
Jogadora do Juventude, Carla é uma das 16 mães da Série A do Brasileirão Feminino. Aos 33 anos, ela retomou a carreira em 2018, sete temporadas depois de ser mãe.
A gravidez no final da adolescência, aos 19 anos, mudou a carreira da zagueira que fazia parte da seleção sub-20 quando a menstruação atrasou e percebeu que carregava outra vida, Ana Beatriz, a quem a durona defensora se refere como "Princesa".
Na hora em que viu o resultado positivo para gravidez, Carla soube que sua carreira teria um intervalo. Ou até um fim precoce.
A história de Carla é uma das contadas no Especial Mães em Campo. Veja a série de reportagens no link abaixo:
O marido, Luiz Rodrigo, também trabalhava com futebol (hoje é preparador físico do time feminino do Inter). As famílias deram todo o suporte. As vidas, profissionalmente, giraram de acordo com a vida do preparador.
— Sabia que se voltasse a jogar naquele momento, perderia a infância dela, os primeiros passos, as primeiras palavras, a amamentação, que para mim foi uma experiência maravilhosa. Então, resolvi parar com o futebol na época para ser mãe, integralmente mãe — conta.
Carla foi estudar. Cursou Educação Física, virou personal trainer, deu aula em academias. Jogava bola porque gostava, mas sem o compromisso profissional. Seis anos depois de dar à luz, foi convidada por Jorge Barcellos (seu técnico nos tempos de seleção de base) para participar dos Jogos Abertos de Santa Catarina.
Por mais que seja amadora, é uma competição de alto nível. E ali percebeu que poderia retomar a carreira, o que ocorreria no ano seguinte. Isso resultaria em mais sacrifícios. Inclusive o pior de todos, o de ficar longe da filha. Bem longe. Um oceano longe.
A família vivia em Portugal em 2021. Carla estava lá como esposa de Luiz Rodrigo, então preparador físico do time feminino do Famalicão. Até que apareceu uma proposta para jogar em um time da Série B portuguesa.

O calendário do Gil Vicente, seu novo clube, casava perfeitamente com o do Famalicão: quando um viajava, o outro ficava em casa com Ana Beatriz, então com 10 anos.
Por um período, essa rotina funcionou. Só que Luiz Rodrigo recebeu uma proposta irrecusável do Fluminense. Ele voltaria ao Brasil. Como conciliar essa mudança e a criança?
Sabia que se voltasse a jogar naquele momento, perderia a infância dela. Resolvi parar com o futebol na época para ser mãe, integralmente mãe
— Foi uma época difícil. Não tinha como ficar sozinha nem deixar minha filha com ele no Rio, sem ninguém para ajudar. E eu também tinha de cumprir meu contrato, tinha dado minha palavra. Então ela foi para a casa dos meus pais, em Atalaia, no interior do Paraná. Fiquei meio ano sozinha. Foi como cortar o cordão umbilical de novo. No final da temporada, não renovei. Não podia ficar tão longe — recorda.

Hoje, Carla e Ana Beatriz vivem separadas por 125km. A zagueira mora em Caxias do Sul, no apartamento que o Juventude aluga para as atletas. A filha reside em Porto Alegre com o pai. E erra quem pensa que a menina poderia não gostar de futebol por causa de todas as mudanças e distâncias que lhe foram impostas. Aos 14 anos, é goleira do Inter, joga na categoria sub-15. Sempre que pode, Carla coruja a filha na arquibancada.

Como ocorre com basicamente todas as mães, é como se os tempos difíceis, os sacrifícios, as dores ficassem todos escondidos em algum canto empoeirado da memória. Carla é só amor, lembrança boa. É por isso que, ao ser perguntada sobre o que diria a uma jogadora que pensa em ser mãe, não titubeia:
— Não se desespere. Não é fácil. Nunca vai ser fácil. Cada ano traz um problema diferente. Mas o amor também vai crescendo com o tempo. A partir do momento que pega nos braços é totalmente diferente. A vida vira aquele serzinho que está olhando seus olhos. Você passa a ter alguém, vira responsável por uma vida. Se tiver a oportunidade de ser mãe e está em um lugar que vai ter amparo, seja mãe. Ouvir alguém te chamando de mãe faz esquecer todos os problemas.
Não se desespere. Não é fácil. Nunca vai ser fácil. Cada ano traz um problema diferente. Mas o amor também vai crescendo com o tempo.






