
O pequeno município de Maracajá, em Santa Catarina, a cerca de 30 km de Criciúma, quase teve um projeto de craque no futebol gaúcho para chamar de seu. A história de Cassiano Farias começa com destaque no Juventude, mas termina cedo dentro dos gramados. O que para alguns pode ser visto como fracasso é motivo de orgulho para o ex-atacante. Ele viveu na pele o sonho de ser jogador de futebol.
Nascido em 1997, Cassiano começou no futsal e não demorou muito para virar o primeiro a ser escolhido. Por volta dos 13 anos, participou de um campeonato em Araranguá-SC e atraiu o interesse de olheiros que o levaram para o Juventude.
Aos poucos, o atacante de 1m69cm mostrou qualidade com as duas pernas, fez chover nos torneios de base e provocou uma disputa entre a dupla Gre-Nal pela sua contratação. No fim das contas, quem levou a melhor foi o Tricolor.
Os anos no lado azul de Porto Alegre não foram como o imaginado, e Cassiano enfrentou problemas comuns entre jovens que sonham em ser jogadores de futebol. A adaptação à nova realidade não foi fácil e dificultou a sequência no Grêmio. Com pouco tempo no futebol profissional e longe dos grandes holofotes, ele optou por uma vida mais tranquila. Atualmente, na cidade em que nasceu, Cassiano concilia os estudos com um negócio familiar que ajuda a tocar.
A história do ex-jogador é semelhante a de muitos jovens que tentam a sorte no mundo do futebol. Zero Hora também conta a trajetória de outras duas promessas da dupla Gre-Nal que deixaram os gramados cedo: Lucas Roggia e Gabriel Spessato.
Protagonismo desde cedo

Ao chegar em Caxias do Sul, Cassiano deparou-se com uma realidade pouco comum para uma criança de 13 anos. Em uma casa, vivia com outros cinco jogadores de categorias próximas e uma pessoa responsável: a avó de um dos colegas.
A distância da família e as dificuldades do começo da adolescência pareciam não interferir dentro de campo. Em 2011, o atacante foi artilheiro e melhor jogador do Efipan, que foi vencido pelo Juventude. O bom desempenho nas demais competições fez com que Grêmio e Inter disputassem a sua contratação, dois anos depois. No fim, o Tricolor fez uma oferta maior e acabou assinando com o atacante por três temporadas.
— Desde pequeno eu já estava me acostumando com isso, porque eu já vinha me destacando no Juventude. Então, eles me já me tratavam diferente, eu tinha bastante responsabilidade. Nos jogos, a maioria das bolas era em mim. Eu tinha que decidir os jogos. Com aquela responsabilidade, eu já estava meio que acostumado com essa cobrança maior em mim — lembrou Cassiano.
Se antes o contrato era de formação, recebendo valor simbólico de ajuda de custos, no Tricolor o jogador assinou pela primeira vez um vínculo de base. Era a chance de mudar a realidade da família, que contava com o pai, funcionário aposentado de um posto de gasolina, e a mãe, que trabalhava como empregada doméstica.
O sonho na capital gaúcha

