
Assim como muitas crianças, Lucas Roggia teve desde cedo a companhia de sua melhor amiga: a bola de futebol. Nascido em Santa Maria, o ex-atacante despontou como uma das promessas do Inter do século XXI, mas não conseguiu se firmar no time principal. Após outras tentativas no esporte, ele entendeu que poderia ser feliz em outra profissão, o que não o impede de lembrar com carinho dos momentos que teve dentro de campo.
Por volta dos 10 anos, Roggia começou no futsal. Nas quadras, ele surpreendia pelo Novo Horizonte, tradicional equipe de base da Região Central, e era convidado por outros times para torneios. Um desses casos foi quando o Gaúcho, de Passo Fundo, o chamou para a disputa do Efipan de 2004. Um dos times participantes era o Inter, que por meio de indicação de um treinador levou o santa-mariense para as categorias de base do clube.
Em Porto Alegre, Lucas Roggia viveu o amadurecimento precoce exigido para alguém que sonha em ser jogador de futebol e, aos poucos, tornou-se um dos principais nomes entre os jovens do Inter. O destaque rendeu contratos longos e um empréstimo ao Milan, negociação que foi encaminhada por conta do empresário do brasileiro na época: o italiano Mino Raiola.
Após não engrenar no Inter, o mercado alternativo da Europa foi o caminho do ex-atacante, que chegou a retornar ao Brasil poucos anos depois. Tal qual milhões de pessoas, teve o isolamento da pandemia da Covid-19 como um momento de reflexão e optou por encerrar a carreira ainda jovem. Atualmente, ele reside no litoral gaúcho e parece ter se encontrado em outra área.
A história do ex-jogador é semelhante a de muitos jovens que tentam a sorte no mundo do futebol. Zero Hora também conta a trajetória de outras duas promessas que deixaram os gramados cedo: Gabriel Spessato e Cassiano Farias.
Novo Alexandre Pato

Colorado desde cedo, Lucas Roggia chegou ao Inter para realizar o sonho de sua vida, ainda que fosse apenas uma criança de 12 anos. Os pais, que trabalhavam em um escritório de contabilidade e sempre apoiaram o filho na carreira, ficaram em Santa Maria. Coube a ele morar junto de outros cinco meninos de categorias próximas. Um profissional escolhido pelo clube era responsável por cuidar deles.
— O Inter é um grande clube. Tinha assistente social, tinha psicóloga. Então, os treinadores te formavam para ser um atleta e ser um ser humano melhor também. O Inter nunca deixou a desejar nesse quesito. E fora a parte do amadurecimento, porque tu já é um menino e tem pressão, tem que estar bem, tem que treinar, tem que abdicar de muita coisa. Só isso aí já é um grande aprendizado na nossa vida — lembra dos tempos na base colorada.
A boa capacidade de finalização e a vantagem em lances de um contra um perante aos defensores foram o suficiente para que comparações fossem criadas com a joia do Inter. Como Alexandre Pato havia sido negociado ao Milan, Roggia tornou-se o próximo da fila e seguiu tendo destaque em competições de base, como Copa São Paulo de Futebol Júnior, Copa Santiago, torneios internacionais e Campeonatos Brasileiros entre os juvenis. Em duas edições da competição nacional, o ex-atacante foi campeão e artilheiro.
Após os primeiros anos, período em que tinha um contrato de formação, recebendo apenas auxílio de custos, o santa-mariense assinou um vínculo profissional com o Inter em 2007, quando tinha 16 anos. Na sequência, passou a morar em outro apartamento com um dos colegas da época, o meia João Paulo, um de seus melhores amigos e atleta que mais o impressionou na base do Inter ao lado de Alexandre Pato.
— Tu abre mão muita coisa. De estar junto da tua família, já que tu vais atrás de um sonho. E muitos de nós não tínhamos as condições para estar junto com a família ou a família não tinha condições de morar em Porto Alegre. Muitos eram do Interior e até de várias partes do Brasil. Mas tu também abre mão de festa, de beber, de comer besteira. Muita coisa que um adolescente normal ama fazer — lembra Lucas Roggia sobre as escolhas durante o processo de formação de um jogador.
Escondido pelo Inter e passagem no Milan

