Gabriel Mercado tinha 10 anos quando subiu no ônibus do Racing e deixou Puerto Madryn, cidade de pouco mais de 100 mil habitantes na Patagônia, sul da Argentina. E nunca mais voltou para um período maior do que o de uma visita.
O final da infância, toda a adolescência, as últimas três décadas, basicamente, foram dedicadas ao futebol. Buenos Aires, Sevilha, Al Rayyan e Porto Alegre receberam o zagueiro, formaram sua família, viram florescer suas filhas e consolidaram a carreira de um homem do esporte. A identificação com o Inter é gritante. Só não é maior do que o amor pelo futebol, tanto que não pretende deixar essa vida depois que a vida no gramado terminar.
Mercado teve uma demonstração de como vai mudar a rotina quando decidir pendurar as chuteiras. Foi de um jeito ruim, o pior para um atleta. A ruptura do ligamento cruzado do joelho esquerdo, em setembro de 2024, lhe tirou dos gramados por quase um ano. E entre sessões de fisioterapia, recuperação, preparação física, teve também idas às escolas das filhas, cinema em família, encontros com amigos, mates em pracinhas e em arquibancadas de ginásios para acompanhar as meninas. Um tempo de qualidade impossível de conciliar durante a temporada do futebol.
Início na Argentina
Pouca gente no RS sabe mais sobre essa rotina de jogador do que Mercado. Já são quase 30 anos nessa situação. Enquanto acompanhava a irmã em competições de vôlei e atletismo, conciliava com o futebol na escolinha da cidade.
Veio, então, uma competição com River, Boca, Racing, Estudiantes, San Lorenzo, Independiente e outros grandes do país, para meninos de 12, 13 anos. Mercado jogou a preliminar. E o técnico do Racing, um brasileiro cujo apelido era Brasil, chamou a família Mercado para pedir que liberasse Gabriel para treinar com eles.
— Fiquei na casa deles, ele tinha um filho um ano mais novo, que jogava comigo. Quando acabou o período de férias, me pediram para seguir por lá. Meus pais até se desentenderam, porque meu pai queria me deixar ir, mas minha mãe não. Acabou que fiquei por lá. Falei para eles que se sentisse "saudades" pediria para voltar, fiquei morando com minha vó e minha tia, que já estavam por lá. Sou eternamente grato a todos eles, que me passaram esse amor pelo futebol — conta Mercado.
Carreira profissional
Esse "saudades" é um símbolo do quanto a cultura brasileira está impregnada em seu dia a dia. Como já havia ocorrido no período em Sevilha e, de certa forma, no Catar. Por mais que sentisse as saudades, a vida no Racing não permitia muitas folgas. Só voltava à cidade natal uma ou duas vezes por ano. Foi subindo de categoria e aumentando a responsabilidade. Até ir para a seleção sub-20, chegar ao profissional e ter, de fato e de direito, a vida de jogador.
Mercado jogou no Racing, no Estudiantes e no River Plate. Transferiu-se para o Sevilla. De lá, para Al-Rayyan (Catar) e desde 2021 está no Inter. Chegou quando a pandemia entrava em um período menos tenso e se adaptou totalmente a Porto Alegre.
— Minhas filhas amam estar aqui. Já falei várias vezes que o povo brasileiro, o povo gaúcho, nos recebeu muito bem desde que chegamos. Esse carinho que vejo com a minha família me soma muito e me dá uma responsabilidade a mais — explica.
Elas praticam esportes, Mercado acompanha. Vão à escola, Mercado busca quando pode. Brincam nas pracinhas, Mercado leva o mate. A queixa do zagueiro é não conseguir ver tanto futebol quanto gostaria, é difícil convencer as crianças a largar o desenho para assistir a um jogo que não tem o pai comandando a defesa.
A esperança de assistir a jogos está em acompanhar a Copa do Mundo. Foi nela que o zagueiro sentiu a mais bela das emoções do futebol. O gol contra a França, nas oitavas do Mundial de 2018, na Rússia, chegou a dar esperanças aos argentinos, mas o sonho do tri foi adiado na derrota por 4 a 3. Ainda assim, lembra do que passou pela cabeça. Só não consegue descrever:
— É inexplicável, difícil colocar em palavras.
Essa será a última Copa que Mercado verá enquanto jogador profissional. Pode, inclusive, ser o último Brasileirão e a última Copa do Brasil. O zagueiro não descarta se aposentar no final do ano. Treina como um guri para conseguir jogar em alto nível, mas sabe que o corpo não é mais o mesmo. Quando parar, vai conversar com a família sobre o futuro.
— Sempre coloquei na cabeça que queria fazer as coisas bem aqui para poder continuar, porque minha família está muito bem. Mas também tivemos outras experiências. Joguei na Espanha, moramos muito bem lá também. Vamos ver quando terminar, conversar em família e decidir para onde vamos.
Puerto Madryn?
— Minha cidade é maravilhosa, nunca vou falar mal dela, mas saí muito cedo. Sempre volto porque minha família está lá, mas dificilmente moraria lá no curto prazo. Hoje penso assim. No futuro não sei. Dificilmente voltaria para morar lá na minha cidade, mas vamos ver.
Por enquanto, tem muito a ser feito no Inter para pensar em aposentadoria.
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