
Está 3 a 0, e agora?
Passadas as polêmicas do primeiro clássico, e chegado o momento do segundo Gre-Nal da final do Gauchão, o momento é de entender os cenários para a partida de volta. O placar da Arena condiciona a decisão para os dois times. De um lado, o Inter e a missão de aplicar uma goleada histórica. Do outro, o Grêmio e a tarefa de administrar a vantagem. Como achar motivação em um time que está perdendo por tanta diferença? Como não perder a concentração de uma equipe que pode levar até dois gols que será campeã?
Mas antes de falar sobre o comportamento, é preciso comentar sobre o Gre-Nal em si. Não é à toa que se dá número ao jogo, que ele eventualmente ganha apelido. O clássico transcende a final, o Gauchão. É uma espécie de disputa entre o bem e o mal na visão de cada torcedor.
— Não é à toa que os clubes se chamam de coirmão. Em uma leitura um pouco mais psicológica, seria como dois irmãos disputando atenção, reconhecimento e validação. Então, para que um se sinta um pouco maior, precisa diminuir o outro. E quando um está por cima, o outro não sente só essa derrota no futebol, ele sente uma ameaça à própria identidade dele, isso mexe muito com o comportamento — explica Pedro Sá, psicólogo especializado em esporte de alto rendimento.
Cenário da decisão
É a partir daí que se começa a análise do cenário da decisão. O 3 a 0 da partida de ida praticamente inviabiliza qualquer tipo de normalidade no jogo da volta. O Gre-Nal do Beira-Rio está totalmente condicionado ao que ocorreu na Arena uma semana atrás.
Do lado colorado, isso significará trabalhar a frustração. Para o psicólogo, o Inter terá de administrar o mau resultado sem exagerar na dificuldade da tarefa a ser realizada diante de sua torcida:
— O Inter traz esse sentimento de injustiça do primeiro jogo, que o time reclama. E aí abre-se dois caminhos. Podemos enxergar o Inter trabalhando isso como uma forma de caos, uma revolta desorganizada que vai gerar um descontrole em campo e pode causar aquele clássico que a gente conhece, mais violento, truncado, e que inclusive não é favorável para aquele que está perdendo.
Pedro Sá indica outro caminho:
— Ele terá de transformar esse sentimento em uma energia competitiva, em força mental para que vá além do 100%. Mas também para que o Inter consiga subir essa montanha, subir esse placar, é importante que ele não enxergue uma montanha. O jogador não vai se motivar se enxergar essa baita desvantagem, não vai achar que vai conseguir reverter. A melhor forma de trabalhar isso internamente é quebrar em etapas, mentalizar o primeiro gol, e com ele jogar a gangorra da pressão para o outro lado.
O que diz Bolívar
Bicampeão da Libertadores, presente na virada que resultou no título gaúcho de 2011, Bolívar entende que o time precisará ter uma postura agressiva. Ele disse à RBS TV:
— O time precisa saber que tem de atacar, mas com resguardo. O Grêmio é reativo, espera para sair em velocidade em contra-ataque. O Inter tem um poder ofensivo muito forte, mostrou isso no primeiro Gre-Nal, no Beira-Rio, em que fez quatro gols. Mas levou dois. Então precisa ter atenção no sistema defensivo.
Do lado do Grêmio, o trabalho psicológico é outro. O desafio é manter o nível de concentração bem alto para impedir um relaxamento.
— O maior risco, na minha visão, não é o Inter. Claro, é futebol, o adversário é esse, mas me refiro à situação. A vantagem é muito grande, mas se o Grêmio entender que essa ameaça diminuiu, ele vai naturalmente abaixar o nível de ativação dele, vai economizar energia. A postura ideal é imaginar que está 0 a 0 — aponta Sá.
Ele traz dois pontos de vista interessantes sobre o resultado da ida. A conversa pode ser diferente por parte de torcedores e atletas.
— Internamente, o Grêmio ficaria satisfeito perdendo de 2 a 0 na casa do rival mesmo sendo campeão? Todo torcedor provavelmente diria que sim, já que seria campeão. Mas para que os atletas entrem com a mentalidade certa, é importante que essa resposta seja não, entende? Claro, existe também o medo de tomar 4 a 0 no Gre-Nal, o medo do fiasco, vamos dizer assim. Mas eu tenho certeza que se o Grêmio entrar com essa mentalidade de 0 a 0, de que precisa pensar esse jogo como único, vai evitar esse salto alto e também esse medo do fiasco.
O que diz Edilson
Edilson, que estava no Beira-Rio e no Olímpico em 2010, quando o Grêmio construiu a vantagem da final do Gauchão na partida de ida e administrou na volta, indica.
— Toda decisão, além de ser jogada com técnica e tática, precisa ter atenção ao lado mental. A concentração é 50% do resultado. Se o Grêmio tiver a mesma concentração do primeiro clássico, se não achar que está ganho, mas saber que tem essa vantagem, sim, vai conseguir. Precisa explorar as deficiências do Inter, que vai ter de sair para o jogo e deixar espaços. Precisa aproveitar isso também.
Entre subir a montanha e evitar o relaxamento, o clássico, como sempre, vai ser decidido pela forma mais Gre-Nal possível. Nas palavras de Pedro Sá:
— O Gre-Nal sempre vai ser sobre quem consegue gerir melhor as emoções.




