
De perfil discreto, Paulo Pezzolano não costuma detalhar publicamente sua forma de trabalhar, mas também não foge de dizer o que pensa. O treinador de 43 anos tem um modelo de jogo preferido, mas não vê problemas em adaptá-lo quando necessário. Foi exatamente o que precisou fazer no comando do Inter no primeiro semestre e o que espera manter no segundo, com um ou outro ajuste.
O técnico uruguaio recebeu a reportagem do Esporte da RBS para uma entrevista exclusiva no CT Parque Gigante, em meio aos últimos treinamentos antes da retomada das competições. Durante cerca de 20 minutos, avaliou os trabalhos da intertemporada, comentou as mudanças no grupo e a expectativa para o restante do ano.
E deu um recado ao torcedor: não esperar grandes mudanças na equipe após os 30 dias de treinos. Evolução e melhorias podem ocorrer, claro, mas o objetivo segue o mesmo do início do ano: fazer um Brasileirão seguro, sem brigar até a última rodada contra o rebaixamento, como no ano passado.
— Algum detalhe diferente vai ter. Às vezes, vai ser um jogo mais lindo, mais propositivo, ofensivo, vertical, intenso. Em outro momento, será um jogo em que precisamos de resultado. Temos de ser inteligentes e estar por cima do que eu quero e gosto como treinador. Hoje o Inter precisa de resultados, então vamos procurar isso de diferentes maneiras — afirmou o técnico.
Confira trechos da entrevista
Como foi a preparação para o retorno às competições?
Estamos tentando seguir melhorando a sequência que vínhamos fazendo no campeonato, dentro do modelo de jogo, dentro do momento dos jogos. Então, estamos tentando agora baixar um pouco o ritmo para chegar bem ao campeonato nesses últimos treinos, porque se treinou muito bem desde as primeiras semanas, muito forte, muito intenso. Agora estamos tentando afinar os jogadores para chegar com um bom ritmo contra o Cruzeiro.
Você priorizou algo em específico durante esse período de treinos?
O físico é o mais importante quando você retorna depois dessa quantidade de semanas livres que tivemos, mas nós sempre estamos trabalhando dentro do campo, o defensivo, o ofensivo, os diferentes momentos do jogo, que é a realidade do futebol. Você pode trabalhar muito no defensivo hoje, mas amanhã você precisa propor o jogo, precisa saber o que tem que fazer ofensivamente. Então, os tempos vão variando, vamos vendo o que necessitamos para chegar até o campeonato. Ter uma boa dose de treino defensivo, ofensivo, para estar preparado para diferentes momentos do jogo.
O que mais preocupa: defesa ou ataque?
Tivemos um começo que não foi muito bom em termos de resultado, foi muito bom o futebolístico, mas não o resultado. Então trocamos um pouco dentro do que nós tínhamos, o que nós achávamos, aí começamos a ter resultado, melhoramos um pouco. Agora o time sabe que, se tem um momento ruim no jogo, sabemos atacar um bloco baixo. Gostamos de fazer isso.
Para mim, o mais importante hoje é saber o que tem que fazer em cada momento. Um jogo tem diferentes momentos, ainda mais no futebol moderno. Você vê na Copa do Mundo, um time tem que fechar atrás, fecha atrás. Se o time tem que ir procurar o jogo, sabe o que tem que fazer, sabe ocupar os espaços. Para mim, isso é muito importante. Seguir melhorando a parte defensiva, sem dúvida, mais por conta dos rivais que temos no retorno do campeonato também, que são rivais muito fortes.
O Inter teve duas saídas na pausa da Copa, Borré e Bruno Tabata. Dois reforços foram contratados e outros ainda podem chegar. Como está sendo feita essa remontagem do time?
Temos que ser criativos, temos que ver as peças que nós temos, os momentos diferentes que podem acontecer em um campeonato e as características. Quem pode fazer de lateral, por exemplo, Bernabei, de lateral, de extremo. Mas se faz de lateral, precisa de ajuda. Isso nós estamos trabalhando para que, se acontecer, ele tem que saber o que tem que fazer dentro do campo. Não só com o Bernabei, com diferentes jogadores, diferentes posições, para procurar por diferentes coisas que podem acontecer no campeonato também. Então, utilizar as peças, tirar o melhor deles em cada posição.
Sem Borré, o que a comissão técnica pensa sobre a posição de centroavante? Um substituto será contratado?
O mercado está manejando o Fabinho (Soldado, executivo) com a direção, scout e tudo mais. Por momentos me perguntam coisas, falamos coisas (...) Temos João Bezerra, menino da base, Vitinho, que estamos testando ele também por momentos, porque tem características para jogar ali, mas vamos seguir procurando dentro do que nós temos hoje, dentro do elenco. Temos diferentes estruturas, às vezes não pode ser um, talvez sejam dois jogadores. Então, vamos continuar procurando e temos ferramentas para fazer coisas boas.
Quais características você procura em um centroavante?
