
O mundo para outra vez e se deixa girar pela bola. Começa nesta quinta-feira (11), na Cidade do México, a 23ª Copa do Mundo das nossas vidas, com a seleção local enfrentando a África do Sul, às 16h. Ela chega mais global do que nunca, com 48 países. Mas chega também justo em um momento em que esse mesmo mundo ferve.
O conflito entre Israel, EUA e Irã coloca todos em suspenso. O impacto se faz sentir e pesa até no nosso bolso. O mundo da Copa é também o mundo das guerras. Israel, Irã e EUA, agora em pausa, trocam mísseis, drones e destruição.

Não podemos nos esquecer, embora tenha perdido o primeiro lugar na fila, que Rússia e Ucrânia também se atacam e contra-atacam no leste europeu.
O mundo anda muito intolerante. Aliás, o da Copa também. A Fifa tenta explicar, sem sucesso, como o Irã terá de dormir aqui no México e jogar nos EUA. E como alguns dos integrantes da comissão técnica do Irã e o presidente da sua federação tiveram os vistos negados — assim como o árbitro somali Omar Artan.
A Fifa também tenta se esquivar de responder se é possível evitar que o ICE, a polícia imigratória norte-americana, use a Copa para despachar imigrantes. Tudo isso está no ambiente de uma Copa que desembarcou nos EUA e se abraçou em Donald Trump, o principal personagem desse mundo "doidão" que estamos vivendo.
— Não somos os reis do mundo, não temos como mandar nos governos — defendeu-se Gianni Infantino na entrevista coletiva concedida no Estádio Azteca, 24 horas antes da abertura da Copa.
O futebol está no ar do México
Aliás, a estreia do Mundial tripartite faz com que se viva de forma diferente em cada um deles. Aqui no México, a Copa pulsa e tem a feição original. É claro que o preço salgado dos ingressos também afeta os fãs daqui.
Só que, ao contrário dos EUA e do Canadá, aqui no México o futebol está no ar. Não há mexicano nessa Cidade do México que esteja alheio. Nas ruas, nos mercados, nos restaurantes, na saída dos escritórios, nas tantas banquinhas de comida de rua, cultura local, em qualquer lugar para que se olhe, você verá uma camisa verde da seleção mexicana. Eles estão orgulhosos. Afinal, ninguém organizou três Copas.
Nenhum estádio do mundo pode se vangloriar de albergar três aberturas de Copa. Os mexicanos, é verdade também, não escondem a mágoa por receber apenas 13 jogos. Aliás, essa Copa de 104 jogos e 48 seleções será quase toda dos EUA. Serão 78 na terra do Mickey e do Trump, o que corresponde a 75% dela. O Canadá também receberá 13 partidas.
Os mexicanos, porém, mostram a mágoa, mas logo deixam de lado e abrem o sorriso que os marca. Tratam de curtir ao máximo esses 13 jogos. O primeiro deles da sua Tri no começo da tarde dessa Cidade do México que consegue ser caótica e organizada ao mesmo tempo.
Eis uma cidade que se equilibra entre espaços verdes e o asfalto viadutos, túneis e autopistas em dois andares para que seus mais de 22 milhões de habitantes se movam. Lentamente, por vezes, mas se movam.
Ponto facultativo
Para evitar o colapso total do trânsito, a presidente Cláudia Scheinbaum decretou ponto facultativo. A empresa que decidir se manter em atividade terá de fazê-lo em modelo home-office. O plano é tirar os carros da rua.
A semana começou com trânsito ainda mais pesado na Capital. Não só pela chegada de turistas, jornalistas e organização da Fifa, mas também porque o acabamento nas obras do estádio e os últimos retoques na cidade atrapalham a mobilidade.
Nesta quarta-feira (10), por exemplo, o entorno do Estádio Azteca estava insuportável. Operários tiraram telas que protegiam o muro recém reformado que circunda o complexo. No outro lado da rua, trabalhadores colocavam lonas brancas em muros para tapar marcas que não fazem parte do rol de patrocinadores da Fifa.
No lado de dentro do Azteca, operários com vassouras, pás e ferramentas à mão davam os últimos toques na reforma do estádio, principal obra mexicana para a Copa.
Mesmo na área de imprensa, havia ajustes a serem feitos. O wi-fi só começou a funcionar minutos antes da coletiva de Infantino. Para desespero dos jornalistas. Tão desesperados, poucos perceberam que o ar-condicionado também estava com problemas. Ele também entrou em ação com a chegada de Infantino, que reclamou do zumbido dele antes de iniciar a coletiva.
O que Infantino talvez não tivesse se dado conta é de que ajustar tudo na última hora é muito latino-americano. Foi assim no Brasil, por exemplo. Aliás, que maravilha seria se os principais problemas de Infantino (e do mundo) antes de iniciar-se a Copa fossem a falha no Wi-Fi ou a climatização com barulho. Ou mesmo a vassourada que tentava deixar a casa pronta para receber sua terceira abertura de Mundial. Tenho certeza de que trariam bem menos dor de cabeça.
Tomara que a magia da bola faça com que, pelos próximos 40 dias, nos livre dessa enxaqueca. Boa Copa e um mundo melhor para nós.
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