
A estética passa próxima ao funk ostentação, mas o que eles escutam é pagode, sertanejo universitário e funk da hora como o Tá tranquilo, tá favorável, cuja dancinha reproduzem nas comemorações em campo. Longe do trabalho, a garotada posta freneticamente em Facebook, Instagram, Twitter e Snapchat. Eles precisam, com urgência, ser vistos.
Os fashionistas da bola aparecem em shoppings e restaurantes. Assistem a filmes de ação e curtem o cerco das meninas. Alguns passam o tempo escolhendo roupas. Desfilam em grupos e carregam sacolas de compras como troféus. São considerados marrentos ou mascarados porque exibem sinais de rápida ascensão e dão a impressão de gastar mais do que podem. Ou porque andam circunspectos, com ar de adultos, que é como se comportam os profissionais em público, em expediente de proteção. Há pitadas de prejulgamento e inveja quando os guris descolados são chamados de balaqueiros.
– É preconceito puro condenar esses garotos. Nos dias de hoje, todos ostentam de alguma maneira. Por que censurar uns e aceitar outros? Esses guris do futebol se veem como grandes que ainda não são e consomem para atender a uma demanda reprimida. Nunca tiveram nada, agora o dinheiro chegou e eles estão vivendo – analisa o psiquiatra Mário Corso.
A pleno caminho na carreira, os jovens dão duro nos treinos, sofrem avaliações rigorosas e juram manter o foco, apesar do uso impulsivo do videogame e das redes sociais no inseparável celular. Alguns se complicam desde cedo por causa da indolência e da imodéstia em consequência da superproteção que trazem de casa. Só não circulam de carrões importados porque ainda é cedo. Seria necessário salário de profissional bem-sucedido. A questão é saber se a devoção à aparência vai permitir o sucesso no futuro.
"Eu me sentia rebaixado. Agora, quero ter tudo", diz Dionathã
Dionathã passou as férias com os pais e os sete irmãos em Rebouças, município de 15 mil habitantes a 145 quilômetros ao sul de Curitiba. Os Silva moram em um cortiço de uma comunidade carente. É para lá que o atacante viaja nos raros períodos de folga. Sua visita na vila é aguardada com ansiedade. Há dois anos, ele distribui sacolas de tênis, bonés e roupas da Nike a manos, amigos de infância e asilos de Rebouças e da vizinha Imbituva. Os artigos são de pouquíssimo uso, às vezes com a etiqueta de novos ainda pendurada.
– Faço a festa na minha terra. Só podia, não é? O pessoal não tem, tenho de ajudar – explica.
Os colegas da residência das categorias de base do Grêmio, em Eldorado do Sul, também são presenteados.

– Muitos garotos do alojamento não têm como comprar tênis, vivem a dureza que eu passei um dia. Vocês veem um guri de tênis da moda e não sabem o que se passa por trás _ afirma Dionathã.
Antes do Grêmio, nos infantis do Avaí, Dionathã sofreu quando chegou a Florianópolis em roupas simples de quem vinha de uma comunidade pobre no Paraná. Seguidas vezes foi alvo de bullying:
– Me sentia rebaixado. Alguns meninos falavam direto das minhas roupas, outros corneteavam pelos cantos. Era humilhação. Agora, eu quero ter tudo.
A maioria dos guris carrega história semelhante à de Dionathã. Se um garoto aparece com o tênis da moda, os olhos dos demais faíscam de desejo.
O consumo começa nas escolinhas de futebol. Crianças de nove a 13 anos se paramentam com lançamentos de grifes esportivas. Durante a semana, mirins do Grêmio deixam os campos do centro de treinamento na Avenida Diário de Notícias, no bairro Cristal, e visitam as lojas do BarraShoppingSul para namorar a chuteira colorida e o boné mais recente. Provam o que lhes interessam e retornam aos sábados para fazer a compra, em companhia dos pais.
Na fase seguinte, a de infantis, entre 14 e 15 anos, eles passam a viver em alojamento dos clubes. As residências do Grêmio ficam na BR-290, a caminho de Eldorado do Sul, e as do Inter se localizam em Alvorada. São ocupadas por meninos de outros Estados ou por garotos locais sem condições de bancar alimentação correta e deslocamento até os centros de treino. Reclusos, eles passam os dias à espera da folga do fim de semana, quando ônibus dos clubes os deixam no shopping no início da tarde para resgatá-los pouco antes das 19h.
