
É comum associar jogadores de alto nível a uma vida perfeita. Porém, a falta de disciplina e o deslumbre com altos salários podem comprometer carreiras e vidas no pós-futebol. Em entrevista ao ge.globo, o ex-atacante Jô abriu o jogo sobre problemas fora de campo e revelou que considera sua passagem pelo Inter como "terrível".
A chegada a Porto Alegre ocorreu em 2011, após anos no futebol europeu e sob grandes expectativas: Jô assinou contrato de quatro anos com o Inter para substituir Leandro Damião, que acabou não sendo negociado.
— Foi um momento difícil. Porque vim de uma passagem até mais ou menos pelo City, mas já com seis, sete anos de Europa. Venho para o Inter para o lugar do Damião. Só que ele acaba não sendo vendido. E ainda dou um azar, que foi o melhor ano da carreira dele (2011). Chego para me readaptar ao futebol brasileiro, mas, com uma passagem na Europa, fica tudo mais difícil. Não consigo me readaptar com a velocidade que achava, tive problemas de extracampo, então foi uma passagem bem complicada.
Indisciplina
Jô veste a camisa colorada entre 2011 e 2012, período que ficou marcado pela indisciplina fora de campo. Ele admite que a falta de comprometimento começou a se agravar:
— O que eu tiro de lição é que, independentemente da dificuldade, você tem que manter a sua postura. Em algum momento, por ter vindo e ficado no banco, acabei ficando irritado e fazia coisas de extracampo que começaram a se complicar. Por isso considero uma passagem bem difícil da minha carreira.
E relembrou que as discussões internas acabaram intensificando a crise:
— Comecei a brigar com o treinador, com o presidente, com o diretor. O Fernandão era um cara que, quando cheguei, me abraçou, só que depois, no decorrer das coisas, eu comecei a culpá-lo também.

Entre os problemas, Jô não esconde que as festas e o abuso no consumo de álcool tiveram peso decisivo:
— Acho a palavra "alcoólatra" muito forte, o caso era de que não tinha controle. Não era todos os dias (que bebia), mas, quando acontecia, eu não tinha freio: "não, espera aí, já deu, vamos parar aqui". Talvez os profissionais de saúde digam: "mas isso aí é alcoolismo". No meu entendimento como ser humano, acho que não era. Hoje, graças a Deus, tenho esse controle, mas foi bem complicado.
Perda de viagem
Um desses episódios resultou em um dos momentos mais marcantes de sua passagem pelo clube: Jô não viajou com a delegação para enfrentar o The Strongest, pela Libertadores, por não conseguir se apresentar após uma noite de exageros:
— Não era nem que eu bebia todo dia. A questão era mais, por exemplo, dia que antecedia viagem. A gente tinha que se apresentar no outro dia às 7h da manhã, porque era uma viagem Porto Alegre-São Paulo-Bolívia. Às 4h eu estava bebendo ainda. Como é que deita e dorme? Não acorda, não tem como. Essa irresponsabilidade, às vezes, era minha. Se acaba um jogo, no outro dia é folga, não vejo problema. Como qualquer trabalhador que trabalha de segunda a sexta, aí sábado é sua folga, você vai tirar o seu lazer.

O próprio jogador resumiu o período:
— Foi uma passagem terrível no Inter. Isso é natural no ser humano, mas nós, atletas, às vezes não entendíamos que trabalhávamos com o corpo. Acho que isso me atrapalhou bastante naquela época. Não era nem todo dia, mas era em momentos inadequados.
Festas de Ronaldinho
Depois de 36 jogos e seis gols pelo Inter, Jô deixou o clube em 2012 e seguiu para o Atlético-MG, onde se consagrou como campeão da Libertadores (2013) e da Copa do Brasil (2014), ao lado de Ronaldinho. Jô revela como eram as festas do camisa 10:
— Então, essa é a imagem, ou a coisa de algumas pessoas. "Ah, caraca, uma festa do Ronaldinho é..." Não é, cara. Ronaldinho é um cara muito tranquilo. O negócio dele é ficar sentado, fazer o pagode dele e estar com os amigos dele. Cara, é só isso. Tem gente que já fantasiou a festa como uma das piores festas do mundo, em questão de bagunça total. Eu falava: "cara, não é isso". Ele fica no cantinho dele, toma o negócio dele, a gente faz o pagode, conversa com os amigos, dá risada. Essa é a festa que ele faz. É que tem gente que fantasia muita coisa. Isso aí é folclore. Já teve vezes em que ficamos dois, três dias lá (na casa de Ronaldinho), mas ele não obriga ninguém a ficar. Fica porque quer, porque está bom.
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