Quartas de final da Copa do Mundo. A Argentina enfrentava a Suíça. Jogo difícil, decidido na prorrogação. A cada disputa de bola, a cantora Mell Costta, 36 anos, gritava em favor dos sul-americanos, enquanto segurava um copo de fernet (licor muito tradicional na Argentina, consumido geralmente com Coca-Cola): "É nossa! É nossa!". Ela estava no bar portenho El Farol. Só que o estabelecimento, apesar do nome, fica em Porto Alegre que, aliás, é a cidade natal da artista.
Sim, Mell é brasileira. E torce pela Argentina. Não é a única (longe disso) que, neste domingo (19), estará com o coração na mão ao ver a seleção hermana disputar a final do Mundial.
No sábado (11), o bar citado acima — assim como alguns outros da Capital — arrebanhou diversos amantes do futebol dos hermanos, que vibraram com cada um dos três gols marcados contra a Suíça pelos jogadores liderados por Lionel Messi. Na ocasião, sequer vislumbravam que, mais à frente, ainda viria uma igualmente bem-sucedida semifinal, contra a Inglaterra, que os alçaria à disputa final.
— Na Copa de 1994, lembro que os meus pais estavam comemorando, felizes. Queriam que eu ficasse com a bandeira e com a camisa do Brasil, mas eu chorava dizendo que não, porque queria a camisa azul da Argentina. Sou gremista e, primeiro, me identifiquei pelas cores, mas, depois, fui crescendo e entendendo o contexto histórico e cultural. E isso me fez amar cada vez mais a Argentina — conta Mell.
A cantora explica que os costumes como o churrasco, o chimarrão, a lida no campo e o tradicionalismo compartilhados pelos dois países não deixaram dúvidas: o seu coração pertencia ao lado de lá, mesmo que nunca tenha cruzado a fronteira. Por sinal, ela vai conhecer o país vizinho, pela primeira vez, em agosto, ao lado do namorado argentino que conheceu pela internet. E, se tudo der certo, de lá não volta.
Via de mão única
Nascido em Porto Alegre, Francesco Rosito, 50, é contador, mas desde a juventude ia visitar amigos em Uruguaiana. Por consequência, tinha contato com os vizinhos argentinos, que estavam do outro lado da fronteira. Lá, passou a nutrir um carinho especial pelos castelhanos. Mas a Copa do Mundo de 2014 o fez incorporar o espírito hermano, que nunca mais abandonou.
— Lembro que fui assistir a um jogo da Argentina no Beira-Rio. E a torcida deles é alucinante, algo indescritível. Não tem como não admirar os caras. Eles têm uma paixão enorme pelo país, uma forma de torcer única. E eles também produziram grandes jogadores, como Maradona, Caniggia, agora o Messi. E os brasileiros estão com falta de um ídolo que jogue tanta bola e represente tanto na Seleção — argumenta Rosito, que enxerga muitas semelhanças entre torcer pelo Grêmio, seu time, e pela Argentina.
O proprietário do El Farol, localizado no bairro Rio Branco, Alfredo Enrique Navarro, o Papito, 49, nasceu em Tucumán, mas se criou em Buenos Aires. Aos 20 anos, mudou-se para o Rio Grande do Sul. Ainda assim, lembra muito bem de como era o universo dos hinchas argentinos. E este fenômeno de torcer para a seleção do país vizinho não acontece em sua terra natal — por lá, só existe a Argentina, nada de Brasil.
Acho que o povo gaúcho é mais bairrista, torce mais pelo seu time, pelo Grêmio, pelo Inter, do que pela própria Seleção. Isso eu percebi. Então, acho que o gaúcho se identifica mais com a raça argentina, com o tipo de jogar, o tipo de torcer. E isso é diferente do resto do Brasil.
ALFREDO ENRIQUE NAVARRO
Proprietário argentino do El Farol
Para o professor de antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Arlei Damo, 55, esta rivalidade que existe entre os dois países é muito mais alimentada em solo nacional do que na Argentina — na visão do pesquisador, os hermanos se importam menos com os brasileiros e mais em fazer frente aos europeus e aos ingleses. E esse "pouco caso" pode ser mais um elo entre as culturas do sul do continente:
— Os sul-rio-grandenses têm uma relação de proximidade com os gauchos e a questão de oposição em relação ao Brasil. Inicialmente, oposição ao Império e, depois, vai se alimentando em outros momentos. Só que o discurso é sempre o de contraponto, como: "O Rio Grande do Sul é diferente, nós aderimos ao Brasil por escolha".
