O dia 16 de agosto de 2006 começou frio e chuvoso no Rio Grande do Sul. Seria mais uma quarta-feira típica do inverno gaúcho, não fosse o evento único que estava por vir. À noite, o Beira-Rio sediaria uma das mais esperadas e importantes batalhas dos 97 anos de história do Inter. Contra o São Paulo, o Colorado almejava o inédito título da Libertadores, jogando com a vantagem conquistada na vitória por 2 a 1 no Morumbi, uma semana antes.
Mesmo antes daquele dia, os torcedores já estavam mobilizados para o duelo que começaria às 22h. A expectativa era enorme para ver o clube amado levantar a taça mais cobiçada da América do Sul. Em cada alma colorada, formou-se um mosaico de sentimentos antagônicos ao longo da jornada, da esperança à ansiedade e à aflição, até culminar na alegria e no orgulho.
Pai e filho relembram o jornada até o título

Fardados, protegidos do frio e usando capas de chuva, o advogado Francisco Junior de Avila, hoje com 30 anos, e o pai, Francisco de Avila, contador de 65, estavam entre os 57 mil torcedores presentes no Beira-Rio.
Naquele 16 de agosto de 2006, Junior tinha apenas 10 anos e já estava no palco da decisão desde as 15h, na esperança de ver o Inter dar a volta olímpica.
— Foi minha primeira emoção em um estádio, e acho que só algum tempo depois fui ter a real noção do que foi aquele dia. Eu estava bastante apreensivo, mas talvez não tivesse dimensão do que valia aquele jogo.
O pai já estava calejado. Vira o time campeão na década de 1970, mas também testemunhara as desilusões de 1980, na final contra o Nacional, e de 1989, na semifinal diante do Olimpia. Ainda assim, segundo Francisco, havia esperança e tranquilidade de que o título viria.
— Claro, sempre havia o receio, porque o São Paulo era tricampeão mundial e tinha condições de virar o jogo novamente. Mas eu estava mais com a sensação de que agora vai dar, né?

Foi minha primeira emoção em um estádio, e acho que só algum tempo depois fui ter a real noção do que foi aquele dia.
FRANCISCO JUNIOR DE AVILA
Advogado, 30 anos
Os protagonistas da noite
Concentrado para o jogo mais significativo da carreira, Abel Braga procurava manter a calma, sabendo que teria pela frente um adversário para lá de complicado. Além disso, não havia como deixar de lembrar da vez em que viu, da casamata, o Inter ser eliminado pelo Olimpia. A comparação era inevitável, já que aquela partida ocorreu no Beira-Rio e a equipe gaúcha também tinha a vantagem do empate. Porém, o otimismo falava mais alto.
— Eu dormi absolutamente tranquilo. Acordei, claro, com um frio na barriga. Não posso dizer que isso não existe, porque existe. Mas ver a maneira como nós estávamos sendo conduzidos pelo torcedor era uma coisa que mexia comigo. Pô, vai ser o maior título da minha carreira, vai ser o maior título da história deste clube — relembra o então treinador colorado.
Pô, vai ser o maior título da minha carreira, vai ser o maior título da história deste clube.
ABEL BRAGA
Técnico campeão da Libertadores de 2006
Entre os comandados de Abelão, o jogador e, ao mesmo tempo, torcedor colorado Tinga seria um dos principais personagens da história escrita naquela noite. Os momentos vividos por ele e seus companheiros no hotel em que o Inter ficou concentrado seguem enraizados em sua memória.
— Passar pelo corredor com as pessoas chorando, gritando, batendo em ti. "Cara, só preciso disso hoje", "Se vocês ganharem hoje, na vida, eu posso morrer amanhã". Escutava tudo ao mesmo tempo, aquela confusão. Sabia que ia ser algo único.
Hora do jogo
Então, chegou o momento definitivo. No estádio, nos bares e nas residências, torcendo ou secando, o foco era total no que ocorreria no gramado.
O confronto começou como se imaginava. O São Paulo era o campeão mundial do ano anterior e não estava em Porto Alegre para ser coadjuvante da festa. A equipe de Muricy Ramalho, velho conhecido dos colorados, foi ao ataque e tentou, desde os primeiros minutos, acabar com a vantagem que Rafael Sobis havia dado ao Inter no Morumbi.
— O medo veio, a apreensão veio, com certeza. Mas o São Paulo começou a perder gols. Teve aquele no início, que acho que foi o Lugano quem chutou ali. E a gente começou a perceber que o time estava encaixando — lembra o pai.
Os sinalizadores acesos pela torcida acabaram ajudando a interromper a pressão tricolor. A “fumaça copera”, que paralisou a partida por alguns minutos, dissipou a tempestade são-paulina que caía sobre a área colorada.
— Acho que aquilo segurou o São Paulo também. Tudo naquele dia jogou a favor, né? — comenta Junior.
Fernandão abre o placar