Aos 16 anos, Cassiano assinou com o Grêmio por três anos e passou a morar em Porto Alegre. Primeiro, morou com outros atletas do clube em um apartamento. Poucos tempo depois passou a morar com os pais, que se mudaram para a cidade para acompanhar a carreira de perto.
A tranquilidade da época de Juventude, quando tudo era diversão dentro de campo, deu lugar à ansiedade por estar em um clube mais competitivo e próximo da categoria profissional. Segundo o ex-jogador, os primeiros anos foram de dificuldades na adaptação, sendo necessário acompanhamento em psicólogo e em nutricionista.
— Quando eu mudo do Juventude para o Grêmio, eu também mudo meu modo de pensar, eu fico um pouco mais ansioso. Então, eu também já não conseguia lidar com aquela pressão. Eu me sentia mais pressionado no Grêmio do que no Juventude. Talvez porque no Juventude eu fosse mais novo e estivesse mais acostumado ou eu não entendia tanto pela idade. Mas no Grêmio eu comecei a entender mais sobre a responsabilidade de querer ser profissional, de dar certo — lembra.
Apesar das dificuldades, Cassiano ressaltou que o Grêmio ofereceu diferentes formas de suporte e esteve ao lado dele no período. A partir do segundo ano estava mais adaptado e pôde se soltar mais dentro de campo.
Mesmo assim, enfrentou forte concorrência das gerações de atletas nascidos entre 1996 e 1997. O grupo tinha nomes como Everton Cebolinha, Arthur, Lima, Jean Pyerre, Lincoln e Klauss, um dos melhores amigos de Cassiano, atacante do St. Louis City, dos Estados Unidos.
— A gente conversava bastante que vivíamos no "Mundo Grêmio". A gente vivia aquele mundo em que todos pensam que vão ser profissionais, que vão jogar, que vão se destacar e ser contratados por algum outro time. Todo mundo pensa que vai dar certo. Ninguém pensa que vai dar errado. Era uma bolha e ficávamos muito dentro dela — destaca Cassiano ao lembrar sobre a mentalidade dos jovens colegas nas categorias de base.
Um choque no profissional

Cassiano teve contrato com o Grêmio até os 21 anos, sendo que no último ano de contrato foi emprestado ao Juventude. Dada a concorrência — o mesmo reconhece que era um período difícil para subir ao profissional — ele apenas realizou treinos com o time principal, mas não foi promovido. Na base, disputou as mais diversas competições, com destaque para a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Após o fim do contrato com o Tricolor, foi viver a realidade do interior gaúcho. No caso, foi anunciado pelo Lajeadense para a disputa da Divisão de Acesso de 2018.
— A gente vivia dentro de outra realidade. A gente estava em um clube grande, um clube de Série A, que vivia Libertadores, Copa do Brasil, tudo isso. O salário também em dia, salário alto, mesmo na base, o salário já era alto. Então, a gente já estava acostumado com aquilo. Aí quando eu vou para o Lajeadense é totalmente diferente. O salário mais baixo, a estrutura sem comparação, então a gente acaba tomando um choque por causa disso — conta o ex-atacante.
Depois, ainda passou por Metropolitano (Blumenau), Marinhense, da terceira divisão portuguesa, e encerrou a carreira no Serra Macaense, de Macaé. No meio do caminho, ficou quase um ano parado durante a pandemia da covid-19 e chegou a ser aprovado em um teste no Criciúma, clube em que treinou por seis meses. Mesmo assim, não chegou a jogar profissionalmente.
— No começo, eu tinha mais frustração. A expectativa que eu tive no Juventude, depois no Grêmio, com um contrato de cinco anos. No começo eu tive um pouco de frustração por não ter "dado certo", como costumam falar, mas, por outro lado, meus amigos falam: "tu jogou no Grêmio e no Juventude". Eu acabei passando quatro anos no Juventude e cinco no Grêmio. Então, acho que sou muito mais agradecido — desabafou.
O mundo fora do futebol
Por mais que a carreira não tenha decolado, Cassiano pode dizer que mudou a realidade da família por meio do futebol. O dinheiro que recebeu durante a passagem no Grêmio, e os valores do término do contrato foram o suficiente para a família investir na compra de um pequeno mercado em Maracajá. Após deixar o futebol, ele passou a ajudar os pais no negócio, que funciona de domingo a domingo.
Neste período, o catarinense retornou à cidade de origem e também começou a disputar torneios de futebol amador. Da mesma forma, deu continuidade ao esporte nos estudos. Cassiano começou a cursar Educação Física em Criciúma e, atualmente, está no sexto dos oito semestres do curso.
Sobre o futebol em si, ele segue na torcida pelo time do coração, o Grêmio, o qual é muito grato por todas as oportunidades. Entre os diferentes campeonatos que costuma acompanhar na televisão, a antiga promessa do futebol gaúcho garante que quer retornar aos campos assim que concluir a graduação. Ao contrário da vida de jogador, Cassiano tem agora tempo para pensar e decidir com calma em qual área seguirá.





