
Juiz de Fora e Porto Alegre estão distantes, em linha reta, por 1.209 quilômetros. Mas em 1993, de alguma forma, as duas cidades se encontraram por acaso. Sem internet, sem qualquer gaúcho por perto, Luiz Las Casas, uma criança mineira de sete anos, resolveu se tornar torcedor do Grêmio.
Em um primeiro momento, a decisão da criança que nasceu na área rural da cidade na zona da Mata mineira não faria sentido. Mas a paixão surgiu assim que ele botou os olhos nas três cores.
— Meu primo tinha uma coleção de camisas de futebol. Um dia, a gente brigou e ele aprontou. Para dar uma lição nele, minha tia me mandou escolher uma das camisetas dele. Eu podia escolher uma do Zico, outra do Pelé, mas eu olhei aquela camisa azul, preta e branca. Foi uma paixão, o meu olho brilhou. Eu lembro como se fosse hoje: eu tinha 7 anos, e era a camisa de 93, a camisa 10 do Dener — recordou em entrevista à Zero Hora.
Os anos seguintes andaram da mesma forma. Leitor da revista Placar, Luiz esperava a publicação para, talvez, ler uma matéria ou foto sobre o Grêmio. Era um solitário entre flamenguistas ou vascaínos, mas nunca deixou de torcer pelo Tricolor. Loirinho, com a camisa gremista, nos anos 1990, se sentia como Paulo Nunes. O primeiro torcedor do Grêmio que conheceu? Só com 23 anos, longe de Juiz de Fora e de Porto Alegre, na Bahia.
Motivos não faltavam para deixar a paixão de lado. Enquanto o clube vivia grande fase, em 2016, a família de Luiz atravessava um caminho tortuoso. Ele chegou a morar recluso, traumatizado por um assalto, mas, ali, se apegou ao Grêmio.
— Passei dois anos sozinho. E, quando não tinha ninguém, tinha o Grêmio. Aquele time de 2016 parecia família. E eles me acompanharam, eles foram meus amigos e eles nem sabem disso. Então, no momento mais difícil da minha vida, que eu me sentia sozinho, me sentia isolado, o Grêmio estava lá. Naquele momento, me senti pertencente a algo — ressalta, hoje, com 40 anos.

E quando as coisas precisam ser de uma forma, elas são.
— Essa Arena, toda azul, me encanta. E, na verdade, eu sou alérgico a vermelho. Eu não posso tomar remédio com corante vermelho. Eu estava destinado a ser gremista — contou aos risos.
Presença na Arena
Depois de 33 anos distantes do Tricolor, o mineiro, enfim, terá a chance de assistir ao Grêmio in loco. Ele estará, à convite do clube, na tribuna presidencial na partida contra o Mirassol pelas oitavas da Copa do Brasil. Realizará o sonho da criança de sete anos que uma vez escolheu torcer pelas três cores.
— É difícil colocar em palavras. Verei um filme na minha cabeça, ver aquela criança realizando um sonho. É a realização de tudo que pensei nos últimos 33 anos. Ver aquele guri de sete anos com a camisa do Grêmio, em cima de um cavalo e gritando "Grêmio, Grêmio" por aí, com ninguém entendendo nada. Não se trata de futebol, se trata de pessoas, histórias, legados e famílias — concluiu.
E Luiz viveu o hino do Grêmio quase que ao pé da letra, "nós como bons torcedores, sem hesitarmos sequer aplaudiremos o Grêmio, aonde o Grêmio estiver".
E, de alguma forma, o Grêmio estava em Juiz de Fora.
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