
No último domingo (30), o técnico Abel Braga fez uma fala homofóbica na sua oitava apresentação no Inter, quando comentou sobre o uniforme do treino, a camiseta rosa que foi lançada como símbolo de apoio à luta contra o câncer de mama. "Pô, eu não quero a porra do meu time treinando de camisa rosa, parece time de 'viado'", disse o treinador. Poucas semanas antes, o técnico anterior Ramón Díaz já havia dito que “futebol é para homens, não para meninas.”
Torcer para um time é uma escolha, quase sempre motivada por paixão. A gente torce para o Inter porque ama o clube. Ou amava.
Eu sou gay e o futebol salvou minha vida. Dos sete aos 15 anos, eu treinei em escolinha de futebol. Um ambiente hostil quando se é um menino mais delicado do que os outros. Mas isso não me impedia de estar entre os mais habilidosos. Apenas tornava a experiência de diversão em medo. Superei e permaneci nos treinos.
Durante a adolescência, eu percebi que o futebol não era apenas uma diversão, mas uma armadura. Sempre fui habilidoso, o que aumentava o respeito e diminuía o bullying. Hoje, olho para trás e vejo que, graças ao futebol, tive uma juventude diferente de grande parte da população LGBT+, que é completamente excluída dos esportes, principalmente do futebol. Não por não serem bons, mas por terem medo da hostilização.
E os atuais líderes do Inter parecem não conhecer a própria história da instituição. Esquecem que paixões se desgastam quando há desrespeito. As falas dos últimos técnicos e a falta de atitude do clube para reconhecê-las e se posicionar tornam cada vez mais difícil sustentar essa escolha.
Eu não me tornei jogador, mas me tornei jornalista esportivo.
Cheguei à redação do Esporte do Grupo RBS, conquistei meu espaço. Mas sei que, ao longo da minha trajetória profissional, minha capacidade foi questionada várias vezes.
Nunca é “só futebol”. O esporte faz parte da sociedade. E a homofobia é crime no Brasil desde junho de 2019, quando o STF decidiu que atos de discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero devem ser enquadrados na Lei do Racismo. Os clubes de futebol precisam ser aliados na luta contra a discriminação, porque falas como a do último domingo afastam as pessoas. O Inter luta contra o rebaixamento, mas também precisa lutar contra o preconceito.
Eu quero olhar para o lado e ver outros Gians: que foram salvas pelo futebol. Que encontrem no esporte um espaço de acolhimento. Que estejam nas redações esportivas, nas salas de coletiva, no campo, no vestiário e nos estádios.
O futebol tem o poder de salvar vidas. Infelizmente, falas como a de Abel Braga no último domingo representam um retrocesso em tornar os ambientes esportivos mais diversos. E nós já estamos nesses espaços - alguns com mais coragem para assumir, outros ainda permanecem com medo. O fato é que merecemos respeito.
Se o Inter cair para a Série B, seguiremos escolhendo ser colorados. Mas se o Inter continuar sendo sinônimo de machismo e homofobia, isso, sim, é vergonhoso e faz a gente questionar se ainda faz sentido apoiar o clube na boa e na ruim, como temos feito há tanto tempo. Não é o rebaixamento que afasta o torcedor, é o preconceito.
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