A Bélgica ainda empatava com a Espanha. Courtois vedava o gol. Em um bar em Canoas, nas barbas da BR-116, Ralf Taeymans esvazia os pulmões ao cantar um dos sucessos das paradas da Antuérpia, cidade da região da Flandres.
— Ik wil deze nacht in de straten verdwalen / De klank van de stad maakt mijn ziel amoureus / Al heb ik geen geld om plezier te betalen / Ik vind wel een vrouwke heel net en genereus
O hit é autoria de Wannes Van de Velde, uma espécie de Nei Lisboa local. Conta a história, em uma tradução livre, de um homem que quer se perder pelas ruas de uma cidade que deixa a sua alma apaixonada. Mesmo sem dinheiro, vive a expectativa de conhecer uma moça gentil e generosa.
Ralf chegou ao Brasil em 2004 para prestar trabalho voluntário. Morou na Base Aérea de Canoas. Vagou pelas ruas da cidade. Os amigos o levaram à Lancheria Encantado, vulgo Bar do Chico. Virou um devoto.
Naquelas mesas de plástico, com paredes amarelo mostarda e um vermelho de tom indecifrável, ele aprendeu o português. Entre uma tacada e outra em uma das duas mesas de bilhar e um copo de cerveja, forjou sua identidade belga-brasileira.
— Se a Bélgica se classificar, eu pago o salsichão do churrasco depois do jogo — anunciou.
A vida no Brasil
Encontrou uma moça gentil e generosa chamada Rosa. A relação dura 20 anos. Por um tempo, namoraram à distância. Ela vendeu um carro para visitá-lo na Bélgica.
De repente, um homem alto de cabelo entre o platinado e o grisalho entra com o vento pela porta de frente.
— Esse é o Marcão. Ele que nos apresentou.
Rosa tem as unhas pintadas em preto, vermelho e amarelo. O "couvert" é pintar o rosto com as cores da bandeira belga. Entre os que acompanharam o jogo todo, os que entraram e se foram e os que assistiram apenas os minutos finais, cerca de 20 amigos passaram pelo Bar do Chico.
— Gosto do povo daqui. Fiz amigos. Tentei voltar para Bélgica, mas não consegui. Tenho uma vida boa aqui. Gosto dos gaúchos, do churrasquinho — explica o empresário.
Ralf também trabalhou no consulado belga no Brasil. Tentou organizar a comunidade espalhada no Brasil. Morou em São Paulo. Montou uma pousada em Florianópolis. Fechou o empreendimento.
— Nãaaaaoooo! Nãaaaaoooo! — disparou no início da jogada do primeiro gol da Espanha. — Nãaaaaoooo!.
Num salto, levanta da cadeira. Vai ao banheiro. No caminho, desfere um tapa no ar na direção da televisão, como se desistisse. Na volta, fuma um cigarro. Senta-se de novo.
No gol do empate belga, fica claro o bom serviço das aulas de português lecionadas pelos amigos. Usa um vocabulário pouco republicano, de fazer Filipe I, da Bélgica, corar.
Também dá suas aulas. Ensina as pronúncias dos jogadores belga.
— De Brrrrruyne, o marrom, seria a tradução.
A entrada de Lukaku é celebrada com gritos de "Uh! Uh! Uh! Lukaku!". Não adiantou.
— 42 minutos! 42 minutos! 42 minutos! O Courtois não estava no gol. Se fosse o Courtois...
O gol da Espanha só mudou os planos de sua torcida na Copa. Vai ficar ao lado da Noruega, o outro país pequeno vivo nos Estados Unidos. O clack das bolas de bilhar ecoam.
— Bom, acho que vamos fazer uma fumacinha de qualquer jeito.
Ralf tem uma vida boa aqui.
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