
A série Planeta Gauchão conta histórias de jogadores e ex-jogadores do Estadual que atuaram em países fora da rota tradicional do futebol. No episódio de hoje, confira as vivências e os perrengues enfrentados por Maicon Santana, ex-centroavante e atual dirigente do Monsoon.
Nem toda a cautela do mundo, de deixar esposa e filha no Brasil, preparou Maicon Santana para a chegada ao Líbano, para jogar no Al Ahed FC. Na época centroavante, quase tomou o avião de volta antes de entrar no país.
Era 2015. O país vivia um período hostil. Maicon viajou acompanhado de outro jogador. Vaidoso, o colega levou na bagagem um creme capilar muito comum por aqui, mas suspeito aos olhos dos agentes de imigração. A dupla foi levada àquelas famosas salinhas para dar explicações. Lá se foram uma, duas, três horas de respostas insatisfatórias.
— Eles fizeram interrogatório. Perguntaram tudo o que tu possa imaginar. De onde éramos, o que estávamos fazendo no país, como chegamos lá, se tinha alguém nos esperando. Eles olharam para o creme como se fosse uma substância diferente. Foi tenso.
Tenso é o adjetivo mais apropriado para descrever aqueles meses de 2015 vividos pelo diretor do Monsoon. O caso com o creme não foi a única situação desconfortável vivida ainda no aeroporto.
Cristão em um país muçulmano, Maicon sabia que o aspecto religioso poderia se transformar em um entrave. Estava fora do seu pensamento acontecer logo que descesse do avião.
Eles fizeram interrogatório. Eles olharam para o creme como se fosse uma substância diferente. Foi tenso.
MAICON SANTANA
Dirigente do Monsoon
— Quando revistaram a minha mala, encontraram minha Bíblia. O guarda perguntou o que era, me olhou e pensei “Caramba, agora vai dar problema”. Ele pegou e jogou ela em um canto da mala. No dia a dia não tive problemas maiores — conta.
Mesmo para uma região de eternos conflitos, aquele período teve um estresse elevado no Líbano. A vizinha Síria vivia uma guerra civil. Beirute foi palco de dois atentados, um antes e outro depois da estadia de Maicon.
Sem liberdade para sair

Para os libaneses, o estado era de alerta máximo. Para os estrangeiros, significava a angústia de ser vigiado o tempo todo. Militares em cada esquina. A quem vinha de fora não se permitia deslizes. Sequer havia liberdade plena.
— Ficávamos preocupados. Evitamos sair. O exército era muito presente nas ruas. Nunca tinha presenciado isso. Eram muito rigorosos. Nunca saí sozinho, sempre tinha de ser acompanhado. Me senti travado — admite.
A bola sequer tinha rolado pelo Al Ahed FC. Na hora de suar, a peleia arrepiou até mesmo um centroavante acostumado aos zagueiros do interior gaúcho.
Quando é dia de clássico
Em clássico fora de casa contra o Nejmeh SC, falta para o Al Ahed. A sinalização não agradou os adversários, muito menos a torcida. Então começou a chuva.
— Jogaram muita garrafa de água, mas muita mesmo, na lateral, no nosso banco de reservas.
Acostumado a estes atritos, esperou que o árbitro fosse interromper a partida até o clima acalmar. Ou que o policiamento chegasse para proteger os jogadores. Ledo engano.
— Só me falavam “Fica tranquilo, é assim mesmo. O povo aqui é muito apaixonado por futebol e eles cobram muito. Fica tranquilo lá fora vocês vão ter segurança”. Foi algo que me deixou bastante preocupado — relata.
Terminado o jogo, os dois times se cumprimentaram. A torcida foi para casa como se tivesse assistido a um treino. Clássico? Que clássico?
O exército era muito presente nas ruas. Nunca tinha presenciado isso. Eram muito rigorosos. Nunca saí sozinho
MAICON SANTANA
Dirigente do Monsoon
Uma chuva literal teria vindo bem. Foram meses de temperaturas escaldantes. De fazer cactos pedirem água. A única tempestade foi de terra.
— Veio uma tempestade de areia da Síria. A cidade desapareceu. Como se fosse a nossa neblina. Não conseguia enxergar a dois metros de distância. Durou 15, 20 minutos.
Mais de uma década depois, a tensão permanece, mas com outras cores. Maicon a sente para evitar o rebaixamento do Monsoon.

