A Arena vive um momento de mudanças. O verde do gramado foi tomado pelo cinza de um piso artificial para receber o festival Universo Alegria neste sábado (6). Mas os gabinetes também passam por reformas. A gestão Alberto Guerra terminará na próxima segunda-feira (8), quando Odorico Roman tomará posse para administrar o Grêmio pelos próximos três anos.
Na sala da presidência, Guerra recebeu a equipe de Zero Hora na última sexta (5) para uma entrevista. Responsável pela condução do clube em momentos de muitas dificuldades, como a briga com a antiga gestora do estádio e a enchente de 2024, o dirigente acredita que entregará o Grêmio para a próxima administração em melhor situação do que recebeu o clube em 2022.
Por isso, esperou que Odorico tome posse para resolver algumas situações importantes para o futuro. As contas do clube preocupam. Da temporada mágica de 2023 com Luis Suárez, navegar um 2024 de dificuldades trazidas pelos prejuízos da enchente e um ano de renovação de ciclos no clube, Guerra chega ao final do mandato confiante de que fez parte da construção de um futuro melhor para o Grêmio. Confira abaixo a entrevista exclusiva:
Que Grêmio será entregue para a próxima gestão?
Acredito que entregamos o Grêmio melhor do que a gente pegou. Talvez a fotografia do momento que mais se fale seja a da parte financeira. Realmente não é das melhores. Mas o filme logo adiante, ainda dentro de dezembro, com possibilidades de grandes aportes de recursos. De valores ainda para dezembro. E não estou falando nem venda de jogadores. A gente quer que a nova gestão entre o mais rápido possível. É importante para que eles trabalhem no futebol, tomem as rédeas de algumas situações. Mas se tivéssemos também um tempo mais, a gente conseguiria também finalizar essas questões financeiras. Mas também não é um problema. O Grêmio é uma continuidade.
A questão Arena teve outra solução apresentada. Que é a questão da alça de acesso à Freeway. Como fica essa situação?
Como presidente, quase ex-presidente aqui, foram muitas decisões difíceis de tomar. De enfrentar a Arena, como fizemos. Tu nunca sabe como a briga termina. Sabe que ela começa. Todos os limites tinham sido já alcançados Porque não dava mais para o Grêmio suportar algumas situações. Foi um trabalho bastante árduo nosso. Fomos penalizados muitas vezes. A chegada do Marcelo, e se não fosse ele obviamente o Grêmio não teria essa condição, mas a gente criou as condições favoráveis para que se pudesse resolver. Com relação à Arena, a gente vem tratando de várias questões no entorno. Uma delas é esse acesso. A alça de acesso para a Freeway. Importante creditar o vice-presidente José Carlos Corrêa Duarte por esse trabalho. Tivemos a visita aqui do prefeito Sebastião Melo, com as plantas, com a presença do DMAE. Faltavam algumas questões. Agora só falta o dinheiro com as emendas prometidas para a construção.
Qual o conselho que o senhor deixa para o futuro presidente Odorico Roman?
Acho que eu estou pensando ainda, que vou botar no discurso ali, mas sem dúvida nenhuma que tenha muita paciência, muita resiliência ele vai escutar conselhos de um milhão de pessoas e cada um deles tem uma ideia diferente pro Grêmio que a vezes as pessoas não se dão conta quando a gente recebe. Então no final ele vai ter que decidir pela cabeça dele, vai ter que ter obviamente que um ou duas pessoas muito próximas que ele confia pra trocar uma ideia. Quando a responsabilidade é nossa, é importante que a gente decida pela nossa cabeça. Não pela dos outros, mas vendo esse cenário atual, especialmente que perguntou antes de mídia social dessa instantaneidade de ver informação rápido. Que se tenha a resiliência, paciência, respire fundo e toque em frente.
O senhor entende quais decisões como equivocadas e quais acredita que o tempo irá confirmar como acertadas
Várias. Há várias dessas pequenas. Foi uma decisão difícil enfrentar a gestora da Arena e nosso parceira, mas ela se mostrou no final acertada. O futebol é sempre uma aposta. Acho que na maioria das vezes acertou. Outras vezes, não. O torcedor quer saber da bola na rede. O Grêmio tem uma equipe praticamente pronta. É claro que requer oxigenação, atletas que podem sair, tem valor de mercado se troca. Mas a gente tem uma espinha dorsal muito boa. O que eu faria que eu não fiz, eu sei agora olhando pra trás, mas é fácil falar depois que a gente apostou e não deu certo. Não há um grande arrependimento, mas talvez ajudar mais o setor da comunicação. Acho que merece uma atenção especial tendo em vista a situação;
Achei que o senhor falaria da decisão de saída do Renato ao final de 2024 nessas decisões...
O Renato é um dos maiores treinadores do Brasil e da história do Grêmio. Ficarmos dois anos juntos nessa gestão me ajudou barbaramente, ajudou o Grêmio. Mas ele sabe disso também. É uma entidade aqui. E encerrar um ciclo desse tamanho, começar outro e todo o vácuo que o Renato deixa cada vez que sai, também não são tarefa fácil. Foi uma característica também da gestão. A gente soube encerrar alguns ciclos. Não quer dizer que ele não possa voltar. Acho até que pode, mas quando se encerra naquele momento tem mais um ano de gestão e a gente sabe que isso às vezes demora até o trem entrar nos trilhos. Não foi só com ele. Teve em diversas áreas com profissionais que não são só da bola, com profissionais de suporte, com atletas que saíram. Foi um desafio enorme sair daquele daquele time multicampeão de 2016 e 17 e recomeçar um outro. Se a gente analisar numa linha de tempo, o que a gente tem são times vitoriosos e entre eles a busca desse time vitorioso.
