Francis Amuzu tinha apenas dois anos quando se mudou de Accra, capital de Gana, para a Bélgica, país onde se tornou jogador de futebol e atuou por 10 anos no gigante Anderlecht. Apesar disso, porém, o atacante do Grêmio se identifica mais com o país onde nasceu.
— Para mim, eu sou ganês. O meu coração está em Gana — contou o atleta de 26 anos, em entrevista exclusiva concedida a Zero Hora nesta segunda (13), no CT Luiz Carvalho.
A mudança para a Bélgica, ainda na infância, ocorreu por conta do futebol. No fim dos anos 90, ao lado da mãe da irmã, Francis acompanhou o pai, o ex-meia Theophilus Amuzu, que havia trocado o ganês Heart of Oak pelo Standard de Liége.
Inspirado no pai, Francis deu os primeiros passos no futebol na capital, Bruxelas. Aos 16 anos, ingressou na base do gigante Anderlecht, clube pelo qual se tornou profissional e onde foi treinado, entre 2020 e 2022 pelo lendário ex-zagueiro Vincent Kompany, hoje técnico do Bayern de Munique.
— O Kompany foi um treinador maravilhoso para mim. Foi com ele que tive a melhor temporada da minha carreira. Ele me ensinou muita coisa. Me ensinou a fazer mais movimentos sem a bola e a buscar fazer os gols fáceis, não só os gols bonitos — relembra.
Mesmo com o histórico de defensor, o ex-zagueiro do Manchester City ajudou Amuzu a ser mais goleador.
— Futebol é muito sobre estatísticas e gols. O Kompany me ensinou que, se você está no lugar certo, pode marcar dez gols fáceis e talvez só dois ou gols três bonitos. Ele me ensinou, por exemplo, a ficar no segundo poste e empurrar a bola para dentro. Esses são os gols mais fáceis do futebol. Então aprendi a estar sempre bem-posicionado para marcar os gols mais fáceis — resume o ganês.
No Anderlecht, porém, Amuzu era mais que um atacante. Carismático, o jovem atacante era o responsável pela trilha sonora do vestiário.
Foi com ele que tive a melhor temporada da minha carreira. Ele me ensinou muita coisa.
AMUZU
sobre seu ex-técnico no Anderlecht, o ex-zagueiro Kompany, ídolo do Manchester City
— Sim, eu era o DJ do vestiário. Sou um cara meio “old school”, então tocava músicas um pouco antigas, tipo Akon, Michael Jackson, Chris Brown, músicas das antigas mesmo — relembra.
No Grêmio, onde ainda tenta aprender o português, Amuzu não assumiu esse papel. Pelo menos até agora.
— Acho que meus companheiros nem sabem disso. Aqui no Grêmio eu não sou o DJ do vestiário — diz.
Adaptação
No Tricolor desde fevereiro, Amuzu conta com ajuda profissional para ajudar na adaptação ao Brasil e mantém consultas online e regulares com um “coach mental”, que mora na Holanda.
— Acho isso muito importante e necessário no futebol. Às vezes você não joga e não entende o motivo. Aí a cabeça pesa, então você tem que conversar com alguém de fora do clube — afirma.
Outro hábito de Amuzu é a prática dos rituais islâmicos. Diariamente, o atacante procura uma sala vazia no CT Luiz Carvalho e na Arena para rezar virado para a Meca, cidade na Arábia Saudita considerada sagrada pelos muçulmanos.
— Sim, eu procuro sempre fazer a minha reza, sempre consigo rezar. Quando tem jogo, rezo depois da partida. Para mim é muito importante a fé. Se você reza e pede por coisas, Deus te dá. Se você pede perdão, Ele te perdoa. Para mim, é muito importante ter Deus perto de mim, porque Deus é uma grande coisa na minha vida — explica.
Entre 28 de fevereiro e 30 de março, em meio à disputa do Gauchão, Amuzu intensificou seus rituais, como o jejum à luz do dia, rezas adicionais e a leitura do Alcorão. Afinal, era o período do Ramadã, o mês sagrado para os muçulmanos.
Em Porto Alegre, Amuzu leva uma vida basicamente familiar. Quando não está no CT Luiz Carvalho, na Arena ou em viagens com a delegação gremista, normalmente faz programas com a esposa Nora, 26 anos, e a filha Amara, que completará dois anos em novembro.
— Gosto de passar muito tempo com a minha família. Isso é o mais importante, porque nós, jogadores, não temos tanto tempo com a família. Então tento aproveitar com eles. Sair para comer algo, brincar com minha filha. Para mim, isso é muito importante. Sou muito ligado à família, gosto de estar com eles — destaca.
Família vai aumentar
A família aguarda inclusive, para 2026, a chegada do segundo filho.
— Espero que seja um menino, mas também ficarei feliz se for uma menina. Mas vai nascer aqui (em Porto Alegre) com certeza — declara.
Apesar de adaptado, Amuzu ainda tenta assimilar o idioma. O atleta pronuncia poucas palavras em português, mas garante que já entende bastante o que os companheiros falam no vestiário.
— O idioma foi o mais difícil para eu me adaptar. O português é uma língua muito difícil, mas agora eu entendo o que os jogadores falam. Falar é que é difícil. Só falo algumas coisas dentro de campo, como “saiu”, “direita” e “esquerda” — revela.
Gosto de passar muito tempo com a minha família. Isso é o mais importante, porque nós, jogadores, não temos tanto tempo com a família. Então tento aproveitar com eles.
AMUZU,
sobre como gosta de aproveitar seu tempo livre em Porto Alegre
Segundo Amuzu, um quadro tático o ajuda a entender as instruções do técnico Mano Menezes.
— A linguagem do futebol é uma só — resume.
Auxílio com o idioma
Além disso, Marlon, Braithwaite, Camilo, Willian e Carlos Vinícius, que dominam o inglês, são os que mais o ajudam a traduzir tanto os aspectos do jogo como as resenhas do grupo.
O ganês inclusive já consegue entender as brincadeiras do grupo.
— Os brasileiros são todos muito gentis. Todos querem te ajudar, e eu adoro isso. Os caras mais engraçados do vestiário são o Dodi e o Edenílson, sempre estou rindo com eles — conta.
Ao contrário do idioma, a alimentação em Porto Alegre não é um problema para Amuzu. Apesar de não ter gostado do chimarrão, o prato preferido do ganês é bem característico do Brasil.
— Eu adoro arroz com feijão. Em Gana, temos um prato bem parecido com arroz e feijão. Então, eu gosto muito — explica.
Afinal, Gana segue no coração de Amuzu. Apesar de só ter vivido dois anos lá, é o país onde nasceu. E pelo qual sonha jogar uma Copa do Mundo.
— O meu coração está com Gana. Então, se Gana me convocar, com certeza eu vou. Espero que me chamem. Mas agora meu foco está aqui no Grêmio — finaliza.

