
Acredite-se ou não em coincidências e superstições, é melhor tê-las ao seu lado antes de uma Copa do Mundo. Carlo Ancelotti é um supersticioso. Como tantos italianos. Como tantos brasileiros. Terá casualidades e semelhanças ao seu lado na busca pelo hexa do Brasil. Como não acreditar nelas?
A testa de Carlo Ancelotti lusia de suor. As bochechas estavam da cor da camisa terracota que vestia, acinturada por uma imensa pochete. Então auxiliar técnico de Arrigo Sacchi na seleção italiana, observava a festa brasileira pelo tetra, conquistada instantes antes na disputa por pênaltis.
A memória daquela tarde e daquele resultado infernais ainda está fresca. Recém publicado, o livro “O Sonho”, escrito por Ancelotti em parceria com o jornalista Chris Brady, o treinador fala mais da experiência: “Pela terceira vez na minha carreira — contando a final da Copa Europeia de 1984 e o tenso confronto de três jogos contra o Estrela Vermelha, em 1989 — me vi nervoso, assistindo da beira do campo enquanto o drama de uma disputa por pênaltis se desenrolava. Se aquele momento me ensinou algo, é que o futebol se joga tanto com a mente quanto com os pés”.

Pouco mexe tanto com a mente e a confiança do que superstições e coincidências. O ano da escaldante tarde de verão dos Estados Unidos era 1994. O Brasil carregava o peso de 24 anos sem vencer a Copa. Os Estados Unidos voltam à rota brasileira. O país enfrenta mais uma seca de 24 anos, cinco edições sem título. Para um supersticioso, uma coincidência basta. Duas vira destino.
— Foi uma experiência fantástica. Estar com os jogadores por tanto tempo. Não saiu bem para nós, mas para vocês, sim. Disse que um dia queria experimentar de novo essa experiência. Com quem quero provar? Com o Brasil — comentou em sua apresentação como técnico da Seleção Brasileira.
Ancelotti está longe de ser um Zagalo, mas não trata o futebol apenas pelo lado racional. Não esconde o sorriso quando o assunto superstição aparece. Se fosse espanhol, diria que é supersticioso, pero no mucho. Na Itália, uma das palavras para o tema é scaramanzia.
— Eu sou supersticioso. Não é bom ser, mas não ser supersticioso traz azar — disse em um podcast italiano.
É uma maneira enigmática perfeita para driblar as pessoas de suas superstições. Em especial para um cidadão italiano, criado para rebater o malocchio (mau-olhado), tocar ferro (versão das nossas três batidinhas na madeira) e o medo da sexta-feira 17. Ser supersticioso não é ser excêntrico. É ser italiano.
A afirmação de ser supersticioso foi reafirmada em entrevista no Jornal Nacional após o anúncio dos convocados. Quais são? Mais fácil divulgar com antecedência a escalação da estreia contra Marrocos, no sábado (13).
Publicamente, Ancelotti nega superstições e rituais, como vestir o mesmo colete em jogos importantes, repetir trajetos, etc. Um dos casos mais icônicos recai sobre o jovem Jeremy de León. O jogador virou amuleto nos tempos de Real Madrid.
Na temporada, 2023/24, León não estava inscrito na Champions League. Mas participou da delegação para um jogo em Manchester. O Real venceu. Seguiu em viagem com a delegação para outras partidas fora de Madri. Alimentou a leitura de uma “convocação supersticiosa”.
A justificativa de Ancelotti foi racional. Ele tinha a necessidade de ter mais um jogador para os treinos. Acredita se quiser.
Se as coincidências têm significado no futebol, é difícil provar. Mas que elas existem, elas existem. Em 1994, Ancelotti estava lá.
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