
Poucos times na história do futebol perderam uma Copa do Mundo como o Brasil de 1982. Braços estendidos, veias saltadas, boca em forma de O aos berros de gol, olhos emocionados. Ao empatar o jogo com a Itália em 2 a 2, Falcão foi a última imagem de uma Seleção que fez o Brasil sonhar. Em seguida veio o terceiro gol italiano e uma das derrotas mais lamentadas da história do futebol canarinho. Por baixo da dor da eliminação, iniciava-se o fenômeno da exportação dos talentos brasileiros.
Não se sabia que era o início de um novo tempo. Naquela Copa, Zico e Falcão foram os principais nomes do time de Telê Santana. Um do Flamengo. O outro da Roma.
A Seleção passou 48 anos sem ter um jogador de um clube do Exterior em Copas. A ausência presente entre 1934 e 1982 foi quebrada com Falcão e Dirceu, do Atlético de Madrid, os “estrangeiros” do elenco do Mundial da Espanha. Desde então, nenhum técnico do Brasil apresentou uma lista de convocados para a Copa sem um atleta que atuava em outro país.
A partir dos anos 1990, o êxodo de talentos brasileiros intensificou-se. Apesar da dependência, o Brasil nunca foi campeão mundial com mais jogadores de clubes estrangeiros do que brasileiros. No Tetra, foram 11 de cada. Oito anos depois, no Penta, 13 dos 23 campeões mundiais atuavam no futebol nacional.
Para conquistar o Hexa, Carlo Ancelotti terá de quebrar o padrão. Dos 26 nomes chamados por ele, sete atuam no futebol brasileiro. Maior quantidade desde o título de 2002. Nos torneios de 2010, 2018 e 2022 o ponto mais baixo numericamente. Apenas três jogadores de clubes brasileiros.
— A identidade do futebol brasileiro está sempre presente na Seleção. Ter mais jogadores que atuam no exterior, entre os convocados, é um reflexo do atual cenário do futebol: os jogadores estão saindo — ressalta Luiz Felipe Scolari, técnico campeão do mundo em 2002.
Felipão viveu os dois lados da história. Além de comandar a Seleção no penta, esteve no comando em 2014, quando quatro jogadores “brasileiros” foram chamados.
Independentemente da proporção de convocados, desde 1990 a base do time atua além-mar. Os protagonistas, de Romário a Neymar, sempre vestiram camisas de clubes do Exterior.
— Em 2002, a escalação final tinha três jogadores que atuavam no Brasil, e a identidade do futebol brasileiro estava presente no orgulho dos jogadores, como estava em 2014. O que muda, conforme os atletas são vendidos, é a necessidade de se adaptarem à cultura para a qual são transferidos. E o meu desafio à frente das equipes de 2002 e 2014, não somente na Copa do Mundo, mas durante o ciclo, foi reunir diferentes características individuais e transformá-las em uma ideia coletiva — avalia Felipão.

É preciso dar coesão a um grupo de jogadores dispersos em vários países e clubes. O primeiro jogador de fora do país chamado para uma Copa foi Patesko, em 1934. Clube do atacante, o Nacional era um dos sete clubes com jogadores na lista do técnico Luiz Vinhaes.
Ancelotti tem em mãos um grupo oriundo de 20 equipes diferentes. São atletas em estágios diferentes de preparação física. Os “europeus” vivem o final da temporada. Os “brasileiros” estão no meio de um ano recheado de partidas. São 20 tipos de preparação física distintos.
— Tem essa heterogeneidade em relação àquilo que é realizado nos clubes. Todos trabalham força, mas de maneira diferente. São as mais variadas formas — explica Paulo Paixão, veterano preparador físico da Seleção Brasileira em Copas do Mundo.
A minimização das diferenças durante a preparação é uma medida analisada durante todo o ciclo. Periodicamente, a comissão técnica recebe relatórios sobre aspectos físicos e médicos de todos os jogadores, além de explicações sobre as metodologias utilizadas.
Tudo para convergir as diferenças em um aspecto comum. Fazer 26 jogadores formarem uma única Seleção. A Seleção dos brasileiros.
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