
Já se vão três partidas do Inter sob comando de Miguel Ángel Ramírez. Verdade que ele não esteve à beira do gramado nos 270 minutos, mas é o próprio espanhol que considera o confronto diante do Ypiranga o primeiro com seus conceitos. Foram nove pontos conquistados, o que dá segurança e confiança, mas, principalmente, notou-se um padrão. E evolução.
A começar pela bola no chão. São raríssimos os momentos em que o Inter sorteia o ataque, seja com chutão para o centroavante ou com passes longos. Quando aparecem, fazem algum sentido, buscam alguém que esteja em boa condição para avançar, tentar um drible, ou a tão falada "vantagem", principal busca do conceito de jogo de posição.
Há também uma lógica de movimentação. E uma luta constante para reduzir as chances de gol do adversário.
— Creio que tudo está saindo de maneira mais natural, não tão forçada como no primeiro jogo — disse Ramírez ao final da partida contra o Caxias, já na madrugada de quinta.
Contra o Brasil-Pel, no sábado à noite, fora de casa, haverá mais uma chance para mostrar essa evolução. Mesmo que o período de treinos seja curto, especialmente porque houve jogo durante a semana, o treinador tem insistido com vídeos e instruções para corrigir os defeitos mais flagrantes.
— Dou valor à vitória, e tento chegar de uma maneira. Não sei sei vale ganhar de qualquer modo, sobretudo porque as sequências podem se estender mais ou menos. A mim, agrada mais que exista um modelo de jogo. Porque posso analisar as razões se ganhei ou se perdi. Sem modelo, não tenho ao que me prender — resumiu.
A seguir, analisamos quatro aspectos das partidas coloradas e suas evoluções.
GOLEIROS
Marcelo Lomba, Danilo Fernandes e Daniel tiveram oportunidades. Os dois primeiros, com o time principal, o último quando a equipe ainda era representada pelos meninos da base. Foram três jogos para Daniel, dois para Danilo e um para Lomba, que deve entrar em campo novamente no sábado. Esses números escancaram a dúvida admitida pelo próprio treinador:
— Não defini quem é o goleiro titular, porque estão fazendo tudo muito bem. Estão entendendo, executando em treinos e jogos. Todos estão merecendo receber minutos.
Até o momento não houve tanta exigência na participação com os pés, algo pedido pelo treinador. Mas isso ocorreu mais por circunstâncias específicas, já que os adversários marcaram o Inter praticamente do meio-campo para trás. Serão necessárias partidas com mais exigências para ter uma visão mais clara sobre esse aspecto.
SAÍDA DE BOLA
O modelo de jogo do Inter, que tenta buscar superioridade e vantagem em todos os momentos, exige troca de passes. Mas não é simplesmente entregar a bola ao companheiro e esperar. O certo é tocar e aparecer, movimentar, dar opção. A diferença para os jogos anteriores é que o último teve Rodrigo Dourado como volante, enquanto Lindoso foi o escolhido contra o Novo Hamburgo e entrou no segundo tempo diante do Ypiranga, depois de Edenilson ter sido improvisado no primeiro.
— Dourado acertou passes, mas muitos deles eram para o lado, como de resto os dos zagueiros muitas vezes eram demasiado lentos. A saída sem velocidade é correção óbvia para os próximos jogos — analisou Maurício Saraiva, o comentarista da RBS TV em Inter 2x0 Caxias.
A boa notícia para Ramírez é que Zé Gabriel já mostrou compreensão e, na última partida, ocupou bem mais os espaços livres deixados pela marcação do Caxias quando era atraída a tentar reduzir os espaços dos zagueiros.
SEGURANÇA DEFENSIVA
O primeiro jogo do Inter teve problemas graves. Seja por erros de passe ou por falhas de posicionamento, aspectos absolutamente comuns em início de temporada, o time permitiu ao Ypiranga concluir muitas vezes. Duas delas foram transformadas em gols. Contra Novo Hamburgo e Caxias, a defesa saiu invicta. E mesmo de um jogo para outro, notou-se evolução.
Diante do Novo Hamburgo, boa parte do mérito no placar zerado deve ser dada a Danilo, que fez duas grandes defesas, uma em chute da intermediária, outra em conclusão à queima-roupa. Contra o Caxias, houve uma conclusão mais perigosa, já nos minutos finais, em uma tentativa de fora da área.
— Tivemos mais controle com 0 a 0 do que depois do 1 a 0. Demos contra-ataques porque erramos passes, atacamos com pouca gente — analisou Ramírez.
O sábado reservará uma oportunidade melhor para notar essa segurança. O Brasil-Pel, ainda que com a devida cautela, deve jogar mais ofensivamente do que os adversários anteriores.
CRIAÇÃO OFENSIVA
O perfil StatInter, que analisa as partidas coloradas, apresentou um dado interessante do primeiro tempo do jogo de quarta-feira. Em 45 minutos, o Inter finalizou 10 vezes e trocou 273 passes. Interpretando: na etapa incial, na qual o Caxias ficou mais fechado, o Inter apostou em tocar a bola e abrir espaço até a hora de chutar. O número, dado o panorama, pode ser considerado alto.
"Uma coisa que faltou no jogo foi acionar os pontas em situação de 1 contra 1. Tanto Patrick quanto Caio Vidal pouco receberam bolas nessa condição. Isso é algo que vai ser muito buscado no decorrer dos jogos e que precisa ser bem trabalhado", ponderou o analista.
É basicamente o mesmo que disse Ramírez ao final da partida. O trabalho do treinador se dá para que a bola chegue aos dois com as melhores condições possíveis. Sobre Patrick, aliás, declarou:
— Pela potência, pela força, ganha os duelos e é capaz de cruzar, chutar. Agora estamos tentando mudar um pouco, que ele fique no lugar e espere a bola chegar. Com espaço. Em certa zona, no um contra um, Patrick é imparável.
Ainda restam algumas experiências, como mais tempo para Yuri Alberto, que entrou bem contra o Caxias e entendeu o espaço que precisa ocupar.
