
No primeiro jogo da final do Gauchão 2026, o Grêmio fez 3 a 0 no Inter no Gre-Nal 450, na Arena. A vantagem construída em casa traz otimismo aos tricolores, mas não garante tranquilidade. Aos colorados, a esperança precisa estar mantida.
Neste domingo (8), às 18h, a Dupla volta a se encontrar, desta vez no Beira-Rio, no jogo de volta que decide o Estadual. O cenário é simples e dramático ao mesmo tempo: o Grêmio pode até perder por dois gols de diferença para levantar a taça na casa do rival.
Já o Inter precisa de uma virada histórica diante da própria torcida: goleada por quatro ou mais gols garante o bi. Se devolver os três gols de diferença leva aos pênaltis.
É neste clima de decisão que o Rio Grande do Sul respira diferente e que velhos rituais ganham mais importância.
O sofá e a camisa 10

As histórias que permeiam o Gre-Nal passam de geração em geração como receita de família — com segredos e manias particulares. O clássico não é só um jogo: é quase um teste de caráter.
Antes mesmo de aprender a tabuada, muitas crianças já sabem alentar. E junto com o amor pelo time vêm as superstições: a camiseta da sorte, o lugar fixo no sofá, o copo "oficial" do jogo decisivo. Pra quê mudar se pode dar azar?
Renato Piva, aposentado de 78 anos, é colorado criado em berço vermelho e conhece bem esse "manual não escrito" do clássico.
Quando surgiu a chance de vestir a camisa do maior rival, descobriu que algumas cláusulas não estão no contrato, mas na mesa de casa. Antes de qualquer decisão, resolveu conversar com o pai, Hermenegildo Piva.
A resposta veio, sem rodeios:
— Cheguei em casa para contar (para o meu pai), e ele só me disse: "Se tu jogar no Grêmio, perde o pai" — contou.
A fala de Hermenegildo traduz, com o bom humor e a dramaticidade típicos do clássico, o peso simbólico de uma decisão como essa.

Hoje, Renato assiste a todos os jogos do Inter da mesma maneira: no sofá, com sua camiseta vermelha número 10 — presente de sua irmã — acompanhado de um amigo, o Seu Geraldo, também aposentado e colorado fanático, que é quase um amuleto da sorte.
Para este jogo decisivo, o ritual já está definido. Pela manhã, Renato pretende vestir a camiseta preta e verde — parte da rotina que acredita trazer sorte. Quando a bola rolar, porém, a escolha muda: entra em campo a já consagrada camiseta da sorte.
Desta vez, o clássico também terá mais uma companhia. Um amigo se junta a ele — e ao seu Geraldo — para acompanhar a partida, adicionando mais um elemento ao pequeno universo de rituais que muitos torcedores montam em dias de Gre-Nal.
Superstição na planilha

Mas se tem quem leve a rivalidade para o campo profissional, há também quem transforme superstição em projeto quase científico.
Arthur Carvalho Vieira, 24 anos, jornalista e gremista prevenido contra qualquer possibilidade de "zicar" o próprio time, resolveu parar de confiar apenas na intuição. Se era para ter ritual, que fosse com método. Decidiu catalogar tudo: camiseta usada, local da partida e o jeito de assistir.
O que começou como costume e cuidado virou planilha. Hoje, cerca de 40 camisetas do Grêmio fazem parte do levantamento pessoal, cada uma com seu respectivo aproveitamento. Sala ou quarto? Sofá ou cadeira? Sozinho ou acompanhado? Tudo entra na estatística.
— Eu sempre fui de acreditar nessas coisas: que tem de usar uma camiseta porque ela é boa, que tal camiseta é "zicada", que ver jogo em tal lugar ajuda ou prejudica. Até que um dia eu quis tirar a prova disso e comecei a tabelar todos os jogos. Hoje devo ter umas 40 camisetas do Grêmio, e cada uma tem o aproveitamento registrado. O jeito e o lugar onde assisto também entram na conta — revela.
Arthur também leva ao pé da letra o que dizem os cantos gremistas sobre estar junto “onde o Grêmio estiver”. Já atravessou fronteiras para cumprir o ritual, inclusive na Argentina.

Na fase de grupos da Libertadores de 2024, ele estava lá no estádio Jorge Luis Hirsch, em La Plata, para registrar mais um dado: Estudiantes 0x1 Grêmio. Além da vitória, ganhou também mais um argumento estatístico para defender suas superstições.
Para o jogo decisivo, Arthur ainda não bateu o martelo sobre qual será a camiseta escolhida. A decisão costuma vir mais pelo "sentimento" do que por cálculo: pode ser uma que ele veja por acaso na rua, uma que venha à cabeça durante a semana ou simplesmente aquela que parecer a certa no dia. Em outras palavras, ele espera por um sinal.
Desta vez, porém, há um fator que já está definido: Arthur estará trabalhando durante a partida. E, curiosamente, isso não é necessariamente um problema. Na planilha pessoal, assistir aos jogos enquanto trabalha rende um aproveitamento de 61%. A única derrota nesse cenário foi justamente em um Gre-Nal — o 4 a 2 do início do ano.
Entre números, rituais e pressentimentos, Arthur segue fazendo o que muitos torcedores fazem: tentando, de alguma forma, dar uma ajudinha para o próprio time. Nem que seja escolhendo a camiseta certa antes da bola rolar.
*Com orientação e supervisão de Leonardo Sá e Felipe Bortolanza

