Clack. A abertura de uma latinha corta o silêncio. Cerca de 50 pessoas compartilham a quietude de quem vive um momento de rara importância. Cabo Verde está no mapa do mundo como nunca.
A reportagem de Zero Hora acompanhou a noite histórica para o estreante em Copas ao lado de quem sentiu uma emoção inimaginável antes do Mundial: ao empatar em 0 a 0 com a Arábia Saudita, Cabo Verde passou de fase, deixando o Uruguai para trás. E agora terá a Argentina pela frente.
Aquecidos pela esperança da classificação à fase de 16 ávos, alguns estão de manga curta na noite fria desta sexta-feira (26) em Porto Alegre. Outros gelam com o frio na barriga e usam a bandeira como casaco. O jogo vale vaga na fase eliminatória e ainda não aqueceu.
Cabo Verde é formado por pontinhos no meio do Atlântico. São 10 ilhas que formam a geografia do país, mas que não definem um limite. Há um arquipélago, invisível, formado por milhões de pessoas. Outros pontinhos espalhados por Brasil, em Portugal, nos Estados Unidos, em Porto Alegre.
São parte de uma das maiores diásporas dos tempos atuais. Cerca de 1,5 milhão de caborvedianos e seus descendentes vivem fora do país. A população nas ilhas bate nos 530 mil habitantes.
Devoção ao goleiro
Na Capital, na noite histórico, se reuniram na Casa da Dona Ilaídes, restaurante no Centro Histórico especializado em comida africada. A fragância dos pastéis de milho e dos bolinhos de atum se espelham pelo salão.
Cabo Verde não se espalha no campo ofensivo da Arábia Saudita. O hino é cantado em pé, a plenos pulmões. O goleiro Vozinha aparece em close no telão.
— Vai, Vozinha! — ergue-se uma voz, acompanhada de aplausos.
Os rostos estão pintados de vermelho e azul. A primeira comemoração foi do gol da Espanha sobre o Uruguai. Assim, o 0 a 0 com a Arábia Saudita classificaria Cabo Verde, o terceiro país menos populoso a jogar uma Copa.
A segunda vibração vem após uma defesa de Vozinha, o herói nacional.
— Isso é muito legal, porque o Vozinha é um cara muito merecedor de todo o sucesso que ele está tendo. Porque o Vozinha foi um dos primeiros jogadores dessa geração. É um cara que trabalhou muito, e conseguiu chegar numa Copa do Mundo. Mostra a resistência do povo. Ele representa exatamente o povo cabo-verdeano — destaca Amunike Fernandes, engenheiro de energia.
Alegria e dança no final
Uma música entre o axé e o forró ganha volume do intervalo. Há fila para pintar a bandeira do país no rosto.
O silêncio desaparece no segundo tempo. Cada lance gera uma vibração. O dono da comanda 76 não presta atenção que seu pedido chegou. A história está acontecendo.
Os gritos de "Uh, uh, uh aaaaaah! Vamos, Cabo Verde" ecoam. O goleiro árabe salva. Restam 15 minutos... 10 minutos. Gol perdido, inacreditável. Restam 5 minutos. 1 minuto. Os acréscimos. Uh, uh, uh aaaaaah!
Virou carnaval. Cadeiras são colocadas de lado. Festa! Não há palavras. Apenas alegria genuína. Dança.
A história está escrita. Em português. Português de Cabo Verde.
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