
Em "De pernas pro ar", o escritor uruguaio e fã de futebol Eduardo Galeano faz uma analogia a Alice no País das Maravilhas. E afirma que, se renascesse em nossos tempos, não precisaria atravessar um espelho para se deparar com um mundo ao avesso; bastaria chegar à janela.
Na "Copa das diásporas", possivelmente nenhum outro confronto escancare tão bem essa realidade. França e Marrocos, que se enfrentam nesta quinta-feira (9), na abertura das quartas de final do Mundial de 2026, em Boston, às 17h, não precisam de espelhos: diante de uma janela, podem enxergar semelhanças e diferenças que os unem e os afastam para além do futebol.
Galeano sempre falou, em seus textos, sobre as diferentes realidades e como elas se misturam, entre outras coisas, com o futebol. A Copa de 2026, na qual quase 300 atletas jogam por seleções de países em que não nasceram, materializa em campo muitos dos escritos do uruguaio.
Localizado no Norte da África, e separado da Península Ibérica apenas pelo estreito de Gibraltar, Marrocos foi colonizado pela França. A independência (também em relação à Espanha) só viria nos anos 50.
Em campo, as questões geopolíticas estão presentes nas duas seleções. A seleção marroquina é formada por muitos atletas nascidos na Europa, algo que não era tão comum em Copas anteriores. Contra o Brasil, o Marrocos chegou a ter os 11 jogadores em campo nascidos fora do país (quatro na própria França, três na Espanha, dois na Bélgica, um no Canadá e outro na Holanda).
Na França, esse mesmo colonialismo e os subsequentes fluxos migratórios também deixaram suas marcas na seleção. Kylian Mbappé, por exemplo, é filho de um camaronês e uma argelina. Olise nasceu na Inglaterra. Mas os próprios jogadores (desta e de outras Copas) sofreram com um racismo crescente contra a Seleção, especialmente em momentos de derrotas.
Revanche no futebol

Em campo, e em Copas, as duas seleções estiveram frente a frente em momentos cruciais para ambas. E nem faz tanto tempo assim. Foi na semifinal da Copa do Mundo de 2022, no Catar.
Marrocos chegou para o confronto já com uma página assegurada na história das Copas. Tornou-se, no Catar, a primeira seleção africana a estar entre as quatro melhores de um Mundial. Deixou pelo caminho a campeã Espanha e Portugal de Cristiano Ronaldo. E, também por isso, queria sonhar com o passo a mais.
Mas esbarrou naquela que era, no momento, a campeã do mundo. E sofreu com isso. Logo aos cinco minutos, após boa jogada de Griezmann e bate-rebate na área, a bola sobrou para Theo Hernández.
Marrocos melhorou, e até teve chances de empatar, inclusive com bola na trave. Apesar dos sustos, a França sobreviveu. Kolo Muani marcou no fim da partida, e confirmou a passagem dos franceses para a final. A decisão seria perdida para a Argentina, em um dos grandes jogos da história do torneio.
Quem está e quem não está

De lado a lado entre um jogo e outro, nomes se mantiveram, e outros não estão mais presentes no intervalo das duas Copas. Independente do sucesso das duas seleções no último mundial, algumas coisas se modificaram ao longo do ciclo.
Na França, nomes consagrados da seleção, como os atacantes Griezmann e Giroud, e o goleiro Lloris, não fazem mais parte do elenco. Já o atacante Mbappé, que anotou um hat-trick na final passada, segue desfilando seu bom futebol.
No Marrocos, o titular da camisa 1 segue sendo o goleiro Bono. E Hakimi segue como o lateral direito. O meia Ziyech, um dos craques à época, e motor do time de 2022, é uma das principais ausências. À época no Chelsea, hoje está no Wydad Casablanca.
Ficha técnica de França x Marrocos
- Competição: Copa do Mundo
- Fase: quartas de final
- Data: 09/07
- Horário: 17h
- Estádio: Gillette Stadium, em Boston, MA (EUA)
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