Os guris ganham ajuda de custo de R$ 150 a R$ 200. Alguns precisam se manter, comprar artigo escolar e, às vezes, mandar algo aos pais – uma conta difícil de fechar. Por essa época, o consumo é mais funcional. Não namoram, frequentam loja de departamento e vestem o padrão adolescente, sem descuido do videogame e do celular, mais ou menos atuais.
As compras explodem quando o atleta assina, por lei, o primeiro contrato aos 16 anos e passa a receber salário. Já são juvenis. Dependendo do caso, acertam por dois, três, quatro anos, e ganham a partir de R$ 1,5 mil. Dos 17 anos em diante, integram os juniores e podem embolsar até R$ 8 mil – cerca de nove salários mínimos. Se for do interesse do clube, os jogadores renovam cedo e saltam a R$ 20 mil ou mais antes de subirem aos profissionais.
Seduzidos pelo encanto do dinheiro, tornam-se assíduos em lojas que até então frequentavam como diletantistas à procura de ofertas. As despesas triplicam com tatuagem nova, corte semanal de cabelo, celular de última geração.
– O contrato deixa a gente consciente com o futebol e com a imagem. Mudam a turma e os hábitos e aumenta a concorrência – conta o atacante Ariel Marques, do time sub-20 do Inter.
A concorrência a que ele se refere é a dos estileiros. Ariel nem é dos excêntricos. Dispensa boné. No dia 23 de fevereiro, em meio ao forte calor do verão, ele concedeu entrevista a uma rádio de Porto Alegre usando óculos espelhado, bermuda e blusa de loja de departamento, mas tênis-bota, relógio e cinto de grifes. Casado, aos 19 anos, repassa a familiares e amigos o que descarta, embora conserve estoque permanente de três botas de tênis, 20 camisetas de marcas, 15 bermudas e infinidade de acessórios.
– Eu passo mais tempo do que a minha mulher escolhendo roupas nas lojas – empolga-se.
Recém-chegado ao grupo principal do Inter, o atacante Bruno Baio é quase um jogador de basquete no ambiente do futebol. Veste t-shirts long size por causa do 1m97cm e só se desfaz do boné – tem 30 deles – durante treinos e jogos. A mais recente providência foi comprar um novo roupeiro, grande o suficiente para armazenar suas pequenas coleções, como os 25 tênis das cores mais extravagantes. O móvel foi exigência da avó, Saura, com quem o atacante mora desde que deixou o alojamento em 2014.
Bruno chegou aos 13 anos de Cosmópolis (SP), levemente preocupado com a aparência. Com o primeiro contrato dos 16 anos, alcançou uma conclusão transcendental:
– Eu pensei à época: as gurias não ficam olhando para o cara de chinelos, não é?
É transgressão ética repetir a roupa durante a semana. Em Alvorada, quem peca está sujeito a comentário maldoso do tipo "colou no corpo?", ou o debochado "teu estilo está cansado". Do contrário, ouvirá que o "look está fera". Trocas e empréstimos de roupas e acessórios são frequentes. Ajudam a circular a variedade, amarram a cumplicidade e evitam o escárnio. Só os goleiros estão livres da pressão. Vivem de sobriedade em um grupo à parte.
Com frequência, a vaidade vira o fio. Um jogador da base do Grêmio se recusou a usar o uniforme de passeio antes de uma viagem. Não combinava bem. Acabou sendo retirado da viagem.
"É a lógica do 'quanto mais eu sou visto, mais eu sou'", diz psicóloga
Ariel correu para comprar os mesmos óculos de grau com lentes escuras da coleção de Neymar no outro dia após o lançamento. Os jovens estileiros de Inter e Grêmio saíram aos shoppings à procura do item divulgado com frisson em mensagens de redes sociais. Em pouco tempo, circulavam com o fetiche.
– Um fala para o outro, alguém pede para o amigo comprar, a gente dá um jeito de conseguir o que quer – conta o meia Jean Pyerre, do sub-20 do Grêmio.
Às vezes, a compra pela internet resolve a inquietação pela novidade, que pode ser passageira. Ariel manteve intactos os óculos de Neymar. Jamais tirou da gaveta.
– Era só o que se falava na época, e todos tiveram um. Depois, eu vi que não servia para mim e nem usei. Comprei outro – recorda Ariel.
