
Portugal, primeiro, lançou navegadores além-mar. Vasco da Gama, Cabral, Bartolomeu Dias. Hoje fabrica treinadores para exportação. Mourinho, Abel Ferreira, Jorge Jesus. Em dezembro, um integrante da frota lusitana aportou no Pampa. O campeão do Rio Grande do Sul nasceu na pequena Vila Real.
Luís Castro realizou a travessia por águas turbulentas. Viverá a sensação de singrar por mares serenos pelos próximos dias como os momentos vividos no gramado do Beira-Rio na noite deste domingo (8).
O título gaúcho estava assegurado. Kannemann recebia atendimento médico. Castro se posicionou à frente do banco de reservas. Apoiou a cabeça na estrutura da casamata e fitou o infinito por alguns instantes. Nada o abalou naquele momento só dele. Nem a situação de seu zagueiro. O barulho das duas torcidas. Os rojões em explosão. Ele estava em outra dimensão.
Acabado o jogo, oficialmente campeão estadual, flanou pelo pisoteado gramado da casa colorada. Foi atirado ao céu pelos jogadores. Se enrolou em uma imensa bandeira gremista emprestada pelo presidente Odorico Roman.
Ganhou uma camiseta comemorativa ao título. Antes de vesti-la, tirou a credencial, Alcançou-a à repórter da Rádio Gaúcha segurá-la. Nunca mais a pegou de volta.
— É fantástico ser campeão — festejou antes de ingressar no vestiário.

Até a tormenta passar, experimentou o gosto salgado de levar três gols em nove minutos em um clássico. Quase naufragou na semifinal. Reanimou-se com a classificação nos pênaltis. Saboreou a goleada sobre o mesmo rival que o aniquilara. Refestelou-se com a festa da vitória. Sem perder o cacoete de comandante.
Organizou a foto não-oficial da conquista. Procurou pelo preparador físico Betinho para posar com o troféu ao lado de sua comissão técnica. Cansou de esperar e tirou o retrato com quem estava por perto. Levou a taça em formato de cuia em direção à torcida.
Passou para outras mãos o objeto. Perguntou ao segurança Fernandão:
— Fernando, sabes o que estamos a fazer aqui.
— Não. Daqui a pouco apagam as luzes.
— Pois, vamos embora então — disse e foi em direção ao vestiário.

Os 90 minutos no Beira-Rio foram uma miniatura dos primeiros meses de Grêmio. Sacudiu a cabeça em negativa após falta em Amuzu. Arqueou o corpo em outro lance em que o ganês partiu em velocidade.
As duas mãos foram à cabeça um átimo antes de Carbonero desperdiçar chance cristalina para o Inter. Na hora do pênalti marcado para o adversário correu para ver o lance no banco de reservas. Em um instante zarpou dali balançando o indicador em riste. Viu o mesmo que o árbitro na revisão. Infração desmarcada.
Na hora do gol de Gustavo Martins, feito guri correu com os braços estendidos. Enquanto os jogadores festejam sentou-se. Aliviado apoiou as costas no banco. O título ficou um bocado mais próximo.
"Ganhamos o Gauchão, mas temos que fazer crescer a equipe, muito trabalho para fazer. Muito caminho para andar."
Feito inédito
Não é pouca honra o feito de Castro. Se tornou o primeiro estrangeiro a ser campeão gaúcho pelo Grêmio. Sentiu o raro prazer de sair do Beira-Rio como campeão. Ganhou pulseira VIP para sentar à mesa junto com Mano Menezes (2006) e Ênio Andrade (1980). Os filhos da aldeia gaúcha eram até este domingo os únicos técnicos gremistas a erguer um troféu de Gauchão na casa do rival. No novo Beira- Rio, o feito é inédito.
O comandante gremista engrossa a lista de portugueses vitoriosos em Terra Brasilis. Nascido inglês e dominado por décadas pela habilidade brasileira, o futebol, hoje, é vencido por portugueses. Nos últimos anos, treinadores do país colecionam títulos regionais, nacionais e continentais.
São capítulos recentes escritos com tintas frescas por Castro e seus contemporâneos. Uma história iniciada quase um século atrás por Jorge Joreca, campeão paulista nos anos 1940.
São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Mato Grosso, Maranhão, Sergipe, o distante Roraima e, agora, o Rio Grande do Sul ouviram em anos recentes o grito de campeão ecoar sotaque de Camões. Fora da terrinha, o técnico gremista ergueu taças na Ucrânia, no Catar e na região arábica.
Castro parte para rotas mais perigosas no Brasil e na América do Sul. Ora pois, a vida de um navegador é uma travessia sem fim.