Então, foi aquela explosão, aquela alegria, aquela emoção, felicidade, choro... Veio tudo ao mesmo tempo.
FRANCISCO DE AVILA
Contador, 65 anos
Eram 29 minutos quando Fernandão mais uma vez mostrou por que tinha o status de predestinado. Aquela jornada não poderia terminar sem que o goleador e ídolo colorado deixasse sua marca. Falha grotesca de Rogério Ceni. Não importa. A explosão no estádio e nas ruas deu a dimensão da importância do feito, como descreve Francisco:
— O Rogério larga, né? Quando pega e larga, ali eu pressenti que era a hora do gol mesmo. Então, foi aquela explosão, aquela alegria, aquela emoção, felicidade, choro... Veio tudo ao mesmo tempo.
Ouça o gol de Fernandão narrado na Rádio Gaúcha:
Porém, o São Paulo não se rendeu e, aos cinco minutos do segundo tempo, empatou a partida. O zagueiro Fabão, após passe do companheiro de defesa Lugano, mostrou que não seria uma noite fácil para os colorados.
Tinga, o herói

Enquanto os paulistas pressionavam, o Inter aproveitou uma brecha, aos 21 minutos, e conseguiu passar mais uma vez à frente no placar. Sob os olhos dos torcedores aflitos na arquibancada decorada com uma faixa que dizia "Librelato Vive", Tinga cabeceou a bola para o fundo das redes e saiu para comemorar. Gritos emocionados dos colorados e a narração poética com “Soy Loco Por Ti América, Soy Loco pelo Internacional” de Pedro Ernesto Denardin, na Rádio Gaúcha, eternizaram o momento.
Ouça o gol de Tinga narrado na Rádio Gaúcha:
E como aquela noite estava destinada a ser teste para cardíacos, o árbitro argentino Horacio Elizondo deu o segundo cartão amarelo e expulsou Tinga por ter levantado a camisa na comemoração.
— No mesmo momento de alegria, euforia de poder estar fazendo o gol com a possibilidade de título, nos segundos depois eu já estava vivenciando o drama. Ou entrar para a história positivamente ou entrar para a história negativamente — relata Tinga.
É inegável que havia medo entre os colorados, principalmente quando o São Paulo empatou novamente, como Lenilson, 39 minutos.
— Lembrava lá de 1980, né? Pô, será que não vai dar de novo? — reclama Francisco.
— Medo não. Deu uma ansiedadezinha, aquele finalzinho, não é? São Paulo começou a colocar a bola lá para dentro, lá em cima da área e tal, mas os zagueiros fizeram muito bem, o Clemer, aquela coisa toda — relata Abel.
O São Paulo não deu sossego e foi em busca da vitória que levaria a decisão para a prorrogação.
— Nós sabíamos exatamente o que aquilo representava. Não era apenas ganhar. Aquilo representava conquistar o maior título da história do clube e alcançar algo que o maior rival do Estado já tinha.
A confirmação do tão esperado título
Então veio o apito final, aos 48 minutos. Nunca antes os colorados haviam se sentido tão aliviados. Qualquer sentimento negativo que pudesse ter existido foi transformado em alegria e, mais tarde, em orgulho. A liberdade poder dizer que eram campeões da Libertadores.
— Nos abraçamos, choramos os dois ali. Eu lembro de uma palavrinha dele: "Pai, eu quero ir para a Goethe". O rival já tinha sido campeão da América duas vezes, e a gente batia na trave. Ali, sim, veio uma emoção, um orgulho de ser colorado. Orgulho de dizer: "Eu sou campeão da América também" — diz, emocionado, o torcedor ao lado do filho.
Nos abraçamos, choramos os dois ali. Eu lembro de uma palavrinha dele: "Pai, eu quero ir para a Goethe".
FRANCISCO DE AVILA
Contador, 65 anos
O que ficou para os Franciscos, pai e filho, para Abel Braga, Tinga e os milhares de colorados que acompanharam a decisão foi um sentimento de alegria e a expectativa de que novas histórias ainda seriam contadas.
— Depois eu consigo dizer: "Eu sou campeão do mundo". O que pode ser melhor do que isso? Incrível — completa Abel Braga.
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Colaborou: Valter Junior





