De quatro em quatro anos, um certo evento global costuma mudar a rotina de milhões de pessoas. E num país como o Brasil, definitivamente, vira assunto a cada esquina, seja numa fila de supermercado, num bar ou numa corrida de aplicativo. A Copa do Mundo costuma deixar marcas em seus entusiastas.

Faltando nove dias para a bola rolar no mítico Estádio Azteca na partida de abertura do Mundial de 2026 entre México e África do Sul, Zero Hora traz quatro histórias inusitadas de jornalistas gaúchos durante edições do maior torneio de futebol do planeta.
9.288 km sobre trilhos na Rússia
Enquanto boa parte dos jornalistas corria atrás de treinos, coletivas e jogos da Copa de 2018, Renato de Alexandrino, 51, decidiu seguir um caminho oposto — literalmente sobre trilhos. Em vez de acompanhar a rotina da Seleção Brasileira, ele embarcou em uma longa travessia de trem pela Rússia, atravessando 15 cidades, sete fusos horários e uma sucessão de histórias improváveis.
À época repórter de O Globo, o gaúcho recebeu carta branca do editor para apostar em um formato pouco convencional de cobertura: explorar o país-sede além dos estádio
— Eu fui para cobrir a Copa, mas basicamente não cobri. Fui pago para passear, mas com missão de contar histórias fora do eixo do futebol — resume, entre risos.
O resultado foi uma jornada de cerca de 35 dias pela lendária Transiberiana, que em 2024 virou o livro: 9.288 km sobre trilhos: Uma aventura na Rota Transiberiana. No percurso, mais do que futebol, ele encontrou um retrato pouco conhecido de um país continental — e, muitas vezes, contraditório.
Era todo mundo pelado, como veio ao mundo
RENATO DE ALEXANDRINO
Sobre experiência em uma sauna russa.
Uma das experiências mais marcantes aconteceu longe das grandes cidades. Em uma pequena localidade na Sibéria, Alexandrino se viu dentro de uma típica sauna russa, cercado por homens de 60 e 70 anos nus.
— Era todo mundo pelado, como veio ao mundo, e ainda tinha a tradição de bater com folhas no corpo para ativar a circulação. Eu só pensava: "deixa que eu bato em mim mesmo” — relembra rindo.
A viagem também teve espaço para estranhamentos gastronômicos. Em Tyumen, provou língua de rena e peixes crus em um restaurante especializado em culinária “siberiana polar”.
— O dono dizia que trazia receitas inspiradas no Ártico. Eu comia tentando convencer a mim mesmo de que estava gostoso — conta.
Mas nem só de curiosidade viveu a aventura. Houve perrengues. Um dos mais emblemáticos aconteceu em Mogochá, uma pequena cidade que, segundo um ditado local, teria sido criada pelo diabo — em oposição a Sochi, “obra de Deus”.
— Era uma cidade com 5 mil habitantes e absolutamente nada para fazer. Chovia sem parar, não tinha restaurante aberto, não tinha gente na rua. Foi uma das maiores roubadas da viagem — conta.
Os deslocamentos também testaram os limites físicos. O trecho mais longo durou 26 horas dentro de um trem, e houve momentos em que o cansaço se impôs até sobre a Copa.
— Eu não vi Brasil x Bélgica direito. Dormi. Acordei com o grito de gol e nem sabia o que estava acontecendo —diz.
Em meio a paisagens e culturas distintas, a experiência acabou transformando também o jornalista.
— Abre a cabeça. Você chega com certos preconceitos e vai desconstruindo tudo. Acho que me deixou mais paciente, inclusive. Porque no trem você é obrigado a respeitar o tempo das coisas — conta.
Essa imersão cultural levou Alexandrino até situações insólitas, como uma entrevista com uma xamã em uma região próxima à Mongólia, onde influências budistas e tradições espirituais convivem com a identidade russa.