Conforme Lucas Roggia tinha mais destaque na base, as expectativas de contar com ele entre os profissionais cresciam. Em 2009, quando tinha 18 anos, chegou a ser "escondido" nos treinos do time em função de complicações na renovação de contrato. O empresário italiano Mino Raiola, que também trabalhava com Ibrahimović, fez exigências para que o atacante e o meia João Paulo fossem aproveitados entre os profissionais e tivessem um aumento salarial. Após um período turbulento de negociações, o Inter cedeu e acabou renovando com a dupla.
— Foi um cara muito bom para mim, para a minha carreira, bom como pessoa. Foi um grande empresário, mas ele foi como um pai, brigava muito por nós. Até um dos motivos para a gente não jogar tanto foram algumas brigas do Mino com a direção. Mas ele querendo ajudar o nosso lado — disse Roggia ao lembrar de Mino Raiola, que morreu em 2022.
O santa-mariense pôde enfim estrear pelos profissionais em 2010, justamente em Santa Maria, no empate em 1 a 1 contra o Inter-SM pelo Gauchão. No ano seguinte disputou outros seis jogos, sendo dois deles pela Copa Audi, torneio na Alemanha em que o Inter terminou com a terceira colocação. Também estiveram Barcelona, Bayern de Munique e Milan.
Em 2012, após disputar apenas um jogo pelo Colorado, Lucas Roggia foi emprestado ao próprio Milan por seis meses e integrou a equipe B. Por lá, tinha mais intimidade com os brasileiros do clube, como Alexandre Pato e Rodrigo Ely, hoje zagueiro do Grêmio.
O fim da carreira

Após a experiência na Itália, o ex-atacante retornou ao Inter, mas teve o vínculo encerrado em 2014. Na sequência, defendeu Beira-Mar (Portugal), Twente (Holanda), Juventude, Passo Fundo, Pelotas e Cianorte, do Paraná. Nas últimas equipes, passou a viver a realidade do interior gaúcho, diferente do que estava acostumado no Inter e no futebol europeu. Somado a isso, entendeu que, depois de algumas lesões, dentre elas a pubalgia, estava na hora de se aposentar do futebol.
— Eu vivi mais dentro do futebol do que na minha própria vida. Então, para deixar de jogar é bem difícil, mas eu já não estava em grandes clubes. E a gente sabe da dificuldade desses clubes menores, não só em questão de salário, mas também em infraestrutura, que é bem precária. Sou um cara muito regrado e comecei a me machucar mais. Aí optei por cuidar mais da minha saúde do que continuar jogando, já que eu já tinha 30 anos e não via projeção — relatou Roggia, que parou de jogar no período da pandemia da covid-19.
Quanto à carreira, ele é grato ao Inter e aos clubes que defendeu. Por mais que reconheça que sempre é possível fazer um pouco mais, garantiu que se sente realizado ao olhar tudo que viveu nos gramados. Contudo, lembrou da dificuldade que enfrentou ao encerrar a carreira, justamente por não saber o que fazer.
— Eu fiquei praticamente um ano pensando, buscando ideias, porque a gente sai bem perdido. Seria um grande ponto, hoje em dia, o pessoal colocar isso como um ponto para ser trabalhado. Eu acho que pode ser pelo empresário do atleta ou até pelo clube mesmo fazer uma uma aposentadoria cautelosa. Colocar na cabeça do jogador que uma hora ele vai parar. Tem muito jogador que para de jogar e se perde no caminho, porque é só isso que ele sabe fazer. Daqui a pouco ele tá perdido e não tem mais volta — pontuou.
O mundo fora do futebol
Graças aos contratos longos e de boa remuneração nos tempos de Inter, Lucas Roggia conseguiu melhorar a condição financeira de sua família. Enquanto estava nos gramados, ele costumava investir em imóveis por incentivo de um primo. Após o ano parado, o santa-mariense foi convidado para trabalhar na área e acabou se identificando com o novo ramo.
Atualmente, ele trabalha junto do primo em duas empresas que constroem e vendem imóveis, no litoral gaúcho, a Rei do Imóvel e a Rei Construções. Lucas reside em Capão da Canoa, cidade em que outros jogadores com passagem pela dupla Gre-Nal também estão.
Quanto ao futebol, o santa-mariense segue acompanhando os jogos do clube do coração, o Inter, e costuma assistir algumas partidas de maior expressão de times europeus, como finais da Champions League. Sobre praticar, ele trocou os gramados pelas quadras, mas de tênis, esporte que costuma praticar em seu tempo livre, mas que jamais irá proporcionar tudo que o futebol o proporcionou.
— Tu sente falta disso depois, porque tu fica adaptado. Sente falta da torcida, de jogos cheios. São situações que na vida normal, fora do esporte, tu acaba não tendo. Pode ter o reconhecimento da pessoa, saber que jogou, mas isso aí tu nunca mais vais ter — destaca Lucas Roggia, que lembra da entrada em campo, próxima do torcedor, como o momento favorito no futebol.
O fato é que uma das grandes promessas das categorias de base do Inter não alcançou o que era esperado dentro de campo. Mas, fora dele, orgulho não falta para Lucas Roggia, que viveu o sonho de infância e pode desfrutar de uma vida tranquila graças ao esporte.
— Realizei meu sonho, o sonho da minha família, tive independência financeira pelo futebol. Então, só tenho a agradecer — concluiu.
