
No segundo semestre de 2026, chegará ao streaming a história de uma “torcida impossível”. Com as filmagens já iniciadas em Porto Alegre, a minissérie “Coligay” contará o surgimento da organizada do Grêmio que quebrou os paradigmas do futebol nos anos 1970.
No enredo, o personagem fictício “Ramon” fará alusão a Volmar Santos, criador da primeira torcida LGBT+ do Brasil. A minissérie, estrelada por Irandhir Santos, terá quatro episódios de 30 minutos dirigidos por Paulo Machline. Posteriormente, a obra também irá virar filme no ano que vem.
Zero Hora entrevistou Patrícia Corso, roteirista, que além da produção do Canal Brasil, também escreveu a série “João Sem Deus” e “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”, da Netflix e HBO Max, respectivamente.
Corso assina a história, juntamente com Raul Perez, Fernando Américo e Luiz Felipe Noé. A produção, ambientada na Capital e com gravações no antigo Estádio Olímpico, é também do Ventre Studio, +Galeria e da Casa de Cinema de Porto Alegre.
Confira a entrevista com Patrícia Corso:
Como surgiu a ideia de transformar a história da Coligay em uma minissérie e, futuramente, em um filme? Você poderia comentar sobre a colaboração com Raul Perez, Fernando Américo e Luiz Filipe Noé, os outros roteiristas, e com o diretor Paulo Machline? Como foi esse trabalho em equipe?
O projeto chegou a mim através do Fernando Américo, um dos nossos roteiristas, que tinha lido o livro Coligay: Tricolor de Todas as Cores, de Léo Gerchmann.
O Fernando, apaixonado por futebol, se encantou com essa história muito brasileira, que envolve você ir contra o status quo de uma forma totalmente irreverente, engraçada. Mas na verdade você está no fundo indo contra o sistema de alguma forma.
Aí ele levou a história do livro para o Juliano do Ventre e o estúdio me chamou para olhar esse livro, porque a publicação não tinha uma história narrativa e sim um desenho jornalístico. O Fernando Américo teve acesso a esse livro, leu, identificou que ele tinha a semente de uma história super interessante.
A minissérie baseada em eventos reais aborda temas como resistência, identidade e paixão pelo futebol. Quais foram os principais desafios na pesquisa e no desenvolvimento do roteiro, considerando o contexto histórico da ditadura militar?
Caramba, como é que teve uma torcida organizada gay no meio da ditadura no fim dos anos 70? O Ventre me chamou para fazer a dramaturgia nessa história e a gente sabia que ela ia ser inspirada em eventos reais, mas a gente ia criar personagens realmente fictícios para poder primeiro contar mais coisas, porque a gente consegue com a ficção juntar vários personagens e juntar vários eventos em um.
Caramba, como é que teve uma torcida organizada gay no meio da ditadura no fim dos anos 70?
PATRÍCIA CORSO
Roteirista da minissérie "Coligay"
Tenho contado muitas histórias brasileiras inspiradas em eventos reais que eu acho que são relevantes e que embora sejam no passado elas têm muito a dizer no hoje. Eu acho que a Coligay é um exemplo, com eventos reais do passado, mas que a gente sabe que ainda precisam ser contadas.
A história é baseada no que Volmar Santos, criador da Coligay, viveu?
Desde o começo, na minha concepção, essa história tinha que ter o protagonista chamado “Ramon”, um homem gay, inspirado no personagem do Volmar, que foi o criador da Coligay. Não é a história dele, mas totalmente inspirado. Eu trouxe o Raul Perez, que é um roteirista gay da comunidade, muito talentoso e também apaixonado por futebol. Pois eu julgava que isso era fundamental para a gente ter esse olhar.
A minissérie se passa nos anos 1970. Quais cuidados foram tomados para recriar fielmente a época, tanto visualmente quanto culturalmente?
