
A zagueira do Juventude Roberta Cristina Silva da Rosa, 36 anos, tem como nome de guerra Beta. Mas ela gosta de atender por mãe do Théo Roberto, hoje com cinco anos.
É uma das 16 atletas que conciliam a carreira e a maternidade entre as 436 que fizeram parte do Brasileirão Feminino de 2025, personagem da reportagem sobre os desafios de criar um filho em meio ao futebol.
A pandemia passava por um momento complicado naquele setembro de 2020, quando Théo nasceu. Como muitas atividades no mundo inteiro, o futebol feminino havia parado.
Mas para Beta, o período era mais aflitivo do que saber quando os jogos voltariam e como cuidar de sua condição física — com nove meses de uma gravidez descoberta enquanto a bola ainda rolava no Brasileirão.
A história de Beta é uma das contadas no Especial Mães em Campo. Veja a série de reportagens no link abaixo:

Essa descoberta teve uma história curiosa. Ela já havia participado de três jogos do Brasileirão. Em uma semana, estranhou não ficar nunca curada de sintomas de uma virose.
Uma colega, então, sugeriu um teste de gravidez. Beta fez cinco, por não acreditar nos resultados positivos que mostraram os quatro primeiros. Ela e o marido, Bruno, cuja carreira passa longe do futebol (é expeditor em Gravataí, na Região Metropolitana).
Era difícil não saber como seria o amanhã, como sustentaria uma criança de colo pequena, como seria minha rotina sem um trabalho
Jogadora do Grêmio na época, teve apoio e divulgação do clube durante a gravidez. Mas não renovou o vínculo depois do nascimento de Théo. Em meio à pandemia, a incerteza do futuro bateu feio.
— Eu era considerada um modelo de como a maternidade poderia ser conciliada com a carreira. Mas ter ficado sem contrato logo depois deve ter feito muitas atletas me enxergarem como exemplo a não ser seguido. Era difícil não saber como seria o amanhã, como sustentaria uma criança de colo pequena, como seria minha rotina sem um trabalho. Tanto que, naquele momento, resolvi encerrar minha carreira — recorda, as lágrimas escorrendo sobre o rosto, no único momento em que não exibiu o sorrisão característico.

Quando Théo tinha pouco mais de um ano, Karine Balestra (hoje coordenadora do Grêmio e diretora do departamento feminino do Sindicato dos Atletas) convidou-a para treinar pelo time do Sindicato, com as meninas da base. A ideia era agregar uma jogadora de alto nível para dar experiência às gurias.
Com tempo e carona, aceitou. Um dos treinos foi contra o sub-20 do Juventude. Nesse jogo, Beta se destacou. E saiu dali contratada pelo clube da Serra. Com uma condição: moraria em Gravataí, treinaria no Sindicato durante a semana e iria para Caxias do Sul na sexta-feira para os jogos de sábado ou domingo.
Em 2023, com o projeto de elevar o nível da modalidade no Alfredo Jaconi, a zagueira se mudou para a Serra. Mora em um dos apartamentos que servem de alojamento para as atletas. Théo ficou com o pai em Gravataí.
Lá na frente, sei que meu filho vai falar que a mãe jogou, que a mãe dava entrevista e que falou dele. O Théo é meu legado
— Precisei de um período de adaptação. Para mim, né? Para as crianças é mais fácil. Foi difícil me afastar, dividir as atenções com a carreira. Pensei em várias coisas para me convencer: "Essa é minha profissão, é com ela que vou sustentar meu filho. E também de Caxias para Gravataí é pertinho" — sorri.

Apoia da família
O suporte para esse retorno ser menos traumático foi fundamental. Bruno deu todo o apoio. As avós maternas e paternas, as irmãs e as cunhadas se juntaram na criação de Théo. Essa rede de apoio dá segurança para Beta recomendar às colegas de profissão que desejam ser mães:
— Não quero romantizar. É difícil para mãe-atleta. Abdica de muita coisa, inclusive da carreira. Mas não é nada impossível, e cada vez vai ficando menos impossível. A maternidade é indescritível. Vale a pena ter a continuidade da tua existência. Lá na frente, sei que meu filho vai falar que a mãe jogou, que a mãe dava entrevista e que falou dele. O Théo é o meu legado.