Hoje, o que todo treinador quer de um centroavante é que faça gols. Dentro da área, quando tem a oportunidade, que converta. Isso é o que quer qualquer treinador. Depois você pode agregar que coloque mais diagonal ou que se corte mais a bola, mas quando você é um centroavante quer gol. Hoje temos o Alerrandro, que quando estava no Vitória demonstrou que sabe fazer gol. Aqui, em alguns jogos, demonstrou que nós precisamos exprimir mais dele porque ele tem para dar. Ele vem trabalhando muito bem e eu acho que vai fazer mais gols. Depois, eu sempre gostei de um centroavante mais móvel, que venha jogar, que coloque diagonais, que tenha intensidade para pressionar, porque eu quero ir longe do meu gol. Mas, neste momento, procuramos um centroavante mais de referência. Mas o mais importante é que tenha gols. Hoje precisamos de gols.
Jovens da base podem ser mais aproveitados no segundo semestre?
Temos João Bezerra e Fabrício (Prado). Temos outros meninos também que participam mais da equipe principal, como João Víctor, Luiz Felipe, João Kempes, Pedro Kauã e Benjamim. São os que estão participando mais conosco. Mas tem outros nomes também que gosto. Gabriel Paulista é outro menino que participa muito dos treinos conosco. Aqui o mais importante é que eles peguem o ritmo da equipe profissional, entendam tudo o que queremos, que peguem essa força física que necessitamos. Vimos que havia uma diferença grande quando começamos, mas hoje eles estão mais acoplados ao ritmo da primeira equipe. A gente tem que ter paciência com eles, mas eu estou contando muito com eles e, se Deus quiser, vai tudo dando certo.
E o Alan Patrick? Ele pode retomar o protagonismo que já teve no Inter?
Precisamos dele. Eu sempre falei que nós temos um grande jogador, que é o Alan Patrick. Também falo com ele, você tem que saber com quem está rodeado, como e o que vai acontecer no jogo. Então, tentamos tirar o melhor dele. Estamos também procurando outra posição para ele, mas sabemos o que ele pode dar e, sem dúvida, o jogador que é.
Rochet voltou da Copa novamente com um problema clínico. Qual é a situação dele?
Rochet vocês conhecem, ele tem muita coragem, muita personalidade, é um menino que sempre dá tudo no dia a dia. Quando ele não pode, é porque não pode de verdade. Agora tem um problema nas costas. No Mundial tinha um problema nas costas e ele foi e deu a cara dentro do campo, jogando por meio jogo com o Uruguai. Outro jogador não faz. Precisamos recuperar ele, que esteja 100%, precisamos dele bem. Ele já está participando do treino no campo, vai subindo a carga devagar, mas o que eu fico tranquilo é que temos um goleiro, um jogador que ajuda no momento que necessita. Se eu quero, ele está. Ele joga mesmo sentado em uma cadeira, porque não pode se mover, mas ele vai dentro do campo se você quiser. Precisamos recuperar ele para que ele também dê o 100% dele e não tê-lo mediano, porque depois se comete um erro, nós temos que assumir o erro que compromete ele. Não sabemos ainda quando volta. Eu não me atrevo a falar de dias, porque ele já está trabalhando, não sei se vai estar contra o Athletico-PR já. Mas ele já está trabalhando, vamos ir dia a dia, mas o mais importante com ele é que chegue aos 100% quando chegar.
Na quarta-feira, você reencontra o Cruzeiro, seu primeiro clube no Brasil. O que vê de semelhanças e diferenças entre seu trabalho lá e o atual no Inter?
Quando cheguei ao Cruzeiro, o clube vivia um momento muito difícil. Era meu terceiro ano como treinador, eu era um uruguaio que ninguém conhecia, e o Cruzeiro vinha de duas temporadas na Série B. Havia pouca confiança em tudo. O que conseguimos foi fazer torcida, jogadores e clube caminharem na mesma direção. O Cruzeiro voltou ao lugar onde merece estar, que é a Série A. O Inter vive uma realidade diferente. É um momento complicado, mas não como o do Cruzeiro naquela época. Aqui existe uma exigência muito grande por títulos, por disputar Libertadores, por brigar por coisas importantes. O Inter merece isso. Mas também precisamos entender a realidade de hoje.
Qual é a realidade do Inter hoje?
Neste momento, nossa prioridade é garantir a permanência na Série A o mais rápido possível para dar tranquilidade ao torcedor depois da dor do ano passado. Depois disso, buscar a melhor posição possível na tabela. Vamos passar por momentos difíceis e vamos precisar do apoio da torcida. O torcedor precisa acreditar em algo. Às vezes, o resultado não vem, mas ele precisa sair do estádio com a sensação de que o caminho está correto. Foi assim no Cruzeiro. Nós convencemos a torcida dentro do campo, e ela abraçou o projeto. No Inter, nosso trabalho é fazer a mesma coisa. Mostrar, com desempenho e resultados, que este é o caminho para o clube voltar a disputar coisas grandes.
Veja a entrevista completa
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