Alex Leitão chegou ao Grêmio respaldado pela confiança do presidente Odorico Roman. Anunciado como o nome para tocar o dia a dia do clube, o carioca de 52 anos recebeu a missão de encontrar soluções para a gestão administrativa do clube. Como CEO, Chief Executive Officer ou na tradução livre de executivo chefe, o dirigente com passagens por Orlando City-EUA, Athletico-PR e Neom-ARA é a aposta da nova gestão do clube para navegar a delicada situação financeira do Tricolor.
Em cerca de uma hora de conversa com Zero Hora, Leitão reconheceu as dificuldades encontradas no início do trabalho da gestão Odorico Roman. Nesta quinta (18), ele completa 10 dias no cargo. O pouco tempo na casa nova, no entanto, não preservou o executivo dos problemas de troca de uma gestão no clube. Mesmo que alguns problemas se acumulem, principalmente as contas mais urgentes a pagar, o foco do profissional é encontrar soluções. Um caminho que poderá ser aberto justamente pelo local que recebeu a entrevista. A Arena, e seus espaços comerciais a explorar, podem ajudar a recolocar o Grêmio como um dos protagonistas do futebol brasileiro.
Após duas semanas de trabalho, qual é a situação das finanças do Grêmio?
A gente está no diagnóstico, no entendimento. Estamos com um parceiro super importante nos auxiliando nesse processo todo, que é a consultoria Ernst & Young, mas o nosso trabalho nesse momento é olhar o caixa, o fluxo de caixa do clube para que a gente possa ser operacional. Existem alguns compromissos que precisam ser superados ainda este ano, e serão superados ainda este ano, para que a gente possa começar o 2026 de uma forma mais positiva. Até para a gente começar a olhar, aí sim, em termos de planejamento financeiro.
Como vai funcionar este trabalho da consultoria?
Precisar o tempo é difícil. O que posso dizer é que não é algo constante no clube, é pontual. A gente está falando aí de um projeto de dois, três meses. Onde a gente pode, de uma forma muito rápida, buscar um diagnóstico da situação. É uma empresa que tem conhecimento, enfim, a gente não precisa aqui ficar explicando de que empresa a gente está falando, principalmente no futebol brasileiro. Foram eles que ajudaram a CBF na estruturação fair play financeiro. O Grêmio, esse clube tão grande, tem soluções, a gente tem sido procurado com algumas ofertas interessantes. Agora é identificar o que é melhor para o clube para que a gente possa seguir o nosso trabalho.
Qual é o problema mais urgente a solucionar? A dívida ou o fluxo de caixa?
O Grêmio se encontra numa situação que já vem de muitos anos. Ela é preocupante, mas é administrável. Venho dizendo isso. E vai demorar um pouquinho para a gente também ter a solução. Isso não acontece da noite para o dia. Para que eu possa ter um começo de ano um pouquinho mais estruturado, preciso resolver as questões emergenciais de fluxo de caixa. São essas que nós estamos atacando nesse momento. Temos pendências importantes, que precisam ser resolvidas até o final do ano, sob pena de a gente ter um começo de ano conturbado. Então a gente precisa de fato atacar, e nós vamos atacar e nós vamos resolver, para que a gente possa começar o 2026 aí sim já olhando para um planejamento financeiro, já olhando para alguns produtos mais sofisticados para trazer dinheiro bom, dinheiro barato para o clube. Trocar o dinheiro que hoje é caro para um dinheiro mais barato, para que a gente possa aí sim respirar e poder crescer o nosso planejamento financeiro.
E como resolver isso no contexto do futebol?
A gente não pode tirar o olho do campo, porque é diferente de situações de recuperações muito bem sucedidas, que evidentemente passaram pelas suas dificuldades e tiveram que sofrer para buscar os resultados positivos ali na frente. O futebol era outro, a competitividade era outra. Hoje a gente compete com clubes de faturamentos de bilhões, que têm SAFs. A gente compete com outras situações e, assim, o resultado ruim de campo prejudica também financeiramente o clube. Então, a gente precisa entrar ali numa linha o que eu tenho dito e conversado com os colegas aqui, que a gente vai buscar eficiência no investimento dentro de campo para que a gente possa, aos poucos, ir parando de sofrer e ter uma situação financeira mais consolidada e solidificada para o clube.
A venda do Alysson e as outras receitas que já apareceram na imprensa são suficientes para isso?
