
Seria irônico se não fosse cruel. A Copa do Mundo da Seleção Brasileira terminou diante de um time comandado por um camisa 10 e um camisa 9. Dois jogadores que não apenas usam essas numerações, mas que desempenham o ofício historicamente designados a elas. Sem um centroavante matador e um meia clássico, o Brasil foi eliminado pela Noruega.
Em um futebol em outra velocidade, essa mesma Seleção teve cinco camisas 10 em 1970 e jogou uma Copa inteira sem nenhum meia em 2026. O país, berço de Gérson, Rivellino, Pelé, Jairzinho e Tostão, viu no passar das décadas a mingua do meia cerebral.
Nem um mísero meia entre 26 convocados. O mais próximo de um jogador dessa linhagem foi Lucas Paquetá. Como um 9 raiz, a opção foi Igor Thiago, titular na estreia e arquivado na sequência por Carlo Ancelotti.
O jogador mais adiantado no time de Carlo Ancelotti foi Matheus Cunha, longe de ser um centroavante de fato. Nas cinco partidas nos Estados Unidos, atuou como falso 9 ou com a função de fechar o meio-campo pelo lado esquerdo para Vini Jr. ficar livre, leve e solto em campo.
Múltiplas pontas atam o nó da carência de jogadores top de linha nessas funções. Especialistas apontam aspectos dentro e fora de campo.
— Eu acho que é mais por conta dos modelos de jogo, que têm eliminado um pouco o camisa 10. Até acho que o centroavante tem bastante. Percebo nas categorias de base uma cobrança, uma exigência muito grande por conta dos resultados, e aí tu acaba pulando algumas etapas — avalia Rodrigo Heffner, analista de desempenho e atual auxiliar do São José.
Metodologia europeia

Os grandes camisas 10 são jogadores com capacidade de enxergar espaços imperceptíveis por jogadores comuns. Também contam com a criatividade para inventar lances fora do habitual. A homogeneização do futebol é apontada como uma possível razão para a falta de jogadores com essas características.
A globalização do futebol uniformizou as metodologias de treinamento. Modelos de sucesso nos grandes clubes europeus foram importados para o Brasil e utilizados tanto na base quanto nos profissionais.
Em diversos métodos, o aspecto tático aparece como o ponto central do trabalho. Ele é a cola que une os outros pilares do jogo. Os aspectos técnico, físico e psicológico são treinados a partir do viés tático. A consequência é uma organização tática detalhada ao extremo.
— Há mais de uma década estamos copiando as metodologias europeias, que no processo de jogo de intermediária a intermediária são ótimas. Porém, não beneficiam o meia central, nem a liberdade, nem a criatividade na fase final ofensiva. Temos que lembrar de onde viemos. Só assim, voltaremos a formar grandes craques — argumenta Julinho Camargo, técnico com passagem pela base e profissionais da dupla Gre-Nal e atualmente coordenador técnico do Serramar.
Profissionais apontam que a europeização do treinamento deixou as atividades excessivamente dirigidas, onde o treinador determina quase a totalidade das ações do time. O “dedo do técnico” nesse caso reduziria a autonomia dos jogadores, inibindo a tentativa de jogadas fora do script.
Pouca autonomia para os jogadores
Cenários externos também influenciam a escassez na formação de jogadores destas posições. Eles passam pela formação pessoal, estímulos motores recebidos e desembocam também na diminuição de espaços públicos para a prática do futebol.
— Uma possibilidade de mudar isso é olhar para as competências cognitivas dos atletas. Estamos formando jogadores que aprendem a tomar decisões ou atletas que apenas executam decisões tomadas por outras pessoas? Será que nossa sociedade e os ambientes de formação esportiva favorecem o desenvolvimento dessas competências? — questiona Rodrigo Sartori, professor do curso de educação física da PUCRS e doutor em ciências do movimento.
O pouco fomento à autonomia se choca diretamente com as características necessárias para um grande artilheiro. O homem de área precisa ter confiança, poder de decisão e força mental para fazer escolhas sob pressão. O camisa 9 precisa ter a personalidade de quem assume a responsabilidade, mesmo com a possibilidade de errar.
— A formação dos próximos grandes camisas 10 e camisas 9 talvez não dependa apenas de melhores exercícios ou tecnologias mais sofisticadas. Dependa também da capacidade de desenvolver jogadores mais criativos, mais autônomos, mentalmente fortes e preparados para resolver problemas inéditos dentro de campo — pontua Sartori.
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