
A noite desta quinta-feira (22) será histórica para o futebol gaúcho. A árbitra Andressa Hartmann se tornará a primeira mulher a apitar uma partida da Série A do Gauchão masculino. Ela comandará no duelo entre São José e Monsoon, às 21h30min, no Passo D'Areia, pela quarta rodada.
Natural de São Paulo das Missões, município do Noroeste do Rio Grande do Sul, a profissional de 32 anos estreou no quadro da CBF em 2021. De lá pra cá, atuou como árbitra e quarta árbitra em partidas do futebol feminino e competições de base.
Com experiência como jogadora de futebol e de futsal, e uma carreira em ascensão na arbitragem, ela chega a esse momento como símbolo de quebra de barreiras, reconhecimento profissional e inspiração para novas gerações que sonham em ocupar espaços historicamente negados às mulheres no futebol. Antes de sua estreia com o apito no Gauchão, Andressa Hartmann concedeu entrevista a Zero Hora. Leia abaixo.
Confira a entrevista com Andressa Hartmann

Quando decidiu ser árbitra?
— Sempre tive uma ligação muito forte com o esporte, especialmente com o futebol e o futsal. Com 15 anos, eu saí da casa dos meus pais e fui estudar e jogar bola em Santa Rosa. Tive minhas experiências como atleta profissional, com 16 anos. Fui convocada para a seleção brasileira de futebol feminino sub-17, onde participei de treinamentos na Granja Comary. Depois, com 18 anos, eu tive uma experiência profissional no futsal, onde eu joguei em Santa Catarina, em Jaraguá, no time da Malwee, mas eu acabei indo para Santa Maria, onde cursei na Universidade Federal (UFSM).
— Foi lá (em Santa Maria) que tive meus primeiros contatos com a arbitragem, em um contexto em que o futebol feminino ainda tinha pouca visibilidade. A cidade tem um polo forte de formação de árbitros, por meio da Associação Santamariense de Árbitros de Futebol (ASAF), onde comecei no futebol amador e conheci profissionais como Maíra Mastela Moreira, Rafael Klein e Anderson Daronco, que me motivaram a seguir na arbitragem.
Qual sua trajetória profissional?
— Eu comecei trabalhando no futsal, onde eu fiz o curso da Federação Gaúcha de Futsal em 2014, e depois, motivada e incentivada pelos colegas, eu fiz o curso da Federação Gaúcha de Futebol em 2018. Me formei no curso de árbitros da Federação Gaúcha de Futebol em 2018, e comecei a trabalhar nas competições aqui no Estado em 2019. A minha estreia no Gauchão, como árbitra central, foi em 2021 trabalhando, apitando na Divisão de Acesso. Mesmo ano que entrei para o quadro da CBF. Em 2024, eu apitei já a Série D do Campeonato Brasileiro, assim como ano passado.
Qual foi o jogo mais marcante da tua carreira até agora?
— Até agora, foi um amistoso internacional feminino sub-20 que trabalhei em 2025 entre Brasil e México, onde fui a quarta árbitra.
Como recebeu a notícia de que apitaria um jogo da Série A do Gauchão? É sua estreia no futebol profissional no masculino, certo?
— Eu recebi uma mensagem de uma colega no WhatsApp. Então eu fui assistir a audiência pública de designação dos árbitros, e ouvi meu nome. Foi uma felicidade muito grande. Eu venho trabalhando muito para esse momento. É um trabalho tanto físico, quanto técnico e mental. Muito estudo, muita preparação.
O que significa pra você ser a primeira mulher a apitar a Série A do Gauchão?
— Representa não só uma conquista pessoal, mas também coletiva. A gente não pode esquecer das nossas antecessoras que batalharam muito, quebraram muitas barreiras para que hoje pudéssemos estar mais inseridas no futebol. E não somente como árbitras, mas como árbitras centrais, as árbitras assistentes, as jornalistas, as comentaristas, as técnicas. Então, representa uma confiança depositada em mim muito grande por parte da Comissão Estadual de Árbitros (CEAF). E também é uma responsabilidade muito grande, porque a gente assume um grande compromisso e sabemos a importância de se trabalhar no jogo do Gauchão, um dos principais campeonatos estaduais aí do Brasil.
Como costuma lidar com isso e também com a pressão e as críticas durante um jogo?
— Procuro manter meu controle mental forte durante todas as situações do jogo, para que eu possa me manter concentrada para tomar as melhores decisões.
Como você vem se preparando para São José x Monsoon?
— Eu costumo dizer que a nossa preparação acontece muito antes do jogo, porque a gente se prepara fisicamente todo ano, precisa estar apto nas avaliações físicas, assim como também nas avaliações teóricas. Então a nossa preparação técnica, a nossa preparação física, mental, ela acontece todo ano. Nós também tivemos uma pré-temporada para alinhar critérios, procedimentos, alinhar o nosso trabalho. Mas o momento que sai a designação para o jogo, a gente sabe com quais equipes a gente vai trabalhar. E é o que eu faço, a preparação que eu faço, eu estudo as equipes, eu vejo jogos anteriores das equipes, vejo as súmulas dos jogos anteriores para ver os jogadores que tomaram cartões amarelos ou se teve jogadores expulsos, compartilho com colegas algumas informações, busco algumas informações com colegas que já trabalharam nos jogos para saber como se comportam os jogadores, as comissões técnicas e a partir daí montar um plano de trabalho dentro com a equipe para que a gente possa desempenhar um belo trabalho dentro do campo de jogo.
Onde tu quer chegar na arbitragem?
— Hoje, sem dúvida, esse jogo é um grande marco, uma grande meta atingida na minha trajetória, dentre muitas que eu ainda quero atingir. Quero trabalhar em muitos mais jogos pelo Gauchão, quero me destacar mais de forma nacional e atingir o tão sonhado escudo Fifa para que eu possa representar o meu estado e o meu país em competições internacionais. Mas tudo no seu tempo, passo a passo.
Que conselho daria para meninas que sonham apitar futebol profissional?
— Acreditem naquilo que faz o seu coração pulsar, faz o seu coração bater. As adversidades, as barreiras, os obstáculos, eles vão surgir no caminho, um pouquinho, mas precisamos ser fortes, mostrar a nossa capacidade, o nosso comprometimento, a nossa qualidade, que as oportunidades elas vão surgir. Então é acreditar nos seus sonhos e não desistir nunca.
Que palavra define esse momento da tua carreira?
— A palavra que define é “coragem”.
Produção: Leo Bender