Não vou entrar em detalhes de números e valores, porque isso atrapalha nas negociações. O que eu tenho para te dizer é que, sim, existem situações emergenciais importantes que podem prejudicar bastante o clube no curtíssimo prazo. Não que a gente não vá atacar as situações de médio prazo e longo prazo. O presidente Odorico falou muito bem na posse dele que a gente precisa olhar e ter preocupação muito grande com a reputação do clube. E isso passa por honrar seus compromissos. Então, a gente vai olhar todas essas situações, mas existem evidentemente algumas que são mais emergenciais e mais urgentes que outras. O que eu quero dizer é que a gente já está atacando essas emergenciais, existem umas situações que foram aí comentadas e eu não vou entrar no detalhe delas. Já temos solução e vamos resolvê-las até o final desse mês.
Quais outros recursos são buscados para resolver a situação deste mês?
A está criando recursos para o clube. A venda de ativos, por exemplo, é uma delas. Antecipar algumas situações é outra. A questão do Alysson é pública. Quando eu digo antecipar, tenho a venda do Alysson. Essa venda é feita em pagamentos e em parcelas. Você consegue estruturar uma antecipação de recebível para que esse dinheiro entre antes e a gente possa honrar alguns compromissos. E é o que eu costumo dizer de trocar o dinheiro caro pelo dinheiro mais barato. É uma dívida ruim para uma dívida que esteja adequada ao nosso poder de geração de caixa. Existem soluções. A gente já buscou as soluções para o clube, e essas soluções vão ajudar. Não só nessa situação inicial que a gente precisa. Olhar o passado para que a gente possa ter uma condição de futuro menos alarmante, complicada e também para nos dar um respiro no começo. É um pouco de tudo a gente está falando de dinheiro novo, vender ativos e antecipar alguns recebidos. Enfim, é um conjunto de operações financeiras que a gente está olhando, sempre com muita responsabilidade, com muita preocupação para o caixa, não comprometendo muito ou buscando mais dívidas ruins para o clube. Então, estou muito tranquilo com as soluções que a gente acabou achando aqui.
Já temos solução e vamos resolvê-las até o final desse mês
ALEX LEITÃO, CEO DO GRÊMIO
Você já tem alinhado o valor disponível para começar a temporada com o departamento de futebol?
A gente tem uma ideia muito clara, muito próxima do que vai ser, porque, como eu te comentei, a gente está aqui há menos de duas semanas. Vamos trabalhar o orçamento a partir desse diagnóstico que virá da consultoria, só que a gente também entende que o tempo não para e não nos espera. A gente tem uma situação, inclusive, diferente esse ano, um campeonato que começa muito cedo. Então, a gente tem uma ideia, o departamento de futebol já tem mais ou menos uma ideia desse orçamento, que pode variar aqui uma coisinha ali, outra ali, aqui. A partir que os números começam a aparecer e as soluções e pensamentos das estratégias são desenhadas. Mas, sim, o departamento de futebol já começa a ter uma ideia mais clara.

É possível dizer que o tamanho do investimento é um tamanho adequado para o que o Grêmio precisa? Ou o torcedor tem que ter calma para começar o ano e, aos poucos, quem sabe, mais na frente chegarem os investimentos maiores?
O que eu defendo e venho conversando é que nós não podemos descuidar do campo. Baixa performance afeta negativamente o caixa, então existe uma relação muito próxima dessas duas coisas. A gente não vai, não há como a gente ir para uma redução drástica de folha, por exemplo, sob pena de você amanhã ter uma situação financeira ainda muito pior. Agora, o desafio e aí por isso que a gente traz pessoas do gabarito do Paulo Pelaipe, do gabarito do Luís Castro, do Dutra Junior, do presidente Odorico, é que a gente precisa ser eficiente. O que não pode acontecer, não estou dizendo que aconteceu, é você ter a quinta, sexta maior folha e terminar em 12º. O que você tem que ter é ao contrário, tem que ter ali a 9ª, 10ª e terminar em quarto lugar. Ser eficiente. A situação financeira não permite muitos erros, diria dessa forma.
Além do Braithwaite, algum outro jogador procurou a direção por dívidas e com a possibilidade de pedir a rescisão por isso?
Minha resposta é de que existem pendências de curtíssimo prazo que nós estamos atacando e vamos resolver até o final do mês.
É possível ter um patrocinador máster no primeiro jogo de 2026?
Gostaria de estar aqui hoje anunciando o patrocinador máster, a venda dos naming rights do estádio e outras oportunidades e propriedades que temos. Estamos em processo dessas negociações, só que essas conversas tem o seu tempo e seu rito, a gente precisa ter um pouco de calma. A gente não quer fazer duas vezes, a gente não quer fazer errado. Queremos fazer certo, tem que ter um parceiro que seja correto para as ambições e para o tamanho do Grêmio. Para o que o clube projeta em termos de pensamento estratégico. As coisas estão acontecendo. Conversas estão acontecendo porque é o Grêmio. O Grêmio é grande. E as empresas têm interesse no clube. A gente está conversando com todas essas possibilidades. No momento certo, com muita tranquilidade, a gente vem aqui e divulga para o torcedor.
