
Entre as tantas explicações para o desperdício das oportunidades criadas contra o Atlético-MG na quarta-feira (11), o técnico Paulo Pezzolano apelou até para a metafísica:
— Temos de virar isso, alguma energia, alguma coisa.
Ao ouvir essa frase, o comentarista colorado do Grupo RBS Vaguinha completou:
— Bem-vindo ao Sport Club Internacional, Pezzolano.
Mas, afinal, o que é energia? Existe algo além de treinar, repetir, jogar, manter a cabeça no lugar? O Inter perde gols por imperícia, intranquilidade ou falta de sorte mesmo? Para tentar entender a relação do futebol com o que não se pode ver e tocar, apenas sentir, ouvimos especialistas, tanto da ciência quanto da religião. E todas vão chegar a uma conclusão semelhante.
Neste domingo, 16h, no Beira-Rio, o Inter encontra o Bahia em busca da primeira vitória no Brasileirão, em partida válida pela sexta rodada. Entre os desafios, está o de encontrar energia positiva justamente contra um adversário que valoriza a cultura e a religião africanas.
Antes de tudo, porém, é preciso dizer o óbvio. A fé faz parte do futebol. Da oração antes do jogo às menções a Deus nas entrevistas, passando por entrar em campo com o pé direito, deixar um escapulário atrás do gol ou até mesmo ações mais drásticas, como balas de mel e sal grosso em volta do campo, é raro alguém do esporte não ter uma crença, uma mandinga.
Do ponto de vista religioso, a energia pode, mesmo, afetar o desempenho em campo. Uma pessoa com energia negativa pode contaminar outra que tenha energia positiva e mudar o ambiente. Se a maioria estiver ruim, fica mais difícil resolver o problema, explica Pai Daniel de Xangô, conselheiro geral do Conselho Estadual da Umbanda e dos Cultos Afro-Brasileiros/RS (Ceucab). Essa energia negativa pode estar ligada a muitos fatores, e o principal seria a incapacidade de enfrentar dificuldades pessoas. Elas influenciam nas tarefas profissionais. Para resolver isso, aponta dois caminhos.
— Se tudo está andando bem na vida material, ou seja está bem no físico, está treinando, é porque o problema está na vida espiritual. É preciso resolver a questão pessoal. Para isso, cada indivíduo precisa encontrar o local certo. Em termos de religião, me refiro a achar o lugar onde a pessoa se sente bem. Pode ser centro espírita, umbanda, igreja católica, evangélica. Nem falo sobre a minha, todas as religiões são boas — completa.
Em outra ótica, a radiestesia ajuda a explicar. Palavra que une radiação e sensibilidade, radiestesia é considerada uma ciência que busca encontrar e medir campos energéticos por meio de aparelhos. A radiestesista Clenir Castro, profissional da rediestesia e de geobiologia há 30 anos, explica que é usado um equipamento alemão chamado Quantec que emite ondas em determinadas frequências para mensurar a energia. A partir da constatação, elabora-se um plano de ação para mudar o cenário. Isso pode ser feito em pessoas e em empresas.
Sem ter acesso específico ao Inter, ela evita avaliar o que pode estar ocorrendo. Lembra, porém, que o Beira-Rio (bem como a Arena) passou por uma enchente e que isso interfere negativamente.
— Conheço pessoas que sofrem com isso até hoje — comenta.
Para além da influência geopática, algumas pessoas podem estar sofrendo com invejas ou pressões dos adversários. Em sua visão, se Pezzolano falou sobre o tema, é porque deve acreditar em algo assim. Obviamente, não é o primeiro. O futebol é pródigo nisso.
— Tive experiência com um jogador sem ele saber. A irmã me contratou para fazer um trabalho. Funcionou para o que ela queria — conta.
Em um ambiente de menos fé, a palavra energia pode ser interpretada de outra maneira. Ela tem a ver com a definição que une, grosso modo, as três visões. Energia seria um sinônimo para confiança. Sem confiança, basicamente inexiste o futebol.
— Em psicologia, evitamos usar o termo energia no sentido místico ou espiritual. O que treinadores e atletas costumam chamar de "energia" quase sempre tem explicações psicofisiológicas bem conhecidas. Quando um time joga bem, cria chances, mas não faz o gol, muitas vezes entram fatores mentais como ansiedade, pressão por resultado, queda de confiança ou dificuldade de manter atenção no momento decisivo. Isso afeta diretamente o corpo — aponta o psicólogo do esporte Everton Santana.
Ele detalha:
— O estado emocional muda o funcionamento do sistema nervoso autônomo. A ativação excessiva aumenta tensão muscular, altera a respiração, acelera o coração e pode prejudicar precisão motora e tomada de decisão. Em esportes de alta precisão, como a finalização no futebol, pequenas mudanças já fazem muita diferença. A "energia" muitas vezes é um estado psicofisiológico coletivo do time. Pode ser nível de ativação, confiança, foco atencional e sincronização entre os jogadores. Quando esses fatores estão bem regulados, a performance tende a fluir. Quando estão desorganizados, o time pode até jogar bem coletivamente, mas perde eficiência nos momentos decisivos.
Confiança. Aí está a chave para tudo. Ela pode vir de treino, terapia, missa, culto, sessão espírita, passe, banho de descarrego, sal grosso e de onde mais o atleta entender que pode buscar ajuda. E, claro, da torcida. Segundo Pai Daniel de Xangô, é possível que os colorados de fora ajudem os representantes de dentro do campo.
— Cada irmão torcedor pode fazer uma prece, levantar as mãos, abençoar o estádio. Vai ajudar a fazer um ambiente saudável. Nisso, até mesmo os ateus podem ajudar.
O caso é que não existe ateu quando o time está na zona de rebaixamento.
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