O que poderia dar errado no aniversário de 237 anos da Queda da Bastilha? Beaucoup de choses. No seu dia nacional, dezenas de franceses residentes em Porto Alegre viram a queda da invencibilidade da seleção francesa, a eliminação na Copa do Mundo e o dia mais apagado de Mbappé em suas partidas em Mundiais. E ainda contra a Espanha. Demais para uma única quarta-feira (14).
A turma da Aliança Francesa ainda decorava o Bar Térreo, na casa de Cultura Mario Quintana, quando chegou o primeiro francês. Um francês de séculos.
— Ele é trabalha na Aliança?
— Ele é a Aliança — responde uma voz instalando uma bandeirinha tricolor.
— Você acredita em reencarnação. Sou francês de outras vidas.
— Vai me dizer que o senhor era Napoleão!?
A resposta é uma longa risada, uma das últimas da tarde. José Vicente Colona trabalha há 45 anos na Aliança Francesa. Antes dos acordes da Marselhesa tocarem, ele conta a sua história.
A eliminação
Quando tinha 17 anos, uma vidente lhe disse que ele tinha vivido na França. Foi amante de uma mademoiselle da alta corte. A cena não grudou em sua memória. Nem mesmo quando saiu do emprego no banco Credit Lyonnais para se dedicar à instituição.
Décadas depois, já casado, e com o francês na ponta da língua, ele desfilava com a esposa pela Galeria Lafayette, em Paris, quando uma mulher bateu o olho nele. Ela fez a mesma afirmação ouvida décadas antes.
José Vicente se sentou na primeira fileira de mesas para ver o jogo. Torceu tanto como outros franceses desta vida.
— É uma explicação espiritual, de outras vidas. Minha relação com a França cresce em harmonia, aos poucos.
A mais animada era a professora Valérie Gallien, há 35 anos no Brasil. Mesmo nos momentos difíceis, tentou levantar o ânimo da torcida.
— Quem está acreditando?! — arriscou no começo do segundo tempo.
Gritos de allez le Bleus ganharam volume. As bandeiras tremularam. O ânimo para a virada ganhou força.
— Quem vai virar?
— O Olise — respondeu quem estava ao seu lado.
Instantes depois, o meia do Bayern de Munique foi substituído.
— Vou ter que escolher outro.
Poderia ter escolhido qualquer outro, não acertaria. A Espanha vencia por 2 a 0. Ao fim do jogo, apesar da frustração, todos aplaudiram a seleção.
— Para o francês, sei que para o brasileiro é diferente, semifinal já é bom. Estou feliz pelo percurso da França — lamentou o empresário Françoise Holl.
O sonho do tri c'est fini.
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