Ao que tudo indica, o Grêmio terá pela primeira vez a venda dos naming rights da Arena. Como é que vocês imaginam a aceitação do torcedor com essa questão?
Vejo isso de forma muito natural. Primeiro que é uma novidade aqui, não é uma novidade na nossa indústria. Não é uma novidade mais no Brasil. Vocês estão perguntando porque é do interesse do torcedor, senão essa conversa não estaria aqui em pauta. Imaginar que o torcedor hoje está preocupado com as finanças do clube me passa a impressão, e eu acho que ela é correta, é de que a maturidade do entendimento da torcida é outra nos dias atuais. O torcedor entende da necessidade de você buscar recursos e a nossa casa é linda. Vamos buscar um parceiro que honre essa casa, tenha interesse porque acredita na marca do Grêmio. Qualquer patrocinador quando vem buscar essa parceria com o clube, na verdade, o que ele quer? Ele quer falar com o torcedor através do clube. O fim sempre é o torcedor. O desejo sempre é comunicar com o torcedor. As marcas que a gente vem conversando têm interesse nessa comunicação com o torcedor do Grêmio e vão fazer um belo trabalho de ativação, de aproximação de engajamento com essa torcida. Vejo isso de forma muito natural.
Como reduzir a distância para Flamengo e Palmeiras?
Vou dividir a resposta em algumas partes. Vivemos uma realidade que não tem como lutar contra. Existem clubes hoje que estão em centros maiores, onde tem uma população maior, número de torcedores maior. Por consequência, uma maior audiência, e vai acabar recebendo mais recursos em função disso. E aí, como é que você combate isso? Com eficiência. Você tem que errar menos, ser mais eficiente, ter uma torcida mais apaixonada, mais engajada, o fator casa tem que te ajudar a empurrar. Você tem uma série de outros aspectos que você precisa trabalhar de uma forma muito melhor do que esses clubes.
Mas como competir com essas forças?
O Flamengo por exemplo, e de novo eu acho que o presidente do Flamengo está fazendo o trabalho dele. Está olhando para o clube. No meu entendimento, o que o presidente do Flamengo quer é que o Brasileirão se transforme em uma Bundesliga, onde o Flamengo seja o Bayern de Munique. De cada 10 campeonatos, ele vai ganhar nove. Isso é o que ele quer e é legítimo que ele queira isso. Agora, os outros 19 clubes precisam se juntar e impedir que isso aconteça. O que a gente precisa fazer para que o Campeonato Brasileiro não se transforme em uma Bundesliga é que as diferenças tem de ser menores, a distribuição desses direitos tem de ser de uma forma um pouquinho mais consciente para todos os clubes. Isso é um trabalho de força política de discussão sobre o que queremos no futuro do futebol brasileiro. O Flamengo pode se recusar a participar disso isso? Pode. E aí não entro na bobagem de que o Flamengo vai jogar sozinho contra o seu sub-20, isso não vai acontecer, vai jogar o campeonato. Mas aí eu não estou falando do campo, estou falando de como é que você vende os seus direitos comerciais. Um clube indo ao mercado vender 19 jogos e você vai ter 19 clubes indo ao mercado vender 361 jogos. Aí eu te pergunto, você acha que um bloco de 361 partidas, que inclusive conta com os 19 jogos do outro, não tem uma força talvez até maior para que você diminua um pouco essa distância? Passa por sentar e discutir o que queremos de futebol brasileiro.
O que você pensa sobre a possibilidade de unificar os blocos de clubes para a criação de uma liga única para organizar o Brasileirão?
Penso, quero e vou dentro das minhas possibilidades trabalhar para que a gente tenha uma liga unificada, que os clubes possam juntos venderem seus direitos comerciais. No meu entendimento, tem dinheiro em cima da mesa que a gente está perdendo nos dias de hoje. Ter esses dois blocos comerciais separados, venho de experiências de liga, trabalhei durante muitos anos nos Estados Unidos que tem uma é liga das maiores ligas do esporte. A NFL talvez seja a maior liga de um esporte no mundo hoje em termos de faturamento, e a MLS segue muito a governança e o modelo da NFL. Venho dessa experiência. Esse é o melhor modelo e eu acho que a gente precisa trabalhar para que isso funcione nesse sentido.
Veremos mudanças nos serviços oferecidos ao torcedor na Arena?
