
Enquanto esteve na base do Grêmio, Gabriel Spessato acostumou-se com o termo "promessa". Formado como lateral-direito, ainda atuou como volante e como zagueiro em clubes de menor expressão nos anos seguintes da carreira. O fato é que a expectativa criada não se concretizou, o que não impede que o ex-jogador olhe para o período nos gramados com orgulho.
Nascido em Erechim, em 1991, mas criado em Arroio do Meio, no Vale do Taquari, Spessato teve no futsal os primeiros contatos com o esporte. Após representar o Sete de Setembro, clube de Lajeado, em um torneio na região, o menino de 10 anos chamou a atenção da comissão técnica de uma das equipes adversárias. Não foi difícil aceitar o convite do Grêmio.
No clube do coração, o gaúcho viveu o sonho de infância vestindo a camisa tricolor. Ao mesmo tempo, pulou etapas da juventude e amadureceu de forma precoce. No final das contas, foi premiado com a segunda parte do sonho: conviveu com o time principal e entrou em campo pela equipe.
Entre lesões e concorrências, Gabriel Spessato seguiu a carreira longe do Tricolor, o que lhe mostrou a dura realidade do futebol do interior gaúcho. Ele não teve medo ou vergonha ao entender que poderia ser mais feliz em outra profissão, o que o levou a aposentar-se antes do esperado. Mesmo assim, não abandonou o universo do futebol.
A história do ex-jogador é semelhante a de muitos jovens que tentam a sorte no mundo do futebol. Zero Hora também conta a trajetória de outras duas promessas da dupla Gre-Nal que deixaram os gramados cedo: Lucas Roggia e Cassiano Farias.
Uma criança em busca do sonho
Com apenas 10 anos, Spessato passou a treinar três vezes por semana em Porto Alegre. Ele e outros meninos da região viajavam juntos para a Capital, com os pais revezando na função de responsável no trajeto. Depois, foi necessário alugar uma van para deslocá-los até a capital gaúcha.
— Era aquela logística. Ir para o colégio de manhã, sair correndo, mal almoçava, para estar lá no Cristal às 14h e treinar. Saía de Porto Alegre às 18h, chegava aqui em Lajeado, Arroio do Meio, 20h30min. Era questão de tomar banho, fazer os temas e ir dormir — lembra sobre a rotina a partir dos 12 anos, quando os treinos passaram a ser diários.
Quando completou 14 anos, o ex-jogador assinou um contrato de formação e passou a receber auxílio de custos, valor entre R$ 200 e R$ 300. Naquele momento, passou a residir em Porto Alegre e morava junto de outros dois colegas em um apartamento na frente ao Estádio Olímpico.
Além da troca de cidade, outra mudança foi na posição em campo. O meia-atacante que chegou na Capital deu lugar ao lateral-direito que, desde cedo, se destacava pela liderança.
Destaque e Seleção Brasileira

Aos poucos, Spessato conquistou o seu espaço na base e passou a ser visto como promessa para o futuro da equipe na época. Ao completar 16 anos, assinou o primeiro contrato profissional, válido por três anos. Dois anos depois, outro vínculo foi firmado, de cinco temporadas.
— Essa expectativa é muito mais externa do que interna. No meu caso em si, eu nunca tive essa pressão de "preciso ser", "eu vou ser". Obviamente, no dia a dia, tu percebe que o clube te trata bem, que o clube te dá boas condições, que o clube confia em ti. Mas não existiu aquela pressão "tu precisa fazer virar", no meu caso específico — disse o ex-lateral.
O fato é que o jogador teve destaque em diversas competições na base. Entre as disputas estiveram Efipan, Copa Votorantim, Copa Santiago, Copa São Paulo de Futebol Júnior, além do Brasileirão sub-20, torneio em que foi o capitão do Grêmio no título de 2009. No ano seguinte, terminou como artilheiro do time júnior com 19 gols, o que também reforçava a capacidade de chegar ao ataque.
— Eu convivi muitas vezes mais com outros atletas do que com a minha própria família. Por mais que a família seja importante e presente, ela não conseguia estar sempre. Então, se eu sou alguma coisa hoje, é muito pelo que o Grêmio me proporcionou no caminho — lembra com carinho.
O bom desempenho fez com que Gabriel Spessato fosse convocado para um período de treinos com a seleção brasileira sub-20, antes do Sul-Americano de 2009. Durante uma das atividades, ele rompeu o ligamento cruzado pela primeira vez e teve de ser cortado. Na época, disputava posição com Rafael Galhardo, ex-Grêmio, e Danilo, atualmente no Flamengo.
A opção pela aposentadoria

