
Emílio Papaleo Zin recém completou quatro meses no segundo cargo político mais importante de um clube de futebol. Mesmo em tão pouco tempo, o vice-presidente de futebol já viveu a montanha-russa do Inter. Sua "estreia" foi o 4 a 0 sobre o Flamengo no Maracanã. Depois, viveu a euforia pela vitória sobre o Grêmio. Dali por diante, precisou correr para tentar conter uma crise no vestiário: após o clássico, pouco deu certo.
O vazamento do áudio de Paulo Paixão causou (ou foi consequência) de uma série de insucessos em campo que levaram o time a ficar de fora da Libertadores. Nesta entrevista, Papaleo analisou a temporada passada, projetou 2022, comentou o rebaixamento do Grêmio, avaliou a utilização da base, entre outros assuntos. Veja a seguir.
O que faltou para o 2021 do Inter ser mais parecido ao 2020, por exemplo, quando foi vice-campeão por centímetros?
Foram temporadas bem atípicas. Terminamos um ano e menos de uma semana depois já estávamos jogando a temporada seguinte. É claro que a pandemia, a ausência de pré-temporada, etc., colaboraram. Claro que foi assim para todos os clubes, mas nos atrapalhou em começar um novo projeto e um novo trabalho. Mas, em uma avaliação geral, nos faltou ter a regularidade de boas atuações.
Pegando apenas seu trabalho: o que avalia que conseguiu fazer de positivo em 2021 e o que pode melhorar em 2022?
Acabo de completar quatro meses à frente do departamento de futebol, onde estive há 11 anos. Neste período, destaco excelentes jogos — Fluminense, Chapecoense e Grêmio no Beira-Rio. Creio que contribuí para a serenidade num momento de certa turbulência. Resgatei, com discrição, algumas figuras políticas importantes do clube, convidando-as para visitar o CT e conversar sobre futebol. Estimulei um encontro geral com a imprensa, cujo trabalho foi muito afetado pelas restrições da pandemia. E utilizei esse tempo para mais observar e compreender do que protagonizar. O ano que vem será diferente.
Há duas formas de ver o trabalho de Diego Aguirre: uma é a de que ele pegou o time próximo ao Z-4 e, enquanto esteve no comando, recuperou a ponto de não correr riscos de rebaixamento. Ao mesmo tempo, além da queda precoce na Libertadores, o final de Brasileirão foi de queda livre, terminando em 12°. Qual das duas visões é a sua?
As duas. Estão absolutamente corretas. O Diego é um bom treinador, é uma figura humana excepcional. Chegou em um momento em que precisávamos de organização e calma. E entregou exatamente isso. Só que o momento passou e não conseguiu evoluir mais. Ficou previsível e fácil de jogar contra o Inter. Esse fato e a queda de rendimento após o Gre-Nal foram decisivos para a queda de produção no final.
O senhor já falou com Paulo Paixão após o vazamento do áudio?
Falei com o Paixão por telefone.
Como foi?
O episódio do áudio, embora de certo modo tenha afetado os jogadores, tenho por superado. Paixão é um profissional e um ser humano que dispensa apresentações. Como todos, errou. Como poucos, reconheceu o erro.
Há algo que o senhor concorda na análise feita por Paulo Paixão no áudio?
Como dirigente, não posso concordar com nada do que foi dito. Página virada.
O Inter foi campeão gaúcho, brasileiro e da Supercopa sub-20, além de semifinalista da Copa do Brasil. Ou seja: há resultados nas categorias de base. Mas como avalia a formação e o aproveitamento dos meninos no grupo principal?
A nossa categoria de base está de parabéns. Fez um ano invejável. O Felipe Oliveira e todos, sem exceção, que com ele estão lá merecem meu aplauso. Considero o aproveitamento dos meninos bom. Vejo que há preocupação em integrar cada vez mais. Isso me agrada muito. Isso, aliás, é o futuro de qualquer clube. Tivemos um ano em que oportunizamos o Daniel finalmente jogar, tivemos muitos jovens que fizeram parte do nosso dia a dia de treinos e receberam oportunidades. Cadorini é um exemplo. Subiu, aproveitou a chance, firmou-se e foi adquirido pelo Inter. Johnny atuou com regularidade. Para o próximo ano, já anunciamos a subida de quatro jogadores para o grupo principal e outros mais podem receber a oportunidade.
Pensando em 2022, quantos reforços o Inter precisa para ter um grupo equilibrado e que volte a brigar títulos?
Temos as nossas avaliações e sabemos das nossas necessidades, mas são assuntos a se tratar internamente. Já externamos em algumas entrevistas a busca por lateral-direito e atacante, pela questão numérica das saídas do Saravia e do Vinicius Mello. Há, ainda, necessidades pontuais e de grupo. Estamos trabalhando diuturnamente, mas em silêncio, para não prejudicar as negociações. Faremos o melhor para o clube, e 2022 será um ano para a retomada e que faremos de tudo para dar alegria ao nosso torcedor.
O Inter disputará Gauchão, Brasileirão, Copa do Brasil e Sul-Americana. Alguma competição será priorizada? Que peso têm Gauchão e Sul-Americana na temporada?
Sabemos que temos de voltar a conquistar títulos e vamos buscar isso. Já estivemos perto recentemente em algumas competições, mas vamos buscar dar esse passo a mais e que condiz com a história vitoriosa do Inter. Vamos nos dedicar ao máximo em todas as competições. A palavra de ordem no Beira-Rio é trabalho virtuoso e vitorioso.
A próxima temporada não terá o Grêmio na primeira divisão. O que muda para o Inter o rebaixamento do rival? Que lições se tira da queda do Grêmio?
Não melhora em nada para nós, em campo, o rebaixamento do nosso tradicional adversário. Ao contrário. Cria-se uma atmosfera externa que aumenta a obrigação de vencê-los. Mas, em síntese, o que aconteceu com o Grêmio em nada altera nosso planejamento.
Todas as informações que apuramos dão conta de que o Inter procurou por um treinador estrangeiro. Existe alguma razão especial para buscar alguém de fora? Seja por metodologia de treino, comportamento, estilo de jogo, relação... o que há de diferente entre brasileiros e estrangeiros?
Tenho repetido inúmeras vezes que nacionalidade não é critério de escolha de treinador no Internacional. Nossa análise é profunda e de fôlego. No momento dessa entrevista, há seis pessoas trabalhando nisso. Não podemos e não vamos errar. Garanto que o torcedor reconhecerá esse esforço e entenderá o tempo dessa montagem.
Tem algum time que o senhor veja, no Brasil, na América do Sul ou na Europa, e pense: "É assim que eu gostaria de ver o Inter jogando em 2022"? Qual? Por quê?
Sou saudosista. Quero ver o Inter jogando como aprendi a vê-lo. Na década de 1970, éramos invencíveis no Beira-Rio e dávamos um enorme trabalho ao adversário. Embora as conquistas mundiais viessem nos anos seguintes, foi lá, na década de 1970, que o Colorado criou o respeito e o temor de seus adversários. Claro que hoje são outros tempos, outra forma de jogo, mas é esse espírito e essa tradição que quero esse Inter daqui para diante.