— Eu fui meio com medo, confesso. Aí ela perguntou: "Os homens brasileiros tem medo de xamã? É que os homens brasileiros são tão bonitos..." aí acabou a entrevista (risos), saí e perguntei pra menina que era minha guia: Você acha que ela tava dando em cima de mim?" E ela: Eu acho! — relembra rindo.
Final da Copa sem ingresso
Copa do Mundo é sonho para qualquer jornalista esportivo. Para Rafael Diverio, 41, aquele sonho parecia improvável em 2010.
— Eu não trabalhava no Grupo RBS, estava no Diário Popular, em Rio Grande. Quando vi que a Copa seria na África do Sul, fiz as contas: eu quero estar lá — lembra.
Sem credenciamento, ele traçou um plano ousado: bancar a própria viagem, captar patrocínio e cobrir o Mundial com um olhar diferente.
— Sabia que não ia concorrer com Tino Marcos ou José Alberto Andrade. Então decidi mostrar outra Copa: a vivida por torcedores e brasileiros perdidos por lá — conta.
Conseguiu apoio comercial e embarcou no que chama de jornada “no peito e na raça”. Hospedou-se em um hostel improvisado num antigo hospital, fez economia máxima e, pouco a pouco, montou uma rede de contatos com jornalistas e curiosos.
Vieram histórias incríveis. Num trecho, cruzou o país de carona com um brasileiro que treinava dois cães para jogar futebol — Mané e Fenômeno — até conseguir alugar um carro minúsculo para seguir viagem.
— Dirigir na mão inglesa, com marcha do outro lado, atravessando madrugada na África do Sul, parecia cena de filme — relata.
A Copa seguiu. Ele acompanhou o Brasil em Johannesburgo, viajou para Durban para o duelo com Portugal, depois para Porto Elizabeth nas quartas de final.
— Quando o Brasil caiu para a Holanda, tivemos que reinventar o roteiro. Fomos atrás das semifinais, da decisão de terceiro lugar e, claro, da final — diz.
Final de Copa, estádio lotado, gol do Iniesta… E eu lá, sem ingresso, vivendo um filme.
RAFAEL DIVERIO
Sobre ter assistido de graça à final entre Holanda x Espanha, em 2010.
E foi aí que viveu o ápice da aventura. Sem ingresso e sem credencial para a decisão entre Espanha e Holanda, tentou a sorte no Soccer City.
— Estávamos no centro de imprensa, percebi um portão com movimentação. Gente entrando e saindo. Fui caminhando, crachá da ACEG (Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos) aparecendo, passei — recorda, rindo.
Minutos depois, Diverio estava dentro do estádio, testemunhando a prorrogação histórica que consagrou a Espanha campeã do mundo.
— Quando o jogo acabou, eu estava a poucos metros da festa dos jogadores, do lado das famílias. Foi surreal. Entrei cada vez mais, perto de quem levantou a taça — descreve.
Para o jornalista, nada superará aquela sensação de ter furado a bolha — e a segurança — para assistir a um dos maiores jogos da história.
— Final de Copa, estádio lotado, gol do Iniesta… E eu lá, sem ingresso, vivendo um filme. É a história que eu vou contar para sempre — recordou.
Trio elétrico na Borges
Em 2014, Aleco Mendes, 44, atualmente na Emater-RS, vivia uma rotina intensa nos bastidores da Copa do Mundo em Porto Alegre. Ex-assessor de imprensa do Inter e por anos a voz do Beira-Rio, ele havia assumido a coordenação de comunicação da Secretaria Extraordinária da Copa.
Seu trabalho incluía atender jornalistas estrangeiros, cobrir os jogos no estádio, organizar eventos como a Fifa Fan Fest e o "Caminho do Gol". Mas, em um dos dias mais marcantes, sua função foi além do jornalismo: Aleco assumiu o papel de DJ para 50 mil pessoas, a grande maioria de alemães.
O episódio aconteceu em 30 de junho de 2014, antes do confronto entre Alemanha x Argélia pelas oitavas de final no Beira-Rio, um dos principais jogos da fase em Porto Alegre.