Após o período de recuperação, o gaúcho voltou a treinar e acabou emprestado ao Cerâmica, em 2012, para a disputa do Gauchão. No ano seguinte, sob os mesmos moldes, foi cedido ao Juventude, antes da Série D começar, mas voltou a se machucar, o que o impediu de disputar a competição. Na sequência, retornou ao Tricolor, disputou dois jogos no Gauchão de 2014 e acabou deixando o clube de forma definitiva, ates do término do contrato.
— Óbvio que se cria uma expectativa, que é aquela história linda de subir para o profissional do Grêmio, ter jogos excelentes e ser vendido. Ao mesmo tempo, eu estava muito feliz por estar no profissional do Grêmio, por que eu sou gremista. Naquele momento que eu não consigo dar o salto, já estou brigando com a parte física — comentou o ex-atleta, que também teve lesão no menisco.
Depois, Spessato ainda defendeu Aversa Normanna, que disputava a terceira divisão italiana, Novo Hamburgo, Brasil de Farroupilha, São José e São Paulo-RS, clube em que se aposentou em 2016. Neste período, as dificuldades físicas cresceram, e o ex-jogador passou a conviver com a dura realidade fora de uma equipe de expressão.
— Tu começa a passar trabalho no Interior, começa a ver que a realidade de jogador não é tão fácil — explicou.

O gaúcho de Arroio do Meio contou que sempre teve o apoio dos pais, uma professora de português e um funcionário de banco, mas que era cobrado para ter um "plano B". O pai fez com que Spessato tivesse uma noção mais clara sobre dinheiro. Já a mãe o incentivou para seguir com os estudos durante a carreira.
— O jogador vive em uma bolha, as coisas surgem muito fácil. Os meninos acabam ganhando muito mais do que os jovens da mesma idade que não são jogadores, e isso te coloca em uma posição diferente. Em uma festinha, na própria vida, no carro que tu tem quando faz 18 anos. Então, é muito fácil esse deslumbre. Eu vi isso acontecer diversas vezes. Confesso que só não passei por isso justamente por ter a família junto comigo — lembrou, sobre o suporte que teve dos pais.
O mundo fora do futebol
Nos últimos anos como atleta, Spessato começou a cursar Direito, terminando a formação depois de deixar os gramados. É neste momento também que ele escutou das pessoas que realizavam a assessoria de imprensa de sua carreira que não poderia abandonar o futebol por ser uma pessoa bem articulada. Por um ano, trabalhou nesta empresa como agente, período em que ele batizou como "estágio". No ano seguinte, decidiu seguir o próprio caminho.
A trajetória como atleta foi fundamental na nova área. Primeiro, as experiências do campo o ajudaram a lidar com os jogadores agenciados. Além disso, os primeiros clientes foram justamente pessoas que tinham jogado com Spessato e que confiavam no seu jeito de agir.
Atualmente, comanda a Spessato Group, que é responsável pela carreira de 45 atletas, que estão em equipes das quatro divisões do futebol brasileiro e em outros seis países. O ex-jogador do Grêmio conta que o mais difícil na profissão é lidar com os jogadores mais jovens que estão muito ligados ao mundo tecnológico.
— É muito difícil ser jogador de futebol. Tu poder vivenciar um pouco disso é motivo de se sentir privilegiado no contexto todo. Por trabalhar com isso hoje, eu vejo que as redes sociais deram aos meninos uma visibilidade muito maior do que na minha época. O único meio em que a gente se via em evidência era abrir a Zero Hora, de vez em quando, e ver teu nome. Hoje, os meninos fazem um bom jogo e vão para o Instagram para ver o que estão falando deles — comentou.
Gabriel Spessato segue no mundo do futebol, mas não pratica no tempo livre. Nos primeiros quatro anos após a aposentadoria, ele evitou esportes de maior intensidade por medo de lesões.
Com o tempo, deu chances ao futevôlei e ao pádel. E, quanto ao Grêmio, a torcida e o carinho seguem, ainda que por trabalhar no meio esportivo, ele não tenha mais a mesma paixão de torcedor de outros tempos.





