Pela duração da vida do Brasil nesta Copa do Mundo, uma rua de Novo Hamburgo mudará extraoficialmente de nome. A Costa Rica passará a se chamar Alisson Becker. A rua do Alisson. No asfalto irregular com poças d'água está estampada em tamanho estratosférico a imagem do goleiro da Seleção Brasileira. A ideia despretensiosa atraiu curiosos de toda parte. Ganhou o mundo.
Foi atração na estreia do Brasil na Copa do Mundo. Dezenas de pessoas se reuniram na rua para acompanhar o empate em 1 a 1 com Marrocos.
As defesas do hamburguense Alisson foram comemoradas como gols. Quando o gol dos africanos saiu, nem todos estavam aprumados em frente à TV de 88 polegadas.

Nos últimos dias, equipes de uma televisão mexicanas e um casal de Bangldesh passaram no local para ver a obra do artista Joacaz. Ele também pintou cinco estrelas, a Copa do Mundo e um cachorro caramelo. A viralização aconteceu após Alisson e o seu clube, o Liverpool, compartilharem imagens da pintura.
— Não imaginei que ia repercutir tanto. O pessoal engajou. O Alisson é um orgulho nosso — comenta o motorista de aplicativo Gilvanio Silva, um dos mentores da ideia.
Há a expectativa de que Alisson venha ver a obra in loco depois da Copa. De preferência com uma medalha no peito.
Se Alisson saiu de Novo Hamburgo para o mundo, o industrial Anilson Flores sonha o mesmo para o seu filho, que joga como lateral-esquerdo na base do Brasil de Pelotas.
— Quem sabe daqui a quatro anos, a gente não esta vendo ele? O Alisson merece muito estar lá. Saiu aqui de Novo Hamburgo. É motivo de orgulho.
A antiga casa de Alisson
A sensação se estendia por toda a cidade. Embora a 15 minutos dali, não houvesse multidão. De casaco verde e blusa amarela, Vera Lucia Rauber correu para abrir o portão para reportagem. Ela estava prestes a fazer uma panelada de pipoca com melado para os netos.
— Vocês apareceram bem na hora do jogo!
Ela ajuda a administrar o Condomínio Vicente Kieling, no bairro Canudos. Enquanto ela acelerava o passo, uma vuvuzela solitária quebrava o silencio. Das janelas, uma luz verde bruxuleava.
Em um dos 650 apartamentos do conjunto de prédios residiu a família Becker. Foi no campinho do condomínio que Alisson realizou as primeiras defesas.
A goleira da quadra não tinha ninguém a protegê-la. A bola multicolorida estava parada no centro do campo de areia, o tamanho de uma quadra de vôlei.
— Quem jogava mais era o Muriel (irmão do Alisson). O Alisson era menor, e não deixavam ele jogar. Ele ficava chorando — conta.
Vera Lucia se esforça para manter a memória de Alisson vivas no local. Novos moradores não sabem que dali saiu o goleiro da Seleção Brasileira. Os quartos minúsculos em que Alisson e Muriel ensaiavam defesas são ocupados por outras pessoas, outros sonhos.
Na página do Condomínio nas redes sociais, ela faz publicações sobre as origens do camisa 1 do Brasil. A relação com a família se mantém.
— É o nosso menino de ouro. Ele começou aqui. Hoje em dia, quando tem uns 40 guris jogando e brigando, eu penso: "Daqui não vai sair outro Alisson". Me arrepiei com a carta que o Muriel escreveu para ele — comentou ao falar da ação promovida pela Fifa entre os dois irmãos.
Ela garante que a medida que a Copa avançar, o ânimo do Vicente Kieling crescerá. Do outro lado da cidade, sobre aquela imagem gigante, pairava a mesma sensação.
Se precisar, há espaço na Rua Costa Rica para uma sexta estrela e, quem sabe, vire Rua Alisson Becker de verdade.
