
Ex-técnico do Inter, o gaúcho Osmar Loss, 50 anos, viveu de perto o horror da guerra no Irã.
Treinador do Persepolis, principal clube de Teerã, o profissional se preparava no sábado (28) para comandar a equipe em uma partida em Isfahan, no interior do país, quando o céu iraniano foi tomado por bombas e mísseis disparados por Estados Unidos e Israel.
Após o campeonato local ser cancelado por tempo indeterminado, a delegação retornou por terra até Teerã, em uma viagem de mais de sete horas. E com uma guerra em andamento.
— No trajeto entre Isfahan e Teerã, a gente via mísseis passando. Foi bastante assustador — relatou o técnico a Zero Hora.
Com o espaço aéreo iraniano fechado e diante do avanço do conflito, Loss decidiu deixar o país no dia seguinte. Ao lado do auxiliar Rafael Toledo, do preparador físico Juliano Vallim, do analista de desempenho Uendell Macedo — todos brasileiros — e de outros estrangeiros ligados ao futebol, o treinador enfrentou uma tensa viagem de mais de 15 horas de ônibus até a fronteira com a Turquia antes de conseguir embarcar de volta ao Brasil.
De São Paulo, onde mantém residência, Osmar Loss, que tem várias passagens pelo Inter — como técnico da base, como auxiliar e como interino do time principal —, atendeu a reportagem de Zero Hora. A íntegra da entrevista será exibida no programa Sábado Esporte, da Rádio Gaúcha, às 18h deste sábado (7).
Confira a entrevista com o técnico do Persepolis, Osmar Loss:
Onde você estava quando começaram os bombardeios ao Irã?
A gente estava pronto para jogar a 22ª rodada da Liga Iraniana na cidade de Isfahan, que fica ao sul de Teerã. Enquanto tomávamos o café da manhã no dia do jogo, alguns membros iranianos da comissão técnica receberam informações de que haviam começado os ataques. Ficamos sabendo durante o café da manhã, por volta de 8h30 ou 9h da manhã. A partir daí, o foco passa a ser encontrar segurança e refúgio. Esperamos a confirmação do cancelamento do jogo, que ocorreu por volta das 11h. Como não era possível mais pegar voos, a decisão foi por retornar a Teerã por via terrestre, uma viagem que normalmente leva cinco horas, mas naquele dia levou cerca de sete horas e meia por causa das barreiras e de medidas de segurança. Mas graças a Deus chegamos a Teerã em segurança.
Ao longo do trajeto de Isfahan até Teerã, e depois em Teerã, você viu ou ouviu bombas e mísseis? Você testemunhou o bombardeio?
Sim, em Isfahan mesmo, a gente não conseguiu ver, mas escutávamos as explosões. Elas não eram tão próximas do hotel, mas a gente escutava claramente. No trajeto entre Isfahan e Teerã, a gente viu alguns mísseis passando. Inclusive um dos mísseis mais poderosos que o Irã tem, que é o Fatah 2 (hipersônico), que sobe até a estratosfera e deixa um rastro muito característico, como um neon atrás dele. Foi bastante assustador.
Vocês tinham acesso à informação sobre o que estava acontecendo? Era possível acompanhar as notícias?
Sim, principalmente quando chegamos a Teerã. No meu apartamento, eu tenho TV internacional com satélite, então consigo assistir CNN International, ABC International, Al Jazeera, France International, Bloomberg International e vários outros canais. Através desses canais conseguimos ter uma noção real do que estava acontecendo e de como a situação estava se desenvolvendo.
Como foi a tomada de decisão de sair do país por via terrestre?
Foi uma decisão bastante difícil. Muitos jogadores da minha equipe, que são da seleção iraniana, ofereceram que eu e a comissão técnica fôssemos para o norte do país, em uma região mais litorânea e mais tranquila, onde durante a Guerra dos 12 Dias (conflito ocorrido entre Irã e Israel em junho de 2025) muitas pessoas se refugiaram e praticamente não houve ataques. Mas o clube aceitou a nossa demanda de sair o mais rápido possível do país e preparou uma logística muito bem organizada. Isso foi fundamental para tomarmos a decisão de sair já no segundo dia de guerra. Na nossa cabeça, se o conflito se prolongasse, cada vez ficaria mais difícil sair do país. E mais uma vez essa decisão se mostrou correta, porque agora a região pela qual saímos, perto de Tabriz e Urmia (cidades do noroeste do Irã), próximo à fronteira com a Turquia, já aparece como possível área de conflito terrestre na região dos curdos (grupo étnico iraniano que faz oposição ao regime vigente dos aiatolás).