O Grêmio termina 2025 com a possibilidade de dar continuidade no futebol. Isso facilita uma próxima gestão?
O Grêmio é uma continuidade. Entendo as questões políticas, mas o que a gente não pode é a cada três anos acabar com tudo e começar do zero de novo. Não fiz isso quando peguei um time vindo da série B. Se aproveitou o que se podia e aos poucos foi fazendo toda uma transformação. O Felipão falou isso, que acha que o time também está muito bom quando todos os atletas estiverem à disposição. E acho que isso facilita. É natural que a direção antiga tem uma certa influência nos primeiros seis meses da direção nova. Isso é natural por essa continuidade. Facilita e dá tranquilidade inclusive para que eles possam fazer as alterações nas peças que eles entenderem sejam que eles tenham que fazer.
Sua gestão criou dois fundos de investimentos para arrecadar recursos. Quais os impactos disso para as contas do clube?
Esse era um dos projetos, por exemplo, que acabou não andando em função da enchente. A gente teve todo um primeiro ano de tomar as rédeas da situação. De entender aqui o funcionamento do Grêmio, em todos os seus aspectos. É uma série de projetos construídos ao longo de 2023 para o restante da gestão. Com a enchente, esse é um tipo de projeto que parou. Até porque aqueles investidores decidem esperar. Foram afetados com a enchente de alguma forma. Uma incerteza absoluta. E em 2025, já virou ano eleitoral. Então o próprio investidor ele segura. E a gente sentiu essa dificuldade de comercializar e atrair o investidor para o fundo. Acredito que esse é o tipo de medida muito acertada. Que se a nova gestão fizer, tem três anos para estruturar, para que os investidores tenham essa relação. Existia essa incerteza nas eleições do Grêmio, um risco no ar. Odorico dá a possibilidade, que já no início da gestão ele possa constituir esses fundos. Para os gremistas interessados em aportar recursos possam investir no clube.
Como Odorico Roman encontrará o cofre do Grêmio na posse?
Se abrir no dia 8, talvez o Odorico encontre o cofre vazio. Mas acho importante entregar a gestão o mais rápido possível. Eles têm que se adaptar, entrar no clube e assumir o futebol. Não assinei mais nada nas últimas semanas por isso. O que vamos deixar é a possibilidade, ainda em dezembro, de colocar, no mínimo, R$ 100 milhões no cofre. Diversos negócios. E não é venda de jogadores. Se falar nisso, pode aumentar. O Grêmio está melhor do que quando eu peguei há três anos. Tem fundos, propostas no papel. Não são sondagens, são coisas concretas que podem colocar nos cofres R$ 100 milhões ainda em dezembro.
A presença de jornalistas identificados não é novidade, mas o senhor pegou um mercado diferente. Com a presença de mais influencers e veículos independentes. Qual o impacto disto no dia a dia do clube?
O Romildo ainda teve um pouco disso, mas o auge foi agora. Talvez o Odorico enfrente isso ainda. É diferente. Não vejo muito vantagem para o clube, a não ser para quem faz isso. Sou advogado A OAB regula os profissionais. Há uma ética de trabalho entre os jornalistas formados. E a gente não vê muito nessas redes. Quanto mais falar palavrão, mas falar mal, dá mais ibope. Dá mais like. Do ponto de vista do clube, não ajuda. Mais atrapalha do que colabora. Mas é uma realidade que se instalou. A gente tem que se adaptar. Não tenho a pretensão de a todos. Não sou bobo. O próprio nome diz. Influência a opinião de pessoas. Muitas vezes... Mostra o lado vaziou do copo. Não mostra a parte cheia.
O Grêmio já tem propostas de patrocinadores máster para 2026?
O Banrisul sempre foi um grande parceiro. Eles tinham uma capacidade de patrocínio que estava ficando um pouco abaixo do que os outros nossos concorrentes estavam ganhando com outros patrocínios. Não tinha como competir com os outros clubes de fora do Rio Grande do Sul. Trabalhamos em conjunto nessa, Inter e Grêmio, e conseguimos passar então de máster para frente para um máster costas por 18 milhões com o Banrisul. Alcançamos a Alfa, que no primeiro ano era em torno de R$ 47 milhões. Foi um grande negócio. O que acontece é que, infelizmente, em algumas situações os sócios brigam. Não é que estourou a bolha das bets. Mas aconteceu dessa deles brigarem e querem sair. Decidimos pelo rompimento e fazer um caixa nesses dois últimos jogos com a Energia, que tem uma possibilidade ela se quiser continuar aqui o ano que vem. Mas existem propostas de outras bets. inclusive uma das big four. Mesmo que não seja essa, o Grêmio não vai ficar dois, três meses sem patrocínio.
Uma questão em aberto é a continuidade de Mano Menezes. O senhor é favorável a ele seguir?
Essa é uma relação muito de confiança. Obviamente confio muito no trabalho do Mano. Estive muito pressionado algumas vezes em tirá-lo. E por acompanhar os treinos, saber da metodologia e o que os atletas pensavam, decidimos sempre mantê-lo com muita convicção. Acho que para dar certo isso, passa por aquilo que a gente já tem escutado dos dois lados. Eles têm que conversar, se entender, traçar os objetivos e alinhar as expectativas. Confio no Mano, é um dos grandes treinadores do futebol brasileiro e tem estofo para pegar um clube do tamanho do Grêmio, nas condições atuais na pressão.
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