Carla estava na seleção sub-20 quando descobriu a gravidez. Beta jogava no Grêmio, mas não havia jogos no auge da pandemia. Ketlen tentava conduzir o Santos de volta à elite do futebol brasileiro. E Duda deixou para o último ano da carreira. Elas são exemplos da dificuldade de conciliar a maternidade e a vida de jogadora de futebol.
O sacrifício é ilustrado pelo baixo número: das 436 profissionais do Brasileirão Feminino de 2025, só 16 são mães. E apenas metade passou pela gestação. Nas outras, quem deu à luz foi a parceira.
- A seguir, Zero Hora conta histórias de três atletas e uma ex-jogadora que tiveram de conciliar o esporte e a rotina com os filhos. Clique nos títulos para acessar as reportagens.





Teoria e realidade
É que por mais que a medicina permita que a interrupção das atividades profissionais dure apenas nove meses ou um ano, de acordo com a gestação e o parto, a prática mostra uma realidade diferente. O prazo costuma ser bem maior. E mesmo que as mães sejam protegidas pelas leis trabalhistas e da Fifa, a realidade é a mesma que enfrentam as mulheres de outras profissões, com descaso e demissões assim que permitido.
São essas histórias que GZH apresenta nessa reportagem. Como o sonho de trabalhar no futebol acaba interrompido ou pelo menos atrasado só porque a jogadora quer exercer o direito de ser mãe.

Carla, por exemplo, ficou sete anos sem jogar profissionalmente, ora por cuidar da filha, ora por falta de oportunidade — a carreira tinha ficado em segundo plano. Beta se afastou por duas temporadas.
E até jogadoras consagradas, como Tamires, lateral-esquerda da Seleção Brasileira, foi obrigada a viver três anos longe dos gramados. Ketlen sonha em quebrar essa marca quando Lucca vier ao mundo, daqui a um mês. Ela espera voltar a jogar após a pré-temporada, em março.
A maternidade muda completamente a mulher. Para a mãe, não basta dar à luz, cuidar do corpo e voltar a jogar. É preciso amamentar e providenciar leite para os períodos em que não está junto, por exemplo. Controlar saúde, alimentação, sono. O bebê depende bem mais dela do que do pai. Isso sem mencionar preconceitos que vêm na esteira do machismo, por exemplo.
É difícil, quase impossível, a mãe ficar longe do bebê ainda na primeira infância. E mesmo depois que a criança cresce, o afastamento esporádico vem acompanhado de julgamento e, por consequência, de culpa.
A mãe morar em uma cidade diferente do filho pequeno é visto com maus olhos até mesmo pela própria progenitora. Ainda que, obviamente, seja por necessidade financeira ou por um breve período. Esse aspecto é pouco levado em conta na relação da paternidade. Um pai morar longe do filho por causa de trabalho é mais comum.
Essa diferença, ainda mais no futebol, está traduzida nos números. Enquanto 3,6% das jogadoras da Série A são mães, quase 90% dos jogadores que foram titulares na mais recente rodada do Brasileirão são pais. Enquanto nove delas pararam de jogar por um ano ou mais para ser mãe, nenhum deles precisou interromper a carreira para ser pai.



