
Tivesse a mesma habilidade com caneta e com os pés, Luis Fernando Verissimo ombrearia-se com os maiores meias da história do Inter. Teria sido um camisa 10 cerebral e discreto. Econômico nos gestos, mas certeiro nos passes. Sua genialidade transformadora de cenas cotidianas em grandes textos faria de um comum toque na bola uma jogada genial. Cadenciaria o jogo como poucos.
Como a intimidade com as palavras foi bem maior, restou a paixão pelo futebol e pelo Inter, externada em suas colunas e entrevistas. Uma relação tardia. Parte da infância foi vivida nos Estados Unidos, onde o pai Erico Verissimo lecionava na Universidade da Califórnia. A família retornou para Porto Alegre em 1946, quando Luis Fernando tinha 10 anos.
Erico não era um entusiasta do futebol. Era mais ligado ao Cruzeiro e ao Grêmio. O primeiro jogo de Luis Fernando foi um Gre-Nal, nos Eucaliptos. Levado por uma família amiga, ficou próximo ao gramado. À época, as chances de o Rolo Compressor colorado perder uma partida em casa, mesmo para o maior rival, era a mesma de um Verissimo tropeçar em alguma vírgula em um texto.
Calhou de ser um domingo bissexto. O Inter perdeu por 2 a 1. A derrota foi insuficiente para afastar Luis Fernando das alegrias e agruras de ser colorado.
— O que eu me lembro é a emoção de estar no campo. Foi uma sensação. Só ouvia futebol pelo rádio. Ali, uma cerca pintada de branco nos separava dos jogadores. Dava para ver as feições, sentir a respiração deles. Eu estava vendo as cores do jogo, uma sensação completamente diferente. Nunca vou me esquecer também do cheiro de grama quando entrei no estádio — relatou em entrevista ao ge.
Muita tinta foi gasta por jornais para imprimir os textos de Verissimo sobre o futebol e o Inter. Sua estreia como cronista, em 1969, foi às vésperas do primeiro Gre-Nal do Beira-Rio — aquele com 20 jogadores expulsos. Substituto do veterano Sérgio Jockymann, emulou o discurso dos jogadores:
“Sei que estou entrando em campo para substituir um astro mas vamos suar a camiseta tentarei corresponder futebol é assim mesmo e no fim das coisas, que diabo, são onze contra onze.”
A estreia como cronista
Sem trocar passes em pontos inócuos dos textos, foi direto ao se declarar “pró-Bráulio-no-time”. Bráulio era um meia que muito bem poderia ter sido um Verissimo em campo. Apelidado de Garoto de Ouro, era contestado por parte da torcida e da imprensa.
Mas, mais adiante, arriscou alguns dribles verbais.
“O Sérgio branco é senhor de "rushes" estilísticos, taquinhos verbais, parábolas por elevação e sentenças em curva. Eu me limitarei a um vaivém funcional e pessoal, trocando ideias laterais, com pouca profundidade e menos objetividade. E se algum dia eu começar a dar balõezinhos na beira da área será por pura falta de assunto”.
Reverência aos coreanos
Em tempos de vacas esquálidas, em que o time não merecia duas frases seguidas de Verissimo, ele se fixava na torcida. Os coreanos o fascinavam. A Coreia era uma região do antigo Beira-Rio onde os torcedores pagavam ingressos mais baratos e assistiam à partida em pé.
“O frequentador da Coreia é o único torcedor autêntico do futebol. Não é o espetáculo que o atrai. Dali onde ele fica não se vê espetáculo algum. A única visão desimpedida que ele tem é dos fundilhos do bandeirinha. O resto ele adivinha. O coreano está ali porque tem que estar. Seu compromisso não é com o jogo, que ele não vê, é com o time”, relatou certa feita.
Em 2004, lançou o livro Internacional – autobiografia de uma paixão, em que discorre sobre sua relação com o Inter.
Em 2006, sua crônica após o título mundial do Inter rodou o mundo — azar de quem não entende o português.
“Mas isso tudo também pode ser um sonho, se for, por favor, não me acordem!”, sentenciou na frase final.
Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado (30) em Porto Alegre, aos 88 anos. O Inter perde um de seus maiores camisas 10, mesmo sem ter jogado uma única vez com a camisa colorada.