Psicóloga e psicopedagoga infantil, Aidê Knijnik vê nos traços de consumo dos garotos do futebol a mesma gana pelo exibicionismo nos jovens das classes A e B que atende no consultório:
– Há meninos que usam cartão de crédito sem limite. Os pais estão perdidos, está difícil educar e competir com as redes sociais. Vale o sentimento do "quanto mais eu sou visto, mais eu sou".
Raphael Stard, meio-campista do time sub-19 do Grêmio, veio da cidade de Pentecostes, a 90 quilômetros de Fortaleza. O pai trabalha com mototáxi, e a mãe é professora primária. Aos 17 anos, Raphael cursou apenas o Ensino Fundamental. Há quatro anos patrocinado pela Adidas e ligado a grande empresário do futebol, ele se espelha no ídolo Luan – no futebol, no comportamento e no look. Usa a mesma chuteira do craque.
– Eu vejo o jeito dele jogar e os detalhes, a humildade, o carinho pela torcida e o estilo de vestir. Copio quase tudo, a gente tem o mesmo patrocínio, é mais fácil. Agora, boné é outro chip – brinca, fazendo alusão ao imenso sortimento de modelos.

O atacante Éverton, de cabelo com frisos nas laterais, e o lateral Wallace Oliveira, de corte degradê, também encantam o imaginário gremista. O corte quadrado e amaciado com leve queda para o lado do zagueiro Paulão e os estilos cariocas de Vitinho e Anderson cativam os descolados do Beira-Rio.
Quem faz o corte dos colorados é o cabeleireiro Barão, sócio do salão Babu, no bairro Medianeira. Os titulares são assíduos, e a gurizada da base virou cliente regular. É comum o cabeleireiro atender aos jogadores no hotel da concentração ou em domicílio.
Os gremistas frequentam a filial do bairro Azenha. O cabeleireiro Deivid Belo atende Marcelo Grohe, Lincoln, Kaio, Wallace Oliveira, Fernandinho e poucos garotos. Fica caro ao pessoal da base tomar táxi do alojamento de Eldorado até a Capital.
Titulares deixam rastros de fotos no Instagram e multiplicam a estética do boleiro. Anderson vai adiante. Posta no Snapchat vídeos com seu carrão de teto solar – e tudo isso bate no coração dos jovens fãs e se instala como projeto na cabeça.
Antes de rumar para o River Plate, D'Alessandro ditava moda e personalidade no Beira-Rio. Em visitas ao CT de Alvorada, hipnotizava a plateia de meninos, que ouviam seu recado sobre foco no trabalho e se encantavam com suas tatuagens.
O que despertou o colorado Yan Petter ao consumo foi o convívio com os jogadores paulistas e cariocas das seleções brasileiras de base. Em convocações desde os 13 anos, ele reparava nas camisas justas usadas pelo meia-atacante Robert, à época no Fluminense e desde 2015 no time B do Barcelona. Ou as roupas largas do atacante Kenedy, também do Fluminense e hoje no inglês Chelsea.
O patrocínio da fornecedora de material esportivo foi fundamental para dar vazão à vaidade. Os pais, Etelvino da Silva, 60 anos, segurança no Fórum de Porto Alegre, e Valkiria Pereira, 54, dona de casa, não teriam condições de bancar os gastos de Yan. São mais três filhos a cuidar.
Desde janeiro entre os profissionais, Yan evita comentários sobre moda. Repara nas camisas, nos relógios e nos brincos de Paulão. Trocam rápidos cumprimentos e falam sobre futebol. Nada mais.
– Tenho respeito por eles. Recém estou chegando, não fica bem falar sobre roupas – alega Yan, pai do menino Enzo, de sete meses.
Quando Neymar apareceu com o cabelo moicano na época dos garotos do Santos, a febre se espalhou e bombou até sair de moda (embora resista, com adaptações). O brasileiro, ousado, traja blazer com bonés. O momento fashion de Messi se restringe ao smoking colorido em premiações da Fifa. Cristiano Ronaldo exibe em telões a adoração pelo cabelo e pelas sobrancelhas. O inglês David Beckham já foi referência ao sobrepor peças e usar trajes slim. Infantis e juvenis não copiam apenas cabelos e chuteiras coloridos. Repetem das caretas do lateral Daniel Alves ao sair substituído de campo à vazia expressão "é tóis" de Neymar.
