
Na África, aprender uma nova língua é mais complicado do que fugir de um leão na savana. Tairone não precisou fitar os olhos de um felino, mas, por vontade própria, encarou um microfone após a conquista do título nacional pelo Simba.
O zagueiro do Inter-SM, que atuou na Tanzânia em 2020, mostrou habilidade para se desenredar das diferenças culturais entre o Brasil e o país africano. Ficou tão confiante a ponto de se arriscar a dar entrevista em suaíli. Com a empolgação de um campeão, falou sobre o feito.
— Eu achei que meu suaíli estava bem desenvolvido e fui dar uma entrevista para a TV local. Acabei virando meme no país, porque eu errei muito. Então, eu costumo brincar com as pessoas: me senti confiante, mas na hora travou. Foi bem difícil.
Junto com a taça, voltaram para o Rio Grande do Sul um punhado de histórias. Apesar dos entraves linguísticos, outras cenas o marcaram ainda mais no leste africano. Os costumes religiosos causaram o maior choque.
Cada vez que a delegação do Simba desembarcava em outra cidade, Tairone vivia um rito de recepção. O grupo de jogadores era presenteado com um animal para sacrifício. Em geral, o ritual se realizava com uma ovelha.
O defensor admite sua ingenuidade ao passar por uma das primeiras experiências do tipo. Foi antes do clássico contra o Young Africans, o popular Yanga.
— Eu acordei para o café da manhã e tinham os cabritos ali. Na hora, fui ingênuo. Achei que ia ter uma carne assada. Aquilo me marcou porque realmente teve um sacrifício para o jogo. Foi uma cena forte, uma experiência difícil para mim nesse quesito.
Não precisou entender o suaíli para resolver o dilema. Ou se afastava e era indelicado com a cultura local ou ficava e vencia a briga com a repulsa causada pela cena. Optou pela segunda alternativa.
— Para eles, se tu não aceitas, acham que tu vais contra os valores ali. Não era o que eu queria passar, só não queria fazer parte daquilo. Comecei a sofrer alguns preconceitos por causa de algo espiritual. Depois entenderam os meus princípios, os meus valores, que eram diferentes dos deles.

Nem tudo foram agruras nos duelos contra os Yangas. A sensação de disputar o clássico está entre as principais experiências de Tairone na Tanzânia. Ele contará para filhos e netos que um país inteiro parou para vê-lo jogar.
É dia sagrado em Dar es Salaam, a maior cidade da região. É nesses jogos longe de casa que se entende que não é apenas futebol.
— Quando tem clássico é feriado. Feriado nacional. O país para quando tem o clássico. O país vive o clássico. O africano entende a importância do futebol porque se torna o maior instrumento de alegria para eles. É algo incrível.

A imagem mais difundida do continente africano é de um território árido, selvagem. Mas entre Ras ben Sakka, no norte da Tunísia, e o Cabo das Agulhas, no sul da África do Sul, se espalha uma vasta biodiversidade. Na Tanzânia, além da savana que permeia o imaginário popular, há o Monte Kilimanjaro com seu topo nevado e as paradisíacas praias de Zanzibar, ilha onde nasceu o cantor Freddie Mercury.
— Conheçam a Tanzânia. Eu puxo muito para o lado de Zanzibar. Tu podes ir aéreo, tu podes ir rasteiro. O rasteiro é o que eu mais recomendo porque o caminho passa dentro de um safari. Que é maravilhoso. E quando tu vê uma girafa, vê praticamente todos os animais. Como ela é o maior animal e vê o perigo primeiro. Então os animais ficam em volta das girafas. Fui abençoado em conseguir ver várias girafas.
Ao refletir sobre os seus dias na Tanzânia, Tairone captou uma nova dimensão da vida de atleta. O futebol virou um campo para viver um novo mundo.