Não posso me alongar muito, senão eu acabo anunciando coisas antes da hora, mas o torcedor pode esperar que, na questão de precificação e pacotes, a gente entende que teremos mais ofertas e produtos mais adequados à necessidade do nosso torcedor.
Essas novidades em dia de jogo aqui na Arena são para o começo do Campeonato Brasileiro?
Difícil, porque a gente está falando de alguma coisa que vai acontecer em menos de um mês. Mas, ao longo do ano vão acontecer, a gente vai conseguir implementar algumas mudanças. Diria que a gente está com muitas ideias. Acontece que aí tem toda uma dificuldade de implementação em função de tempo, etc. Acredito que ali em 2027 a gente vai estar começando a já colocar em prática praticamente tudo que a gente vem já elaborando. Muita coisa vai acontecer já. Então, por exemplo, pacotes, novos pacotes, novos produtos, precificação. Que nosso entendimento é muito mais racional. O nosso desejo é que a gente já possa começar já no Gauchão. Usar o Estadual para isso, inclusive. A gente pode errar, e eu acho que a gente vai errar em alguns momentos. Gostaria de ter esse retorno do torcedor do que não funcionou, do que funcionou muito e a gente vai calibrando. Para que a gente possa chegar ao Brasileirão de uma forma mais assertiva. Prefiro pecar pelo excesso do que não fazer nada.
Sempre existiu no Grêmio o distanciamento entre a gestão administrativa e a esportiva. O Grêmio do CT e o Grêmio da Arena. Como você trabalha essa questão no clube?
Você falou um problema que não é daqui. É algo mundial. Vi acontecer nos Estados Unidos, na Arábia Saudita. Relatos de colegas da Europa que acontece bastante. Como é que eu vejo essa situação? Todo mundo que trabalha no clube, todas as pessoas, ter como meta e objetivo os três pontos no próximo jogo. Isso é claríssimo. As pessoas têm que entender que isso aqui é um clube de futebol. Todo mundo tem que estar imbuído desse mesmo objetivo. Da mesma forma que o futebol precisa entender que todos os recursos que são alocados para que eles possam ter uma melhor situação de desempenhar o seu trabalho. Quando você começa a ter uma troca nesse sentido, aí você vira uma unidade. E eu acredito que essa unidade vai ser mais benéfica para o resultado do clube. E aí quando existe isso, uma simbiose com a torcida, a torcida abraça o projeto e vem junto com o clube. Essa torcida aqui, já joguei contra aqui. Sei como é a nossa torcida.
Vocês trabalham com alguma meta de título para o período da atual gestão?
A gente vai estabelecer metas de performance. Isso é fundamental. Entendo que, assim, a gente acabou de falar, né? As pessoas têm de olhar e remar para a mesma direção. Agora, se você não sabe qual é a direção que você tem que ir, você rema errado. Então, isso está sendo discutido internamente, as metas vão surgir, porque a gente precisa ter metas de performance, com certeza.
Os painéis de LED e o novo sistema de Wi-Fi comprados por Marcelo Marques estarão prontos na Arena ainda para o primeiro semestre?
O nosso objetivo é que para o primeiro semestre tudo já esteja pronto. Toda vez que se fala de Marcelo Marques e Arena, preciso dar uma pausa. É quase que uma liturgia essa situação. Porque é um troço tão louco. Não acho que exista na história do futebol nada parecido, sendo simplista. Um torcedor que vai lá, compra um estádio e doa para o clube. Não o conheço pessoalmente, mas já diria que é um negócio, é um ato absurdo e a gente precisa honrar isso. Já fiz reuniões a respeito desse tema e o planejamento hoje existe para que durante o primeiro semestre a gente tenha o LED de meio e que a gente possa também ter já o Wi-Fi. Isso vai nos possibilitar uma série de benefícios para os nossos patrocinadores, para o torcedor. E, principalmente, para essa relação de engajamento com torcida.
E como melhorar essa questão?
Às vezes quando se fala em engajamento, as pessoas falam que é uma coisa bacana. Outro dia eu vi, acho que foi o UOL, que fez um levantamento de um ranking do engajamento das torcidas e vi Grêmio muito lá embaixo. O nosso torcedor precisa compreender que engajamento de torcida é diretamente relacionado a maior linha de receita de um clube de futebol, que é o direito de transmissão. Ele é dividido em três partes. Uma é fixa, outra é a sua a posição de tabela do ano anterior e a terceira é em relação ao engajamento do torcedor. Hoje a gente precisa fazer um trabalho muito melhor. E aí você fala, mas a culpa é do torcedor? Não. A gente precisa ter produtos, atividades, estar puxando sempre o torcedor. Logo, a gente precisa estar criando produtos, criando ações e trazendo esse torcedor para perto da gente.