Na última Copa Santiago, torneio de projeção nacional para garotos sub-17, o meia Raphael Stard, do Grêmio, olhou para um lado e tocou para o outro, típica jogada de Ronaldinho. Após o jogo, a equipe do empresário tratou de alertá-lo:
– O que é isso, rapaz? Está podendo, hein?
Raphael prometeu não fazer mais.
O português Cristiano Ronaldo, do Real Madrid, endereçou gesto obsceno à torcida do Barcelona durante um clássico. Dias depois, garotos reproduziram a cena diante de sua própria torcida. Não entenderam o código, apenas copiaram.
"São homens quando querem, crianças quando lhes interessa", queixa-se coordenador da base gremista
Coordenador-geral dos times da base do Grêmio, Júnior Chávare lamenta que legiões de garotos estejam se "enganando" com o modismo. Há o agravante do afago de empresários, raros hoje, que dão R$ 5 mil, R$ 10 mil ao seu jogador sem exigir plano de carreira, e o garoto cresce achando natural ganhar dinheiro fácil.
– Muitos trazem os vícios da superproteção. Os pais inflam demais o ego, os filhos se acham craques desde cedo. O garoto não luta por um prato de comida, já busca a sobremesa – compara Chávare.
Ser fashionista convicto não impede a dedicação ao trabalho. O volante gremista Natan Almeida, 18 anos, é um dos primeiros a chegar e último a sair.
– Ostentação não pega bem no alojamento, sempre tem a desconfiança dos profissionais. Mas há casos e casos – repara o dirigente.
A cultura de gastança acontece a despeito de assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas e de cursos e palestras sobre finanças, que ensinam a investir em imóvel e a planejar o futuro. Ainda assim, é necessário confiscar celular e videogame às 22h. Do contrário, vão dormir às 2h ligados no WhatsApp.
– Ou o clube toma conta ou perde para as redes sociais. Eles são homens quando querem, crianças quando lhes interessa – afirma Chávare.
Coordenador da base do Inter, Vilmar de Freitas minimiza as excentricidades e valoriza o estudo. Abriu uma biblioteca no alojamento de Alvorada, na esperança de que os guris se interessem pela leitura.
– Não é o cabelo que nos preocupa, não é isso que mostra a educação de um atleta jovem – diz Freitas, orgulhoso do destino de Andrigo, Gustavo Ferrareis, Alisson Farias, Bruno Baio e Yan Petter, alguns dos jogadores que recentemente subiram ao grupo principal.
O meia gremista Jean Pyerre, 17 anos, está a caminho dessa notoriedade. Com Ensino Médio completo, pensa em estudar inglês – vá que seu futuro seja em Londres.
Entrega o salário inteiro aos pais, Eduardo da Luz Corrêa, segurança do Hospital de Clínicas, e Luciana Casagrande Silveira, dona de casa. Para comprar boné John John ou t-shirt Dabliu Costa, usa cartão controlado pelos pais, com quem mora no Jardim Algarve, em Alvorada. Tem patrocínio da Adidas, e seu modelo é Pogba, o francês da Juventus, de roupas transadas, visual arrojado e futebol intenso. Poderia copiar tudo, menos as tattoos.
– Tenho medo de me arrepender. Muitos camaradas se arrependem e acabam colocando uma sobre a outra. Só vou fazer uma quando encontrar a que eu goste – promete, com a concordância da namorada, Ana Luiza.

A maioria anda como o colorado Yan Petter, dono de 26 tatuagens. Dionathã convive com 15. Já pagou R$ 1 mil por uma delas, mais de R$ 10 mil no total. As mais visíveis estão no pescoço: um beijo feminino em vermelho e os nomes da mãe, Vilma, e do pai, Arnaldo, funcionário de madeireira em Rebouças, que sempre condenou os desenhos que o filho fazia.
– O pai não iria arrancar o meu braço. Então, fiz as tatuagens. Uso o que gosto. Passei muita necessidade na infância, e hoje eu sou como quero e nem dou importância para o que falam – diz.
O Yan Petter de hoje, com o corte estilo Paolo Guerrero, está discreto perto do cabelão descolorido que mantinha até 2015. Mudou o penteado após veladas recomendações no alojamento de Alvorada.
– Coloquei para o lado, quero evitar qualquer problema – justifica Yan, que ainda assim despende 20 minutos de trato no cabelo antes de sair de casa.