Segundo o pesquisador, esta proximidade entre o Estado e a Argentina também se deu por meio do Grêmio, que começou a importar dos vizinhos o jeito de torcer, como as canções adaptadas e entoadas nos estádios. Por isso, ele acredita que boa parte dos gaúchos que aderem ao universo hermano possui afinidade, também, com o tricolor de Porto Alegre.
— Pela proximidade territorial, pela proximidade cultural e, também, pela oposição ao Brasil na ideia de se pensar a identidade, acho que é perfeitamente compreensível que aqui no Rio Grande do Sul se torça para a Argentina — acredita o antropólogo.
Nas páginas dos livros
Outro que abdicou do Brasil para torcer permanentemente pelos hermanos é Matheus Martins, 30, engenheiro civil. Gaúcho de nascimento, encontrou o caminho para a Argentina pelas páginas do livro Hannibal (1999), de Thomas Harris, onde o Teatro Colón aparece em um momento decisivo da história. A partir disso, começou a pesquisar cada vez mais sobre o país vizinho.

Ficou admirado em como as culturas do sul do Rio Grande do Sul e dos hermanos são próximas — afinal, os gauchos povoaram o Pampa, um bioma transnacional. Se viu, então, muito mais próximo da realidade da Argentina do que do resto do Brasil. A camisa albiceleste virou sua armadura.
— Não gosto da forma como o resto do Brasil trata o Rio Grande do Sul, hostilizando, fazendo chacotas e acusações, chamando de racista, fascista. Então, não acho justo na hora que a Seleção Brasileira for jogar eu fazer parte dessa torcida. Os brasileiros não me consideram como um deles. Então, não vou me juntar. E isso reforça a minha torcida pela Argentina — enfatiza Martins.
Polêmicas
A fala do engenheiro se conecta com as polêmicas envolvendo casos de racismo promovidos por torcedores argentinos. Um dos mais recentes foi na partida contra o Egito, pelas oitavas de final da Copa. Após o confronto, parte da torcida sul-americana insultou e fez gestos racistas ao influenciador norte-americano Darren Jason Watkins Jr., o IShowSpeed, que estava torcendo pela seleção egípcia.
Os gaúchos entrevistados na reportagem se mostraram contra este tipo de atitude e enfatizaram que é necessária uma punição severa para quem pratica o crime de racismo. Além disso, reforçaram que não é aceitável condenar toda uma nação por comportamentos praticados por uma parcela da população.
— Racismo é uma doença mundial, não uma exclusividade argentina. Acho que é muita hipocrisia brasileira. Por exemplo, a Argentina passou por uma ditadura militar sangrenta e, felizmente, ao contrário de todo o resto da América do Sul, foi o único país que colocou seus ditadores na cadeia — defende Martins.
O professor da UFRGS lembra que a Argentina foi uma colônia espanhola e recebeu dezenas de milhares de africanos escravizados. Os negros eram, no fim do século 18, cerca de um terço da população, de acordo com dados históricos.
No censo de 2010, porém, menos de 1% dos argentinos se declaravam negros. É um ponto de atenção na visão de Damo para que, além da torcida e da cultura, não haja um compartilhamento de possíveis preconceitos.
— Dizer que os jogadores argentinos têm garra, pode significar, tão somente, que eles são reconhecidos pela resiliência em campo. Há quem estenda tal predicado à nação como um todo, o que é difícil de ser demonstrado concretamente. Porém, não se deve descartar nem mesmo a reprodução de estereótipos que associam resiliência às origens europeias da população argentina, a menos miscigenada entre todas as nações latinas — reflete o antropólogo.
O próximo jogo da Argentina é nesta quarta-feira (15), às 16h, quando os hermanos disputam uma vaga na grande final da Copa contra a Inglaterra, um rival histórico, num duelo que traz à tona questões para além do campo de futebol. Mas, que o treinador argentino Lionel Scaloni já fez questão de arrefecer o tom belicoso: "será somente um jogo de futebol".