Acho que o maior desafio inicial era como fazer uma narrativa leve, porque o briefing era que fosse uma minissérie leve, uma minissérie para toda a família. Não era para virar uma coisa violenta, dramática e o episódio real teve coisas violentas dramáticas, que a gente traz por exemplo.
A torcida foi atacada, então a gente tinha eventos, coisas muito dramáticas que poderiam ir para um lado muito pesado e a gente tinha esse desafio. Como a gente pode manter esse tom alegre? Até porque a gente quer manter a torcida. Era sobre alegria, era sobre esse bom humor, esse deboche.
Eu acho que para contrabalancear a ditadura, que aparece na série como uma sombra e a gente não vai se aprofundar nisso.
Mas como a nossa história é focada ali na boate, onde nasce a Coligay, então acho que o maior desafio era como contar uma história que tem preconceito, que tem violência, que tem repressão, que tem ditadura contra uma comunidade que já sofria e sofre por tudo isso até hoje, sem ir para um lado pesado, para um dramalhão que você fala “ah não quero ver uma coisa pesada!” Pelo contrário. A resposta para isso foi focando no amor, na família, nas relações amorosas, nas relações de amizade que surgem em tempos difíceis.
As falas utilizadas na minissérie serão com o sotaque gaúcho?
A Casa de Cinema de Porto Alegre tá com a gente, né? Houve toda uma leitura do roteiro depois pra colocar no sotaque correto pra gente. Além de todos os atores, tá sendo filmado em Porto Alegre. Só o Irandir não é um ator do Sul.
A gente teve essa preocupação também de que a equipe fosse local, sabe? Essa coisa do gaúcho foi uma preocupação, eu tenho muitos amigos gaúchos. Ficava perguntando pra eles como é que fala tal coisa. A gente tinha muito essa preocupação e por isso desde o começo o Ventre queria filmar lá (em Porto Alegre). Foi um desafio, porque depois de tudo que o Estado, a cidade passou, das enchentes, se tornou mais caro filmar aí, mais complexo. E pra gente foi uma alegria muito grande poder fazer aí.
O Irandhir Santos é conhecido por mergulhar nos personagens. Como foi a escolha?
Eu não tive contato com ele ainda, mas era um sonho pra gente desde o começo. A gente queria que fosse um ator da comunidade LGBTQIAP+. Desde o início o escolhido era ele. Era um sonho, eu diria. Um sonho porque a gente, quando tá fazendo, não sabe se o ator vai poder, mas eu diria que ele era a nossa opção dos sonhos.
Desde o início o escolhido era ele. Era um sonho, eu diria.
PATRÍCIA CORSO
Sobre a escolha de Irandhir Santos
A gente achava que seria assim “nossa, se fosse alguém como o Irandir”, porque é um grande ator. O personagem do nosso protagonista é um personagem gay, muito fora do estereótipo. A gente sempre busca fugir dos estereótipos, dos clichês que não precisamos reforçar e a gente sabia que o personagem tinha essa força, que um homem gay daquela época que era super assumido, mas ao mesmo tempo tava preso em conceitos daquela época. Tinha seus preconceitos, tinha uma maneira de lidar muito assertiva, muito forte. A gente achava que o Irandir tinha essa força necessária.
Como foi reação do Irandhir ao ler o roteiro?
Eu soube que quando ele leu o roteiro que ele gostou muito do personagem. Eu imagino que o personagem surpreende porque ele não cai num estereótipo do que a gente geralmente, infelizmente, muitas vezes já viu os homens gays sendo representados. Ou é muitas vezes uma forma do humor, ou é ou é o amigo gay. O “Ramon” que a gente criou é inspirado no Volmar, um cara que ele é muito gay sim, ele é muito engraçado sim, mas ele também briga, ele também vai pra cima, ele é um cara muito altivo. Então, acho que encantou o Irandhir é história, muito única e um personagem bem original também na nossa dramaturgia.

E como que os atores gaúchos receberam o roteiro?