Ele já se complicou por causa da aparência. Após várias convocações para as seleções brasileiras de base, foi convidado a cortar o cabelo e a retirar o brinco. Recusou-se e ficou fora dos jogos seguintes. Em conversa com os pais, concluiu que seria melhor seguir a norma da comissão técnica do time sub-17, e só então Yan retornou à seleção.
A transformação do zagueiro Eduardo Bauermann ocorreu aos 16 anos. Recém-chegado ao Inter, em 2012, com tranças dreadlocks, causou desconforto. Os dirigentes não falaram ao rapaz, mas pediram ajuda ao empresário, que o chamou ao escritório:
– Como estão as coisas lá no Inter? Estão te tratando bem? Quem sabe você surpreende os caras e corta o cabelo...
Bruno Baio também já foi mais radical. Usava jaquetas com imagens de dólares, estilo pimp (cafetão), usual entre os rappers. Ou se divertia vestindo camisas com estampas de mulher. Com justiça, conquistou o título de mais "fera" entre os estileiros.
– Eu tinha uma roupa estranha e achava que estava bonito – ri Bruno.
Devido a clamorosas e insistentes reclamações da namorada, Ana Paula, o atacante ao menos deixou de lado as figuras monetárias. O dinheiro, agora que passou aos profissionais, está nos seus bolsos. Ele gasta mais. Da viagem aos EUA com o Inter que disputou o torneio da Flórida, trouxe quatro relógios, tênis e corrente com o medalhão de Jesus Cristo.
Descolados ou não, uma diversão de juvenis e juniores é sair para jantar. Grupos são vistos com frequência em restaurantes do momento, em geral no BarraShoppingSul. Ali, os fashionistas se expõem mais e são mais facilmente identificados como jogadores de futebol – e tratados de marrentos. Se o atleta é do seu clube do coração e o time vai mal, mais o torcedor encontra razão na intolerância.
– É um grande preconceito condenar esses garotos. Eles se mostram porque precisam construir um ego. A cabeça é vazia? Pode ser. Por isso é maior a procura por uma identidade. Imaginem a frustração desses meninos se voltassem para a casa com o mesmo sinal de pobreza que tinham antes do futebol. Qual é o sentido? A sociedade pede consumo, e eles funcionam hoje como um vingador da família – analisa o psiquiatra Mário Corso.
Tímido e reservado, Jean Pyerre sorri fácil ao contato com o público. Não aceita os adjetivos de mascarado ou balaqueiro, como os fashionistas costumam ouvir da torcida:
– Nada que falam por aí é verdade. Não tem ostentação e não tem arrogância alguma nisso. Trabalhamos muito e queremos curtir as nossas coisas. Não somos mais do que ninguém.
O excesso de vaidade afugenta empresários, como Paulo Roberto Curtis Costa, ex-lateral do Grêmio, e o advogado Roberto Garroni. Ambos desistiram de trabalhar com atletas de base.
– Quando o cara tem consciência profissional, tudo bem, pode usar o que quiser. Mas os guris, esses irritam – reclama Paulo Roberto.
O lateral esquerdo Márcio Duarte cedo entrou para o Inter e se tornou personalidade juvenil na Cohab Cavalhada, bairro carente da zona sul de Porto Alegre. Tinha 13 anos. Já curtia roupas bem transadas compradas com o curto dinheiro dos pais, o aposentado Marçal Alves Duarte e a enfermeira Nara Maria. Quando passou a ganhar o primeiro salário aos 16 anos, foi às compras. A vida de estileiro se firmou na base do Inter. De tão diferente na vila, era chamado de "Negro Moda". Cinco anos depois, o clube abriu mão de Márcio. Ele tinha 18 anos, e até hoje segue por uma sequência de clubes. Agora, aos 24 anos, joga no Esportivo, de Bento Gonçalves, na segunda divisão do Campeonato Gaúcho. Ele nega que a devoção à beleza tenha prejudicado a carreira.
– A concorrência era grande demais, eu não fiquei porque futebol tem disso. Não acho que tenha saído do Inter por causa da minha preocupação em vestir bem – explica o lateral, que forma um casal estileiro com a bióloga Nicole Athaídes.
Seu empresário, o advogado Roberto Garroni, achou prudente aconselhá-lo a pensar mais na carreira e a gastar menos com roupas. Márcio se conteve um pouco, mas retomou a vida fashion. Garroni acabou cortando o vínculo com o jogador. Cansou de servir de empresário, pai e gestor da vida dos garotos.
* Zero Hora

