Bem que uma daquelas seis espigas amarelas erguidas na Avenida Bento Gonçalves podiam ser o Haaland. Altas, largas e imponentes, elas formam o maior condomínio do Rio Grande do Sul. Como o restante do Brasil, o condomínio Terra Nova Nature parou ver a Seleção enfrentar a Noruega, neste domingo (5).
Localizado no bairro Santo Antônio, zona leste da Capital, o conjunto conta com 1.252 apartamentos e quase 4,5 mil moradores cadastrados. O vento cortante recomendava recolhimento.
O estacionamento apinhado de carros, bandeiras estendidas na janela. Gritos de "vamos, Brasil". A partida era em casa. Os quase retardatários, ingressavam pela garagem. O passeio com o cachorro foi antes das 17h. A Bento era atravessada a passos largos para não perder o hino nacional.
Aniversário sem aniversariante
Preparação para um jogo de mata-mata e festa surpresa são gêmeas. Requererem planejamento e estratégia. Um pouco de sorte vai bem. O salão de festas da torre B estava decorado. "Matheus faz 30", o cartaz na mesa ao lado da entrada anunciava do que se tratava o encontro no horário do jogo do Brasil.
Os salgadinhos estavam intocados na mesa. O bolo tinha apenas uma pequena lasquinha cortada. Será que erraram a mão na qualidade dos quitutes? Sobre a mesa repousava uma grande caixa intocada embalada para presente.
— O aniversariante ainda não chegou — anuncia o psicólogo Lucas Becker Delwing, um dos organizadores do evento.
O jogo começa sem o aniversariante. Hora de tirar as últimas dúvidas.
— Além do Haaland, tem algum outro jogador que preste? — pergunta uma convidada.
Demoraram segundos para a resposta ser respondida. A Noruega marca, mas o gol é anulado por impedimento. Um casal atrasado chega com a bola rolando.

No Terra Nova é preciso se programar para chegar e sair de casa. É fácil se perder pelos elevadores e corredores do condomínio.
A médica Victória Sartor Poloni aguentou o frio do lado de fora do salão. Estava acompanha da golden retriever Leia, como a princesa de Star Wars, enfatiza.
Como no futebol, as regras de um condomínio deste porte são complexas. No compêndio de 36 páginas com as normas de convivência, a entrada de animais dos salões são proibidas.
— Vim fazer a festa com o pessoal. Só acompanho futebol quando tem Copa. Fico vendo pela janela.
Enfim, o aniversariante
Ao fundo ouve-se um saco de pipoca ser despejado na panela. Logo sai uma fornada de pipoca. Os potes são preenchidos e nada do aniversariante.
Do estacionamento, as reações aos lances surgem em ondas. Primeiro quem acompanha pela TV aberta. Depois quem está ligado no streaming e sua assincronia.
Intervalo. Hora de levar o cachorro para passear. Um senhor passa com um saco de lixo em mãos.
— Tá difícil hoje, hien?
— Tá difícil.
Outros vão buscar a tele-entrega na portaria. É preciso correr para não perder o início do segundo tempo. O aniversariante ainda não chegou.
— A namorada foi atrás dele. É a função dela. Logo ele chega — explica Lucas.
Matheus de Azevedo Lüdtke, que fez 30, chegou no meio do segundo tempo. Se atrasou um pouco devido a um problema com o avô.
— Não esperava a festa. Tive problemas durante o dia. Achei que chegaria ainda mais tarde. Foi bacana casar o jogo, o meu aniversário e a Copa.
No fim, teve uma desagradável surpresa extra.
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