
No início do século 19, navios traziam gente de todo o mundo até Nova Jersey em busca de um sonho nos Estados Unidos. Neste domingo (19), o sonho de ser dono do mundo se tornará real para Espanha ou Argentina na mesma cidade.
A maior Copa de todos os tempos termina no final da tarde deste domingo de verão norte-americano (veja aqui horário e onde assistir). A maior em número de sedes, em número de seleções, em número de jogos, em número de gols, em número de artilheiros, em número de público, em número de histórias, em número do que você imaginar. Tudo isso ganha um ponto final hoje, com o direito a apenas um povo sorrir: espanhóis ou argentinos.
Mas nem são esses números superlativos com os quais a Fifa gosta de se exibir o grande legado desta Copa. O que ficará para o próximo ciclo é o que o campo mostrou. O futebol ganhou seu jogo quando viu, no meio da semana, se cristalizar a final entre Espanha x Argentina. São dois times que fazem da bola sua ferramenta de jogo e, mais do que isso, sua ideia de vida.
Poderia ser a França, também, com seus quatro fantásticos. Mas os Deuses do futebol, sábios e perspicazes, entenderam que era preciso colocar um freio nesse transformação do futebol em um esporte mais físico do que técnico, em que se valoriza mais os sprints do que propriamente o trato com a bola, seu controle, seus caminhos por pés mais macios. Será a final da bola, da luta pela posse dela, e o vencedor será quem tiver se relacionado melhor com ela ao final deste domingo.
— São duas seleções que melhor jogam de forma coletiva — resumiu Rodri na entrevista coletiva concedida no final da tarde da última sexta (17), no Javits Center, um centro de convenções em Manhattan no qual se realizava uma feira gigantesca da indústria do esporte.
Os números demonstram a filosofia de jogo das duas finalistas. La Roja, também conhecida como La Furia, é dona da melhor média de posse de bola: 58%. O que significa que passa com a bola praticamente dois terços do tempo de uma partida. La Albiceleste, com um tempero de maior vibração, também faz do controle da bola a sua estratégia. É quem mais trocou passes nesta Copa do Mundo, 4.772, o que dá uma média de 682 por partida.
Toda essa estatística não se acaba em si. A Espanha é quem melhor se defendeu, com um gol sofrido apenas. A Argentina, quem mais fez gols, 19. Ou seja, só ter a bola é insuficiente. Os dois finalistas mostraram que, com ela, sabem que caminho escolher.
O ponto é que haverá apenas uma bola em campo, linda, criada especialmente para esta final. Mas, mesmo assim, só uma. O que nos faz projetar uma disputa quase obsessiva pelo controle dela. O mais interessante é que a seleção espanhola e a seleção argentina, embora tenham a mesma ideia de jogo, chegaram a ela por caminhos diversos. Um percurso que define bem de onde vieram e a forma como procedem para estabelecer seus planos de vida.

A equipe de Lionel Scaloni contou com um alinhamento dos astros. Nada muito novo na vida de quem vive na América Latina. Lá em 2018, apostou em um técnico sem experiência, para ser tampão. Ele chegou, discreto, perfil baixo, e colocou seu time a jogar como faziam os europeus. Ele próprio era um jogador de longa trajetória na Europa e vivia em Mallorca. Logo viu que seus jogadores não encaixavam no modelo de transição e velocidade. Retomou as origens, moldou um time de toque e força para atacar e defender e, agora, está à porta do bi mundial, algo que não se repete desde 1962, com o Brasil de Garrincha, Amarildo e Pelé.
A equipe de Luis de la Fuente fez como a Europa faz. Estabeleceu uma filosofia de jogo de posição, baseada no tikitaka, e tratou de introjetá-la desde a iniciação. O jogador espanhol cresce sabendo seu lugar no campo, como ocupá-lo e de que precisa dos amiguinhos para chegar ao gol e ao sucesso.
Há um projeto de formação, fundamentado em cinco pilares: infraestrutura e tecnologia; formação integral do atleta, com abordagem ao técnico, tático, psicossocial e cognitivo, no qual os clubes têm metas de ter jogadores no ensino médio e na universidade; cuidado com a transição da base para o profissional; capacitação de técnicos da formação; exigência de que cada clube da La Liga tenha filosofia de jogo e metodologia de treinos.
Isso fez com que a Espanha, depois da geração campeã em 2010, chegasse com um time jovem em 2022 e o batizasse para que chegasse maduro em 2026. A esse time agregou talentos surgidos no último ciclo, como Lamine Yamal e Cubarsí, de 19 anos. Uma fábrica colocada em funcionamento com organização. Nada de aleatório.

Porém, o futebol faz com que o improviso e a organização cheguem por seus caminhos a esse domingo. Há um Messi a alicerçar a construção argentina e um Lamine Yamal a tentar arrematar a obra espanhola. Os dois, aliás, são os pontos mais brilhantes de dois times luminosos. O argentino faz uma Copa em um nível absurdo. Mantém-se afiado como se ainda estivesse com 20 anos. É o goleador do Mundial, com oito gols e ainda conta quatro assistências. Ou seja, dos 19 gols da Argentina, participou de 12.
O espanhol nem era nascido quando Messi já brilhava no mesmo Barcelona em que foi formado. Tenta fazer dessa Copa do Mundo o seu passaporte para a cobertura onde vivem os grandes do futebol. Sua grande atuação ainda não chegou nesta edição. Mas a final pode mudar tudo.
Aliás, para encerrar a lista de atrações desta final, poderemos ver no MetLife a passagem de bastão de uma geração para outra. Messi está no fim de sua história como dono do mundo da bola e procura herdeiros. Lamine Yamal talvez seja o mais dotado de qualidade para assumir essa coroa. O domingo pode ser o cenário dessa transição. O que, claro, o camisa 10 argentino tentará adiar de todas as formas.
Tudo isso começará a ser descortinado a partir das 16h. Os deuses do futebol são tão generosos e estão tão ansiosos por esse jogo que fizeram a previsão de tempestade em Nova Jersey ser antecipada para sábado. O domingo terá temperatura na casa dos 30ºC e sol. Um cenário perfeito para conhecermos o novo dono do mundo.
Que seja uma grande final.
