O homem forte da Seleção abriu as portas da concentração para receber o Grupo RBS. Rodrigo Caetano, gaúcho de Santo Antônio da Patrulha, ocupante do cargo de gerente executivo de seleções masculinas da CBF, atendeu a reportagem com um recado:
— Podem perguntar o que quiserem.
Um convite aos jornalistas Eduardo Gabardo, Leonardo Oliveira, Rafael Diverio e Rodrigo Oliveira. Os questionamentos foram variados. De Ancelotti a Neymar, das lesões ao calor, do Japão a Noruega, tudo foi repassado com o dirigente que passou pela dupla Gre-Nal.
Veja, a seguir, a entrevista.
No início, Ancelotti falou uma frase marcante: "Não se ganha a Copa do Mundo no primeiro jogo". O Brasil melhorou contra Haiti e Escócia e se classificou contra o Japão. Percebe essa evolução na Seleção?
O último jogo foi um mix de uma equipe que gosta de um bom futebol, contra um adversário forte no sistema defensivo, muito organizado. O que passamos contra o Japão serve como uma forma de se adaptar a esse novo formato. Espero que façamos melhor ainda contra a Noruega e que possa seguir crescendo jogo a jogo, sabendo que o mais importante agora é passar. Várias outras grandes seleções tiveram o mesmo problema. Os jogos são muito equilibrados, mas vamos chegar bem, apesar das lesões que vêm atrapalhando muito a nossa Copa.
O que mais te chama a atenção no estilo de Carlo Ancelotti? Qual o diferencial dele em relação ao que você está acostumado?
Nessa comparação do treinador estrangeiro versus o treinador brasileiro, vejo que temos grandes treinadores fora do país e dentro do país, cada um com suas características. Dentre as virtudes de Ancelotti está a gestão do dia a dia. E a forma como ele é. Ele não potencializa os problemas fora de campo. Isso é uma coisa que vale a pena nós refletirmos no futebol brasileiro. Dá total liberdade para todo o staff trabalhar. Coloca sua energia naquilo que é o papel dele, a estratégia do jogo, a escolha dos atletas. E olha que estamos falando do maior vencedor de todos.
Vocês acham mesmo que Carlo Ancelotti, se não fosse algo que o agradasse muito, faria isso? Zero chance.
RODRIGO CAETANO
Sobre a ida de Ancelotti ao Carnaval
E nas questões do jogo em si?
Nas partes técnica e tática, ele mesmo já disse algumas vezes que não se limita a uma só forma de jogar. Treina, testa mais de uma alternativa. Por isso, os atletas, quando entram em campo, sejam os que vêm do banco ou aqueles que iniciam, já têm essa capacidade, a partir de um simples comando dele na beira do campo, de mudar a forma de jogar. Esse também é um grande diferencial. Não há nada empírico. Ele testa, faz simulações e depois, na hora do jogo, passa o comando.
Como tem sido a adaptação dele ao Brasil? Percebemos que tenta até cantar o hino.
É um sujeito simples. Os hábitos dele no Rio são simples. Tem uma rotina, todos os dias faz atividade física, se cuida muito. É extremamente pontual nos compromissos. Impressionante. Isso não é uma característica do brasileiro. E, repito, não potencializa as coisas que fogem do controle. Traz leveza ao ambiente. Posso afirmar para vocês que ele ama o Rio de Janeiro, ama o Brasil. Faz questão de estar sempre sendo inserido na cultura, vocês viram, participou do Carnaval. Ouvi falarem que seria pela publicidade. Vocês acham mesmo que Carlo Ancelotti, se não fosse algo que o agradasse muito, faria isso? Zero chance.

Mudando um pouco o assunto. A Seleção Brasileira sofreu, desde o início da concentração para a Copa, três lesões musculares. O quanto isso preocupa? O que pode ser feito para prevenir novos problemas?
Lesões são inerentes a essa profissão. A Copa do Mundo traz uma sobrecarga sobre os atletas, os jogos são de um nível de intensidade dos jogos absurdo. Na minha visão, é isso que está equilibrando todos os jogos, inclusive. Temos todas as ferramentas que vocês possam imaginar em nível de controle de carga e de desgaste. Fazemos essa recuperação, mas isso não impede. Aconteceu com outras equipes e conosco não vai ser diferente. Lamentamos. Mas não são só os três. Precisa somar Estevão, Rodrygo, Militão. Enfim, esse somatório preocupa, porque nenhuma outra seleção perdeu tantos jogadores importantes como nós. Mas vamos seguir aqui com o nosso controle, com os nossos cuidados. O pessoal está concentrado, descansando, se alimentando.
Paquetá e Raphinha podem voltar?
Não posso dar hoje uma previsão do retorno de Paquetá, seria prematuro. Ele ainda está entregue ao departamento médico e à fisioterapia. Raphinha está num período de transição, temos uma expectativa melhor.
Pode ficar no banco no domingo?
É difícil te afirmar isso agora. Temos mais dois dias de treinamento e essa definição vai ficar um pouco mais para o sábado.
Pensando no próximo jogo, o que dá para esperar contra a Noruega?
São dois problemas, o adversário e o calor.
Comecemos pelo adversário então.
