
Os DVDs do meia canhoto Paulo Pezzolano não têm golaços, mas são úteis para o seu trabalho no Inter. Seus lances dos tempos de atleta ilustram bem o que quer dos seus jogadores não só no Gre-Nal 449, no domingo (25), mas em todos os jogos sob seu comando. Seu futebol era intenso e vertical.
Na temporada 2012/13 do Campeonato Uruguaio, Pezzolano ostentava a camisa 10 do Liverpool-URU. Lá pelas tantas do jogo contra o Peñarol, ele avançou pelo campo do ataque. Tentou o passe. Errou. Correu atrás da bola e recuperou a posse. Foi em direção ao gol adversário e arrematou. Se seu time fizer isso repetidas vezes no jogo das 20h, ele estará satisfeito.
Pezzolano faz isso diariamente. A intensidade começa no envolvimento com o trabalho no CT Parque Gigante.
— Ele faz os auxiliares chegarem às 6h30min — contou o diretor técnico Abel Braga.
— Às 6h — apressou-se a corrigi-lo Pezzolano.
Sem rodeios
Assim como suas ideias de futebol, Pezzolano é direto. Suas respostas em coletivas são objetivas. A relação com os jogadores também. Em seu primeiro trabalho no Brasil, ele não poupou críticas ao ver um dos seus novos jogadores. Recém-contratado pelo Cruzeiro, o meia Edu realizava teste físico quando o técnico apareceu.
— Ele é altamente profissional — relatou o jogador ao Charla Podcast. — No primeiro dia que ele me viu, eu estava na esteira fazendo teste ergométrico. Ele entrou, eu estava sem camisa, gordão, quadradão. Ele olhou para o preparador físico e falou: 'Eu não quero nem falar com esse filho da p***. Ou ele emagrece, ou sai'.
O jogador entrou em forma. Com 22 gols marcados na temporada, se tornou referência no time que tirou o Cruzeiro da Série B em 2022. Esta personalidade é vista como característica central para recuperar um elenco com cicatrizes da campanha no Brasileirão do ano passado.
A relação franca se estende aos torcedores. No Valladolid viveu momentos tensos após muitas críticas ao longo da temporada. Tudo transformado em ironia na hora da comemoração pelo acesso à Primeira Divisão em 2024. Em meio a uma praça pintada de roxo e preto, Pezzolano pegou o microfone para reger os torcedores.
— Pezzolano, demissão! Pezzolano, demissão! — gritou em provocação atendida pela multidão.
Gol "à Guardiola"
Mas nem tudo é verticalidade nas suas equipes e nas suas declarações. Em seu canal no YouTube, Pezzolano publicou diversos vídeos com os seus melhores momentos como jogador.
A atualização mais recente, de oito anos atrás, mostra um gol do Montevideo City Torque, primeiro clube treinado pelo uruguaio. O título da gravação é: “Gol do Torque de Pezzolano ‘à Guardiola’".
Apesar de um estádio acanhado e arquibancadas vazias, seu time marcou um gol digno dos grandes palcos. O lance conta com 14 passes antes de a bola entrar. A jogada começa no meio-campo, vai ao ataque, volta ao goleiro para ir, outra vez, em direção à área adversária.
Marcar um gol no Gre-Nal após 14 passes é improvável, muitas vezes sequer há espaço para gol. Mas, à beira do campo, Pezzolano externará a sua obsessão por recuperar a bola e atacar, como nos vídeos de um canal esquecido no YouTube.


