
Quando um pé mexicano ou sul-africano rolar a bola no centro do gramado do Estádio Azteca nesta quinta-feira (11), a Copa do Mundo que conhecemos ficará para trás. A partir das 16h, uma nova era entra em ação. O maior torneio de futebol do mundo nunca foi tão grande.
Um gélido domingo de julho de 1930 começou a história quase centenária das Copas em um campinho entre as esquinas das ruas Coronel Alegre e Charrua, em Montevidéu. O Pocitos recebeu 4 mil pessoas para ver México e França.
Toda a Copa foi disputada em uma única cidade. As 18 partidas do torneio foram jogadas em apenas três estádios. Foram 13 seleções. Parte delas, como o Brasil, desembarcou no Rio da Prata a bordo do navio Conte Verde.
Os 530 km² da capital uruguaia bastaram para acolher todo o evento. Agora, serão necessários três países de dimensões continentais para a disputa de 104 jogos. As 48 seleções estarão espalhadas em uma área de 24 milhões de km² de Canadá, México e Estados Unidos. Quatro fusos horários.
Críticas sobre a queda de qualidade por um grande número de participantes ganharam voz nos comentários ao novo formato. Em oposição, a democratização das vagas coloca no mapa países até então invisíveis no futebol.
"É um sonho que vira realidade"
Em outubro, Cabo Verde com seus 550 mil habitantes se tornou o menor país a se classificar para uma Copa. Curaçao e seus 150 mil moradores bateram o recorde no mês seguinte. A medida de ter três países sedes de um continente longe do protagonismo futebolístico abriu espaço para nações periféricas no esporte. O Haiti, maior país do caribe, mas mais pobre das Américas retorna após mais de 50 anos ausente. Jordânia e Uzbequistão também estreiam.
A expansão do torneio trouxe a sensação de pertencimento para gente fora do radar da bola. Henry Plaate passa os dias transportando turistas em seu táxi pelas praias paradisíacas de Curaçao. Desde a classificação para a Copa, puxa conversa todo orgulhoso de que seu país está, agora, no grande palco do futebol.
— É um sonho que vira realidade. Comecei a ver futebol por causa do Brasil de 1970, meu jogador favorito é o Jairzinho. Esses últimos 20 anos foram uma viagem emocionante. Perdi um ou dois jogos em casa nesse tempo todo — comemora.
Henry foi jogador, dirigente e técnico de um pequeno clube local. Viu alguns atletas que vão para a Copa darem os seus primeiros chutes na categoria sub-8. A geração do pai de Henry viu o Santos de Pelé realizar uma exibição em Curaçao. Ele terá a sua própria experiência.
— Estamos vivenciando a Copa do Mundo. Será uma grande festa aqui a partir da quinta-feira. Vamos lembrar disso por décadas e décadas.
Diversidade de culturas e mais histórias
A Copa traz o mundo para cidades improváveis. Esses lugares colocam o seu grãozinho de areia no resto do planeta. Como Itapitanga-BA, cidade de 10 mil habitantes, berço do zagueiro brasileiro Bremer.
— A gente tem mais países, mais histórias, de uma certa forma mais democratização do torneio. É um evento sociocultural que atravessa diferentes épocas e também é o reflexo de cada época. Isso tem um peso muito grande na forma como essas culturas vão ser representadas — destaca o professor e pesquisador Luís Rolim, doutor em Ciências do Esporte e gestor de performance técnico-cognitiva na Prepara Academy.
Desafios de logística
Inflada, a Copa traz desafios de logística e impacta na preparação física dos atletas. A adaptação também será dificultada pelos quatro fusos horários diferentes. Partidas serão disputadas sob altas temperaturas.
— Tem de ver se esse crescimento vai ser acompanhado também da qualidade competitiva, do cuidado com os atletas, com essa complexidade de logística que vai afetar de certa forma o jogo. A parte de performance também vai ser bastante impactada — avalia Rolim.
As distâncias de uma Copa superlativa se transformam em um desafio para jogadores, técnicos e preparadores físicos. A Fifa blocou os 12 grupos em regiões. A medida não evita deslocamentos maiores.
O Brasil estreia contra Marrocos em Nova Jersey. Depois, viagem para Filadélfia para enfrentar o Haiti. Fecha a participação contra a Escócia em Miami.
— Isso vai fazer com que o desgaste venha a ser menor. Mas o tempo é curto. Então, você tem que priorizar as questões técnico-táticas. Às vezes, é rezar pra Deus. São muitos jogos, muita coisa, sabe? — comenta Paulo Paixão, preparador físico do Brasil na Copa de 2002, entre outras.
Atar todas as pontas da logística está entre os maiores desafios. Alinhar pontos com três diferentes países, estados e municípios com legislações distintas requer alto poder de negociação.
A vantagem desta edição está em não haver novos estádios. A pré-existência dos equipamentos economiza dinheiro, além de já ter concessões de serviços firmadas com as arenas.
— Integrar todos esses entes não é um trabalho fácil. Nos Estados Unidos é um pouco diferente porque ele tem a questão de ser também um país continental, também ter estado, também ter o município, mas ele já tem os estádios prontos. Então, a Fifa tem que, em alguns momentos, se adaptar ao que já está pronto — explica Ricardo Trade, CEO do Comitê Organizador Local da Copa de 2014 e da Copa América de 2024, realizada nos Estados Unidos.
O torneio continental serviu como evento pré-teste. O principal aprendizado, segundo Trade, foi a compreensão das diferenças de organização entre um jogo de futebol e outros eventos. Os americanos estão acostumados com grandes espetáculos esportivos, como Super Bowl e jogos decisivos da NBA, mas a expertise não basta no futebol.
Desde a Copa de 2014, no Brasil, a Fifa realiza a fiscalização de ingressos para entrar no entorno do estádio. Quem não tem os bilhetes é barrado a partir de um determinado ponto. A medida não foi adotada na decisão da Copa América, entre Argentina e Colômbia. Diversos torcedores sem tíquetes invadiram o Hard Rock Stadium, em Miami.
— Eles fazem eventos todos os dias, mas não eventos como Copa do Mundo. Não fazem um jogo como Colômbia e Argentina, ou Colômbia e Brasil, ou Brasil e Argentina, com latinos, ingleses e espanhóis. Você tem que levar em conta que o futebol é mais emoção — ressalta.
É esta emoção que começa espalhada e dividida entre 48 seleções, em três países diferentes. Aos poucos, a Copa une as peças para contar uma única história, como acontece desde 1930.
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