
Braithwaite criou raízes em Porto Alegre. Em recuperação de lesão no tendão de Aquiles, o centroavante quer cumprir seu contrato com o Grêmio. Mas mais do que isso. Ele quer continuar a entregar em campo o rendimento que já demonstrou pela equipe. Mesmo em uma temporada marcada por turbulências, o dinamarquês terminou 2025 como artilheiro do time. E isso sem pisar em campo desde setembro.
Na manhã da última quinta-feira (11), três meses dedicados ao processo de recuperação, o jogador recebeu a equipe de Zero Hora no restaurante Playa Paris para falar da recuperação, planos para 2026 e uma avaliação da temporada encerrada. O local é um dos investimentos do jogador com a esposa Anne-Laure. E caso tudo saia como o pensado, o local no shopping Iguatemi receberá a comemoração de muitos gols e títulos pelo clube a partir do ano que vem.
Como concilia tempo para recuperação, investimentos e a vida normal?
Não tenho muito tempo, com cinco crianças e uma esposa. Por exemplo, estamos aqui no restaurante e para todos parece que eu estou fazendo muito aqui. Mas não, sempre estou falando que é minha esposa, porque sou jogador de futebol primeiro, e futebol precisa respeito, de tempo. Porque quando não vai "dar a vida" para o futebol, tem que parar. Então, tenho interesse fora do futebol, mas minha primeira intenção e foco é o futebol.
Como foi a adaptação ao Brasil?
Como família, a adaptação foi muito fácil. Estamos muito abertos para outra cultura, e os brasileiros são pessoas com muito carinho. A imagem que eu tenho dos brasileiros foi a verdadeira. Muito amor, muito fácil para falar com as pessoas. Para as crianças era diferente, porque tiveram que deixar todos os seus amigos na Espanha. Mas para adaptar-se é bem importante falar o idioma. Eu e minha esposa estamos dizendo que é importante aprender o português para falar com seus companheiros, seus amigos, e todos estão falando o português, melhor que eu.
Como está a recuperação e a projeção para voltar aos gramados?
Está muito bem. Estou muito contente com a recuperação, trabalhando muito. Fizemos um planejamento com o departamento médico do Grêmio, meu preparador físico e meu fisioterapeuta. Tudo está ótimo. O departamento médico do Grêmio é muito, muito bom. Estou me recuperando bem, trabalhando todos os dias, fazendo tudo o que posso para recuperar rápido, mas o mais importante é que vou voltar bem.
Como é que viu essa reta final de temporada após a tua lesão?
Acho que terminamos bem. Queremos muito mais. Mas depois da lesão, a equipe teve um melhor momento. Com a chegada de muitos jogadores, jogamos melhor, de forma mais ofensiva e com mais opções para fazer gol. O time mudou e acho que o Arthur ajudou muito nessa maneira de jogar. De ter mais a posse de bola. Foi mais fácil para os jogadores ofensivos, que não era mais jogar direto. Jogamos melhor porque o adversário tem que ir pressionar. E quando o adversário faz isso, tem mais espaço para um contra um, ter mais opções para fazer gols. Então foi mais fácil, e eu vi o time muito bem. Queremos ganhar mais, mas sempre estou olhando como estamos jogando, não só o resultado. Perdemos alguns jogos, mas jogamos melhor. A ambição de todos é ganhar, mas temos que pensar em um futuro em curto prazo, mas também a longo prazo. Isso que eu vi, eu penso que vamos fazer algo muito bom ano que vem.
Você tem alguma data prevista para retornar aos jogos?
É difícil para dizer, depende da evolução da lesão. Agora, só estou pensando em ganhar cada dia para melhorar. Não estou pensando muito no futuro, porque tenho que fazer o melhor que posso hoje. Então, estou vivendo como dia a dia.
Como é que você acompanhou o rendimento de Carlos Vinicius?
Muito contente por ele. Carlos chegou depois de um momento sem fazer muitos gols, sem jogar muito. Todo centroavante precisa de gols, jogar jogar bem e desfrutar. Vi que ele está desfrutando, está feliz jogando. E a temporada que ele fez foi incrível, foi muito bem. Desde que chegou, foi o melhor centroavante do Brasil. Os números dele mostram isso.