A sensação dos atletas é de que o Irã provavelmente não participará da Copa do Mundo
OSMAR LOSS
Técnico do Persepolis
Como foi essa viagem entre Teerã e a fronteira com a Turquia?
Também foi por via terrestre, em ônibus, com cerca de 20 estrangeiros de várias nacionalidades. Eram seis brasileiros e outros estrangeiros que também jogavam no Irã. Foi uma viagem longa. O clube providenciou um ônibus com dois motoristas e pessoas que falavam farsi, que é o idioma dos iranianos. A viagem durou praticamente 15 horas entre Teerã e a fronteira com a Turquia. Mas a passagem pela fronteira foi muito tranquila e muito bem organizada pelo clube. Depois de cruzarmos a fronteira, ainda viajamos duas horas até a cidade turca de Van, onde dormimos. De lá, pegamos um voo até Istambul e depois viemos para o Brasil. Graças a Deus, agora estou em São Paulo, na minha residência e junto da minha família, em total segurança, assim como os demais membros da minha comissão técnica, que também conseguiram chegar às suas casas e estão próximos das famílias em segurança.
Nesta viagem entre Teerã e a fronteira com a Turquia, vocês viram bombas, mísseis e explosões?
Osmar Loss: Sim, pudemos observar alguns mísseis e aviões passando. Não escutávamos as explosões porque estávamos em deslocamento dentro do ônibus, mas o rastro dos mísseis ficava visível no céu. Não conseguíamos saber exatamente onde eles caíam ou se estavam sendo lançados do Irã para outros países ou de outros países para o Irã. Mas graças a Deus não ocorreu nenhum evento que pudesse colocar nossas vidas em um risco maior do que já estávamos vivendo.
Você mantém contato com amigos e colegas no Irã? O que eles contam sobre como está a situação no país em meio à guerra?
Tenho contato sim. A comunicação é complicada porque nem todos têm acesso à internet, mas algumas pessoas conseguem manter contato diário. Deixamos muitos amigos lá. A gente está em segurança aqui, mas eles estão sob bombardeios diários. A região onde eles estão é considerada mais segura. Os jogadores também trocam mensagens em um grupo de WhatsApp. Aqueles que têm internet mandam informações sobre a situação. Felizmente, até agora, não tivemos nenhum tipo de baixa entre atletas, amigos ou familiares próximos.
Você comanda no Persepolis jogadores que defendem a seleção do Irã. Com base na conversa com eles, você acredita que o Irã irá jogar a Copa do Mundo nos Estados Unidos?
Eu conversei com os atletas da minha equipe. Nove jogadores nossos estão na lista preliminar de 50 atletas da seleção iraniana que tiveram visto solicitado (para entrada nos Estados Unidos). Ainda não existe nenhuma decisão oficial, mas a sensação deles é de que o Irã provavelmente não participará da Copa do Mundo por conta da guerra.
Como era a vida no Irã antes da guerra?
O povo iraniano é extremamente apaixonado por futebol, assim como o brasileiro. A minha equipe é a de maior torcida do país e uma das maiores da Ásia. Quando jogamos no estádio principal, que hoje está em reforma, normalmente temos entre 40 e 50 mil pessoas em todos os jogos. Teerã é uma metrópole de cerca de 18 milhões de habitantes, muito parecida com São Paulo. Trânsito intenso, muitas opções de restaurantes internacionais, parques belíssimos. Quando fui pela primeira vez em 2022 imaginei que teria muitas dificuldades, mas não. A vida no Irã é tranquila, com suas particularidades culturais, mas viver lá não é uma dificuldade para um brasileiro. Eles têm a religião deles, mas respeitam as outras religiões. Eu sou católico e sempre pude expressar minha fé livremente, inclusive rezando antes dos jogos no vestiário.
Com base na conversa com os seus amigos no Irã, qual é a expectativa dos iranianos em relação ao fim da guerra?
Não existe uma expectativa clara. Esperamos que a diplomacia volte a ser o fator principal e que os ataques parem. Que Estados Unidos, Israel, Irã e os demais países da região encontrem uma solução diplomática. Meu desejo e minhas orações são pela segurança das pessoas, que são as que mais sofrem em uma guerra.
E o seu futuro profissional?
Nesse momento é complicado (prever). O meu contrato tem cláusulas de força maior, como guerra, pandemia ou catástrofes naturais. Meu advogado já está analisando essas cláusulas. Meu contrato vai até o final da temporada 2026/2027, ou seja, maio de 2027. Tanto o clube pode usar a cláusula pra pedir essa rescisão em função dessa força maior, quanto eu e minha comissão técnica podemos usar. Neste momento a decisão é aguardar alguns dias e acompanhar os desdobramentos para decidir o que é mais seguro e melhor para as nossas carreiras.