— O Caminho do Gol estava travado. A ideia era levar os torcedores do Mercado Público ao estádio com atrações ao longo da Borges de Medeiros. Mas as pessoas paravam para assistir e não fluía — relembra Aleco.
Foi então que gaúcho sugeriu, em reunião com a equipe da Secretaria, colocar um trio elétrico:
— Lancei a ideia brincando: a gente precisava de algo estilo Ivete Sangalo. Aprovamos, mas não dava tempo de contratar artistas. Aí alguém disparou: "Aleco, tu não é DJ?’”, conta, rindo. A proposta vingou.
Foi disparado o auge da minha trajetória como DJ
ALECO MENDES
Sobre ter tocado para 50 mil pessoas no "Caminho do Gol", em 2014.
Dali em diante, ele teve pouco tempo para preparar um set list pensado para os torcedores alemães.
— Fiz uma pesquisa dos maiores sucessos na Alemanha naquele momento, desde pop até eletrônicas internacionais. E, claro, não faltou "Seven Nation Army”, do White Stripes — lembra.
Durante três horas, ele comandou a festa do alto do trio, conduzindo a massa do centro até o Beira-Rio.
— Foi surreal. Eles dançavam, cantavam, pediam autógrafo. Subiam para me entrevistar” — diz Aleco, citando emissoras estrangeiras que cobriram o momento.
O frio daquele dia histórico não diminuiu a energia.
— Foi disparado o auge da minha trajetória como DJ. Depois disso, nada superaria tocar para 50 mil pessoas em uma Copa do Mundo” — resume. O feito virou assunto entre colegas, reconhecido até pelo então prefeito José Fortunati.
— Da Copa vieram palestras, legado profissional e pessoal. Mas esse dia, sem dúvida, ficou para sempre — relembra.
Pedido de casamento
no Lusail
O futebol sempre fez parte da rotina da jornalista Bianca Molina, de 33 anos. Em dezembro de 2022, durante a Copa do Mundo do Catar, essa paixão serviu de cenário para um momento que ela jamais esquecerá: o pedido de casamento ao namorado, Rafael, em frente ao Lusail Stadium, palco da histórica final entre Argentina e França.
A gaúcha, hoje no Canal Goat, estava no país a trabalho pela Ronaldo TV e conseguiu conciliar parte da cobertura com dias de lazer ao lado do parceiro.
— Ele foi a três jogos, mas não tinha ingresso para a final, à qual eu fui credenciada — relembra.
O impasse não atrapalhou seus planos. Antes de embarcar, ela havia comprado as alianças no Brasil e transmitia confiança:
— Eu já tinha na minha cabeça desde mais nova que eu se precisasse ou se eu tivesse afim eu não teria problema nenhum de eu pedir o meu namorado em casamento — revela.
Era a união do nosso amor e do nosso amor pelo futebol
BIANCA MOLINA
Sobre a ideia de pedir Rafael em casamento em frente ao Estádio Lusail, em Doha, no Catar, horas antes de Argentina x França, em 2022.
Depois de várias tentativas frustradas de conseguir ingresso extra, ela encontrou a alternativa perfeita: pedir em casamento do lado de fora do estádio.
— Pensei: a experiência tinha tudo a ver com a gente, ainda que eu estivesse trabalhando. Era a união do nosso amor e do nosso amor pelo futebol — conta.
Para registrar a cena, improvisou: encontrou um torcedor estrangeiro disposto a ajudar na gravação, mesmo sem jeito com o celular. O vídeo não saiu como ela imaginava, mas a emoção compensou qualquer detalhe técnico.
— O registro ficou ruim, mas era o de menos. O importante é que eu pedi, falei algumas palavras e foi incrível — diz, rindo.
O pedido aconteceu minutos antes da partida mais aguardada do torneio. Para Bianca, será para sempre a síntese perfeita de duas paixões: os grandes jogos e uma história de amor que começou no Rio Grande do Sul e ganhou o mundo.
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