Eles não chegaram por acaso. Exceto em um jogo deles, em que realmente pouparam toda a equipe, em todos os demais jogos conseguiram se sobrepor aos adversários. É uma equipe muito física, como é da natureza do norueguês, com alguns talentos individuais. Nem vou citar o Haaland, porque é um extraclasse. Mas tem Odegaard e companhia. Vamos ter imensas dificuldades, principalmente para entrar na defesa adversária. E precisamos cuidar a transição rápida.
E o calor?
Mas creio que existe esse componente do calor. Todo mundo fala: "Ah, mas o brasileiro está acostumado". Mas todo o time da Noruega joga fora do seu país. Então, também estão acostumados. Realmente, eles vivem em temperaturas bem mais amenas. Mas nós também. Aqui está fora dos padrões. Vamos ter de armazenar energia, tentar uma ambientação e superar isso. Mas temo pelo desgaste. Acho que o jogo perde com isso. Fui atleta e quando vai para uma temperatura extrema, se prepara para ver até onde vai aguentar. É mais ou menos como jogar na altitude. Você inicia o jogo muito preocupado em como vai terminar. O atleta, inconscientemente, acaba querendo dosar alguma energia para conseguir chegar até o final.
Uma curiosidade que todos temos é sobre Neymar. Como tem sido a convivência com ele aqui, mesmo sendo reserva?
Espetacular. Mas também não é surpresa, porque todos que conviveram com ele na Seleção, as comissões técnicas anteriores, os funcionários daqui, sempre manifestaram isso. Já conversávamos há muito tempo, eu, particularmente, ao longo desse período de recuperação. E ele sempre se colocou extremamente disponível para colaborar com a Seleção. Conversamos antes de ele vir, infelizmente teve aquela lesão. Entendeu o momento de que o principal de tudo era se recuperar. A Seleção e a comissão técnica deram demonstrações de que isso era tão importante que nós iríamos cuidar dele, curá-lo, melhorar a condição da lesão. E agora está totalmente apto, sabe o quanto é importante. Não tenho a menor dúvida de que ele vai ser o Neymar desequilibrante que sempre foi. Neymar é altamente profissional, dedicado em tudo e, principalmente, altamente positivo em todas as suas manifestações e na sua conduta.
Quando diz que Neymar está totalmente apto, significa que ele está 100% fisicamente, em condições de atuar 90 minutos, se for solicitado? E existe uma perspectiva de ele estar 100% ao longo desta Copa do Mundo?
É óbvio que está totalmente recuperado. Mas não tem como medir o quanto. Isso tem outras variáveis. Ele está zerado da lesão, está treinando igual aos demais e vai encontrar o momento certo para dar mais minutos, porque todos nós sabemos da importância dele. E isso não diminui em nada os que estão jogando. Que bom que temos o Neymar conosco, é um acréscimo de qualidade. Mas acho que é o conjunto da Seleção Brasileira que nos enche de esperança para esse confronto com a Noruega.
Todos chegam felizes, sorridentes e querendo voltar. O ambiente construído vai melhorando ao longo do tempo.
RODRIGO CAETANO
Sobre o ambiente da Seleção
Vemos seleções sendo eliminadas e começando a aparecer histórias sobre ambiente, questões internas e vida de grupo. Como você percebe este grupo, esta convivência?
Estou na CBF há aproximadamente dois anos e meio e sempre foi um ambiente bom. Existe um desejo muito grande de estar aqui. O atleta termina uma rodada da sua liga, do seu clube, e no mesmo dia pega um voo para, no dia seguinte, estar na Seleção. Todos chegam felizes, sorridentes e querendo voltar. O ambiente construído vai melhorando ao longo do tempo. Quando você consegue implementar uma comunicação clara, regras claras e a possibilidade de eles também terem acesso a nós, nada de forma impositiva, tudo construído, desenvolve esse sentimento de pertencimento à Seleção. Eles representam nosso país dentro do campo. Eles têm participação e responsabilidade, são princípios nos quais eu acredito e gostava quando era atleta.
(Gritos de comemoração são dados em outra sala)
Estão ouvindo a gritaria? Esse é o nosso ambiente.
Como é gerir o maior time do mundo?
Somos 90 pessoas, contando os atletas. A conta é simples, quase dois terços de apoio para um grupo de jogadores. Você coloca seguranças, equipe de marketing, equipe de comunicação e todo o pessoal técnico. É bastante gente, muitos profissionais especializados nas suas áreas. Estou falando de analistas, fisiologistas. Fizemos um planejamento, no dia seguinte ao sorteio do nosso grupo e da nossa sede, já estávamos aqui visitando os hotéis. O centro de treinamento nem tinha sido inaugurado e já tínhamos definido o nosso local de preparação. Até agora está saindo conforme planejamos. Ficar em primeiro melhorou a logística, melhorou tudo. Só lidero essa turma, tenho uma equipe extremamente qualificada. Não foi por acaso, ninguém aqui começou na Seleção Brasileira, todos passaram por clubes, nos relacionamos com Conmebol e Fifa quando representávamos clubes. Construímos uma caminhada para hoje estarmos aqui tentando aportar todo o conhecimento e toda a expertise que adquirimos. É um desafio gigante. Tem muitas diferenças entre liderar atletas em um clube e liderar atletas na Seleção, mas já se vão dois anos e meio. Acho que aprendi um pouquinho. Estou muito feliz aqui. Espero que a gente consiga fechar esse ciclo com essa tão sonhada estrela a mais no nosso peito, se Deus quiser.
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