Estavam me falando que na leitura os atores conheciam a história e viveram. Se não era um ator era um pai, um avô, todo mundo já ouviu falar e isso é muito importante. Toda vez que eu pego uma história real eu me sinto com uma responsabilidade muito grande para além do que estou contando.
Tem que ser divertida, tem uma responsabilidade, pois aquelas pessoas viveram aquilo. Mas eu acho que essa parte de parceria com a Casa de Cinema é fundamental para trazer o clima muito realista que a gente queria dar. Eu acabei de ver umas fotos e está muito lindo a produção, está impressionante e muito legal ser lá porque eu acho que isso muda muita coisa além.
Durante o processo de escrita da minissérie, teve alguma cena ou momento que te emocionou particularmente? Algo que te fez parar e pensar: “Isso precisa ser contado”?
Acho que em vários momentos. Por exemplo, essa história de quando eles são atacados, que é uma história que você vê eles contando em entrevista. A própria forma que você vê o Volmar, pessoas da época contando, isso já me emociona. Caramba, eles estavam indo ali torcer e tendo essa coragem e sendo atacados e mesmo assim voltando.
Eles poderiam desistir, poderiam falar “gente, é só um futebol, é só um jogo”. Fico até emocionada só de falar. A comunidade LGBTQIAP+ passa por questões de rejeição, o preconceito que eu falei e essa época da ditadura, essa época da repressão passa por você ter medo, por você temer algumas coisas e isso também está na série.
Eles estavam indo ali torcer e tendo essa coragem e sendo atacados e mesmo assim voltando.
PATRÍCIA CORSO
Sobre o processo de escrita do roteiro
Na sua visão, qual é a importância de contar a história da Coligay hoje, quase 50 anos depois da sua fundação e como a minissérie busca dialogar com o público LGBT+ atual e com torcedores de futebol em geral?
Eu acho que um dos motivos que eu me animei com esse projeto é o problema. Porque desde o começo a gente vê que infelizmente o preconceito é uma coisa que não evolui. Infelizmente, o preconceito ainda existe, então é preciso falar dele. Eu espero que não sempre.
É muito importante falar sobre o preconceito e o efeito devastador de você não ser acolhido em quem você é
PATRÍCIA CORSO
Roteirista da minissérie "Coligay"
A gente sabe que o mundo mudou. Obviamente tem muito mais espaço, aceitação, mas ele ainda existe e questões de rejeição familiar por causa da sexualidade ainda há também. É muito importante falar sobre o preconceito e o efeito devastador de você não ser acolhido em quem você é. Eu acho que vai interessar aos torcedores porque ao mesmo tempo o recorte do nascimento da Coligay, é um recorte futebolisticamente muito bom, porque a gente começa quando o Grêmio está muito mal e depois que a Coligay entra o Grêmio entra numa fase maravilhosa que vai levar o Grêmio a ser campeão mundial lá na frente.
Então, pra gente eu acho que pro torcedor tem um arco de superação de vitória, de alegria, que vai crescendo, que é do time, é da torcida, mas é dos personagens também deles irem superando esses obstáculos pra poder ser felizes.
Infelizmente, o preconceito ainda existe, então é preciso falar dele. Eu espero que não sempre.
PATRÍCIA CORSO
Roteirista da minissérie "Coligay"
O que você espera que o público sinta ou reflita ao assistir à minissérie e depois ao filme? Há alguma mensagem central que você gostaria que ficasse?
A Coligay é uma história sobre pessoas querendo ter o direito de serem felizes. Ter o direito a você celebrar e todo mundo tem que ter direito a ser feliz. Todo mundo tem que ter direito a festejar. Eu acho que todo mundo tem que ter o mesmo direito, não pode ser exclusividade de um time, não pode ser exclusividade de uma sexualidade. Eu acho que nessa época não era assim. A própria ditadura era um cerceamento de cada um. Todo mundo tem direito a celebrar como quiser. A Coligay é sobre celebração. A Coligay foi uma torcida impossível.
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