Você acredita que poderá fazer uma dupla de ataque com ele?
Sim, claro. Quando jogamos com dois talentos, meu companheiro está fazendo muitos gols. Mas depende do treinador, e espero que não seja como o jogo com o Flamengo. Porque nesse jogo estava jogando mais como o volante ou até de lateral. Então assim não, acho que tem jogadores melhores do que eu para fazer esse trabalho. Mas em um time ofensivo, que quer atacar todos os jogos para ganhar, claro que sim.
Qual você acredita ser a maior diferença entre Brasil e Dinamarca?
Qual é a maior diferença? As pessoas são muito diferentes, na Dinamarca as pessoas são mais fechadas e aqui são muito abertas, o que eu posso dizer, é uma outra forma de viver. Com certeza você tem o clima que ajuda, aqui é muito mais quente, mas é um outro jeito de olhar as coisas. As pessoas amam a vida de um outro jeito, eu não queria usar a palavra "amam", mas é uma outra forma de viver o dia a dia mais alegre. Na Dinamarca as pessoas são mais estressadas, especialmente porque todos precisam fazer tudo correto. E eu vejo que aqui no Brasil as pessoas levam as coisas de um jeito mais calmo e tranquilo. Uma coisa que eu vi aqui no Brasil, e eu gosto muito, é que nos finais de semana você não consegue entrar em contato com as pessoas, porque eles estão juntos de suas famílias. Eles não querem ouvir sobre trabalho no final de semana. Claro, existem algumas pessoas que trabalham aos finais de semana, mas eu gosto dessa mentalidade da qual as pessoas usam o seu tempo para estar com suas famílias aos finais de semana.
Qual o motivo para o time não ter dado certo com Gustavo Quinteros?
Com Gustavo é difícil dizer, porque foi um momento muito curto, que não saiu bem, e ele foi embora muito rápido. Então, é difícil de dizer. E também para outro dia, quando estivermos falando de SAF, para outra conversa. Mas as coisas são importantes de sempre pensar em longo prazo. Com o Quinteros, por exemplo, ele chega, e jogamos bem no Gauchão. É normal, mas a torcida era muito feliz com ele pela maneira que ganhávamos. Chegamos e perdemos a final do Gauchão. Ganhamos o jogo contra o Atlético Mineiro também. E sofremos muito na Copa do Brasil. Com ele também, na verdade. Mas aqui no Brasil, são extremos. Ou somos os melhores, ou somos o pior time do mundo. E foi assim, muito rápido. Quando perdemos contra o Inter, já começou. E não sei quantos jogos estivemos no Brasileiro com ele. O início do Brasileirão não foi muito bom, foi ruim. Mas o Gustavo tinha uma maneira de jogar, muito ofensivo, queria pressionar muito, para acertar uma maneira de jogar, tem que correr muito, tem que aceitar essa maneira de jogar. Tem jogos que temos que mudar um pouco, mas ele teve muita ambição. Queria ganhar, só estava falando de brigar para os títulos, era a sua maneira de ver as coisas. Mas é muito difícil para analisar, porque realmente estamos pensando em Brasileirão. Eram poucos jogos para analisar o que poderia ter sido com mais jogos.
O Gustavo (Quinteros) tinha uma maneira de jogar, muito ofensivo, queria pressionar muito. Para acertar uma maneira de jogar, tem que correr muito, tem que aceitar essa maneira de jogar
BRAITHWAITE, SOBRE O TRABALHO DE GUSTAVO QUINTEROS
Como está a adaptação ao trabalho do Mano Menezes?
Como o Mano teve oito meses, também tivemos quatro jogos que não foram muito bons com o Mano. E analisamos com o Gustavo, e isso é muito difícil, mas foi o momento para o clube de trocar treinador. Ok, isso faz parte, mas temos que dar mais tempo, quando estamos em uma posição para tomar essas decisões, temos que ter mais tranquilidade. A torcida cobrar é muito normal. Temos que ouvir também a torcida, mas as pessoas que estão nessa posição têm que ter muita tranquilidade para lidar com essa pressão. E como estamos no campo, a torcida está nos cobrando também. Quando nós jogamos bem, e temos que assumir essa responsabilidade, mas também temos que ter a confiança que somos boas pessoas para seguir melhorando o time. Então, o Mano veio para melhorar a defesa. Estávamos tomando muitos gols, então não era segredo, era para não tomar gols. É uma maneira de jogar, mas tem muitas maneiras para jogar futebol, não tem uma ruim, uma boa. Depende do treinador e da torcida, o que eles querem. Mas, sim, a intenção do Mano era fechar atrás, é sua maneira de jogar.
