Em clima de Copa do Mundo e com o Brasil em busca do hexa, o álbum de figurinhas volta a ocupar espaço nas mochilas, nas mesas de bar e nas rodas de conversa. Mais do que um passatempo, a coleção se tornou uma forma de torcer, acompanhar a Seleção e reforçar uma das tradições mais populares do torneio.
Com a convocação brasileira já definida, muitos torcedores buscam completar a página da Seleção no álbum oficial. Junto com a corrida pelas figurinhas, também surgem dúvidas sobre o custo da brincadeira. Algumas estimativas apontam que seriam necessários até R$ 7 mil para completar a coleção.
Mas esse valor é real?
A resposta depende de uma série de fatores. Segundo o professor de matemática Gabriel Vargas Probst, de 29 anos, é impossível determinar um valor exato, já que a distribuição das figurinhas nos pacotes é aleatória.
— É impossível prever um valor exato, pois dependemos de eventos aleatórios no que diz respeito a quais figurinhas virão nos pacotes comprados — explica.
No cenário mais otimista, e praticamente impossível, um colecionador conseguiria completar o álbum sem receber nenhuma figurinha repetida. Nesse caso, o gasto mínimo seria de R$ 1.004.
A realidade, porém, é diferente. Conforme a coleção avança, as figurinhas repetidas se acumulam e encontrar as que faltam fica cada vez mais difícil.
Com base em modelos matemáticos, Probst afirma que uma pessoa que tentasse completar o álbum exclusivamente comprando pacotes, sem realizar qualquer troca, provavelmente precisaria adquirir entre sete e oito vezes o número total de figurinhas da coleção.
— Como este ano são 980, isso leva a uma estimativa de cerca de R$ 7,5 mil — afirma.
Trocas reduzem gastos
Mas há uma alternativa capaz de derrubar significativamente esse valor: as trocas.
Segundo o professor, colecionadores que participam ativamente de grupos e eventos de troca podem reduzir os gastos em mais de 70%. Nesses casos, a estimativa é que a maioria consiga completar o álbum investindo entre R$ 2 mil e R$ 3 mil.
— Comprar as últimas figurinhas de forma avulsa, quando não são encontradas em grupos de troca, também ajuda a diminuir o gasto — acrescenta.

Se a projeção matemática aponta para valores entre R$ 2 mil e R$ 3 mil mesmo com trocas, alguns colecionadores acreditam que conseguirão completar o álbum gastando ainda menos.
É o caso da professora Ellen de Lima, 25 anos. Colecionadora desde a Copa de 2010, ela conta que acompanha o lançamento dos álbuns há anos e que já aguardava ansiosamente pela edição deste Mundial.
— Uns dias antes, eu passava em uma banca a caminho do trabalho para perguntar se o álbum já tinha chegado. Desde 2010 sempre tive o costume de colecionar as figurinhas da Copa. Faço porque gosto muito de futebol e especialmente do espírito da Copa que paira nessa época — relata.
Ao contrário de levantamentos que foram divulgados nas redes sociais, Ellen nunca acreditou que completar a coleção pudesse custar R$ 7 mil.
— Se fosse R$ 7 mil, eu nem começaria a coleção. Meu salário não é alto e, para quem não tem grana, essa quantia faz muita diferença — afirma.
A expectativa dela é gastar cerca de R$ 1 mil para completar o álbum. Como divide a coleção com o namorado e participa ativamente de trocas, acredita que o valor final pode ser ainda menor.
— Na verdade, acho que vou gastar metade disso. Estamos colecionando juntos e não pretendemos comprar mais pacotes quando atingirmos a quantidade necessária para conseguir o restante através de trocas.
A melhor parte
Para ela, aliás, trocar figurinhas é a melhor parte da experiência.
— Você acaba conhecendo mais pessoas e descobrindo esse interesse em comum pela Copa e pelo hobby. Fora a economia, claro.
As trocas acontecem principalmente em uma banca de jornal na Praça da Alfândega, no Centro Histórico de Porto Alegre, onde colecionadores se reúnem diariamente.
— Passo uns 30 minutos lá. Depois de alguns dias volto e sempre aparece alguém com alguma figurinha que estou procurando.
Segundo Ellen, a estratégia faz diferença principalmente na reta final da coleção, quando restam poucas figurinhas.
— Às vezes falta uma ou duas cartas para completar uma seleção e, mesmo abrindo dois ou três pacotes, elas nunca vêm. Então trocar ajuda muito a evitar gastar mais dinheiro.
Mesmo assim, alguns desafios permanecem. Entre eles estão as figurinhas promocionais vinculadas a produtos específicos e as versões brilhantes mais difíceis de encontrar.
— O escudo da Seleção Brasileira e os mascotes da Copa, por exemplo, eu ainda não encontrei nenhuma vez.
Espaços de convivência

Se a matemática mostra que trocar figurinhas ajuda a economizar, a prática revela outro efeito: criar espaços de convivência.
Em Porto Alegre, bares, praças e grupos organizados têm promovido encontros para colecionadores. Entre eles está o Giro Bar, que abriu espaço para que torcedores se encontrem para negociar figurinhas e compartilhar a expectativa pela Copa.
Para a comunicadora Camila Menezes, responsável pelo Marketing do Giro, a iniciativa acompanha o entusiasmo que o torneio costuma despertar entre os brasileiros.
— A galera quer um espaço para torcer, praticar seus hobbies e tomar uma cervejinha sem complicação. E o Giro é feito disso.
Mais do que reduzir gastos, a proposta é reunir pessoas em torno de um interesse comum.
— Nosso retorno maior vai ser ver o bar cheio de gente esperançosa pelo hexa. Nosso bar foi pensado desde o começo para promover esse tipo de experiência.
Para a equipe, o sucesso do álbum também passa por um movimento de valorização de experiências presenciais e pela nostalgia que acompanha a competição.
— A cultura de colecionar, trocar, colar e manter um hobby que também te faz socializar desperta um sentimento bom, confortável e nostálgico. A galera tem curtido viver esse tipo de experiência. Menos telas e mais momentos divertidos entre os amigos.
No fim das contas, completar o álbum da Copa talvez custe menos do que os R$ 7 mil que circulam nas redes. Mas, para muitos torcedores, o valor da coleção não está apenas nas figurinhas que faltam, e sim nas histórias, encontros e memórias construídas durante a busca por elas.
* Com orientação e supervisão de Cristiel Gasparetto