E para quem é centroavante, isso dificulta?
Não, nunca vou vir com desculpas. Não é a minha maneira. Como centroavantes, estamos aí para fazer gols. Há maneiras de jogar onde vamos ter quatro chances de fazer gols. E há jogos que vamos ter meia chance para fazer gol. Então isso é algo diferente, mas nosso trabalho é fazer gols em qualquer maneira de jogar.
Agradeço muito ao Mano pelo seu trabalho aqui, porque foi muito bom
BRAITHWAITE
E como você enxerga a saída de Mano, com pouco tempo de preparação para o início dos jogos em 2026?
Os jogadores estavam adaptados a maneira de jogar com o Mano. Mas a decisão não é minha. É do novo presidente, e vamos apoiá-lo em suas ideias. É muito importante que todos o apoiem e pensem no futuro. Agradeço muito ao Mano pelo seu trabalho aqui, porque foi muito bom. É uma pessoa muito legal e fez um trabalho muito, muito bom no dia a dia. E agora temos que pensar no futuro, novas ideias e vamos ver quem será o treinador.
Como os jogadores acompanham esse período de mudanças no clube?
É importante que se organize isso rápido e da melhor forma. Assim podemos pensar em frente. Para os jogadores agora é muito importante descansar mentalmente, teremos uma temporada importante. Sempre é, mas quando temos o momento para descansar, realmente precisamos descansar.
Como é que faz para se recuperar de lesão, focar em 2026, mas também aproveitar as férias?
A maneira de aproveitar as férias para mim, tive que falar com a minha esposa, pode ser que ela esteja brava comigo, porque vamos passar Natal e Réveillon com meu preparador físico e o fisioterapeuta. Eles estarão comigo todos os dias para trabalharmos. Não tenho descanso físico, só vou ver outra coisa, algumas semanas, mas só isso, o trabalho não para, porque essa reabilitação para mim é muito importante, tão importante que não posso descansar.
Você sofreu a lesão em setembro e pouco jogou com os reforços que chegaram na última janela. Como vê a possibilidade de dividir a liderança no vestiário com eles?
São jogadores muito bons, com muita experiência, algo que era necessário. Ajudaram muito. Tenho vontade de jogar com eles, jogar com todos. Acho que temos oportunidade para fazer algo muito importante no ano que vem. Já falei que quero ganhar o Brasileirão. E agora acho que faz 30 anos que não ganhamos aqui. Então é um troféu que quero vencer aqui em Porto Alegre.
Você recebeu algumas sondagens antes da renovação. Sua intenção é permanecer no Grêmio?
Agora só estou pensando em recuperar bem, voltar e jogar. Não estou pensando em outro lugar. Acho que sim, tenho contrato até o final de 2027. Vamos abrir esse restaurante também, queremos desfrutar disso, mas não estou pensando muito nisso. Pode ser que eu fique aqui 10 anos, não sei. Sei que o mundo do futebol é louco, estou contente com a minha vida aqui e quero voltar para ajudar o time o mais rápido possível.
Você tinha contrato até o fim de 2026 antes da renovação. Qual a ideia em ampliar por mais um ano?
Não, era algo muito natural. Muito natural, não estava pensando em ir embora. Estava contente aqui. Sempre há clubes chamando meu representante, mas sempre falei para ele que não queria ouvir nada de fora. Estou contente. É algo muito natural no futebol.
Qual a inspiração para sua dança na comemoração dos gols?
Essa dança vem do meu pai. Ele estava fazendo isso. E Seguimos dançando aqui. Meu pai tem isso da cultura da Jamaica, é parecido com os brasileiros. É a maneira de vida para eles. Em alguns meses, a comemoração já está de volta.





