
Ibañez. Zagueiro apresentado ao futebol pelo Fluminense. Ex-Atalanta, Roma. Atual Al-Ahli. Convocado por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026. Eis o Roger. Filho de um marceneiro com uma uruguaia. Nascido em Canela e criado em Tramandaí.
E surpresa de Carlo Ancelotti no time titular na estreia da Copa de 2026, contra o Marrocos, às 19h deste sábado.
Uma década atrás, iniciava sua carreira no Real SC. Certo dia, ao chegar ao hotel que servia de alojamento para os jogadores, viu o fisioterapeuta do clube de Capão da Canoa todo equipado com tinta, rolo, argamassa, tomadas.
Era o primeiro dia de trabalho de Fernando Oliveira. Antes de tratar dos jogadores, promoveu uma minirreforma na sua sala. Tinha as melhores intenções sem ter as melhores habilidades.
— Estava todo sujo, pintando. Ele entra na sala e fala: “Aí, professor, precisa de ajuda?”. O pai dele tinha ensinado ele a pintar e mexer na parte elétrica. Pintamos a parede juntos e ele trocou as caixinhas de luz, que eu não sabia mexer — lembra Fernando.
Pau para toda obra. Ou todas as posições. Ou todas as funções. Após ser convocado para a Copa do Mundo, brincou que para ir ao Mundial estava disposto até "levar água na beira do campo".
— Num campeonato aqui em Tramandaí, ele era nosso goleiro. Não tínhamos goleiro na categoria, ele ia bem no gol. Ele falou: "não tem problema, professor. Eu jogo". Ninguém queria jogar no gol — revela Gustavo Corrêa, treinador de Ibañez entre os 12 e 14 anos na escolinha Cia da Bola.
"Nosso Roger"

Tantos anos depois, Gustavo ainda tem dificuldades para ligar o nome à figura daquele aluno alto, comprido, forte, e rápido.
— Quando falam Ibañez, a gente pensa: "quem é esse abençoado?" (risos).
Porque ele é o “nosso Roger”, como diz Dulcelei Panatta, professora de Ensino Religioso na época em que Ibañez, quer dizer, Roger estudava na Escola Municipal General Luiz Dêntice, em Tramandaí, e era apenas um fanático torcedor gremista.
Um aluno de notas de regulares a altas, como as cotações de seu desempenho nas partidas. Uma exceção foi Educação para Turismo, disciplina que teve na quinta e na sexta série, e que não teve muito apreço. É mais um indício de que o jogador não vai aos Estados Unidos a passeio.
— Era o nosso Roger. Um menino muito amoroso, extremamente dedicado, que gostava muito de esporte. Quando que eu poderia imaginar que o menino que está brilhando na Seleção Brasileira passou pelas minhas mãos? É motivo de muito orgulho para todos nós da escola — Dulcelei, hoje diretora da instituição.
Não faz muito que Ibañez levou o futebol mais a sério. Até o ano do 7 a 1, se divertia entre amigos e familiares em jogos na várzea. Dispensava chuteiras ou tênis. O craque da turma era o primo dele, Matheus. O Grêmio Atlético Osoriense (GAO), de Osório, estava de olho nele e foi assistir a um jogo.
— O que chamou a atenção é que ele estava de pé descalço. E nesse pé descalço, ele tracionava melhor que a gente que estava de tênis. Realmente ele era diferenciado. Era um talento a ser lapidado — conta Huriel Duarte, então preparador físico no GAO.
Aos poucos, se tornou Ibañez, sem nunca deixar de ser o Roger. Há cinco anos, afirmado em meio à fábrica de zagueiros da Série A italiana, era titular da Roma. Clube de porte. Salário bom. Uma carreira grande o suficiente para permitir escolhas. Em especial, as menos lógicas.
Trabalho invisível por trás do jogador

Ele quis o homem que se sujou de tinta para transformar uma área castigada de um hotel em sala de fisioterapia. Aquelas paredes devem ter desbotado. A memória, não.
— Fazíamos um trabalho remoto e ele me ligou. “Preciso de ti”. Disse que estava liberado. “Não, preciso de ti aqui”, ele insistiu. Mas ele não pensou só em mim, pensou na minha esposa e filha também — relembra Fernando.
Ibañez carrega consigo quem o ajuda como se fossem amuletos. O mental coach Alessandro Russo e o masterchef Vitor Hugo Oliveira entraram em sua equipe multidisciplinar na Itália e foram com ele ao Al-Ahli.
Em sua casa em Jeddah, o defensor destinou um andar inteiro para fazer o trabalho invisível que rende frutos. Equipamentos sequer utilizados por clubes brasileiros foram comprados.
A última postagem antes de ser convocado por Carlo Ancelotti era de Ibañez em meio a calmaria de uma pesquisa. Tarefa realizada com a mesma devoção com que persegue os calcanhares dos atacantes.
Um zagueiro eficiente é o escudo da área. Ibañez aprendeu a proteger o gol, os outros e a si mesmo. Na Copa do Catar, a expectativa de ser convocado resultou em frustração. Este ano não criou ânsias sobre o tema.
— Ele criou um método de proteção. Ele queria se proteger daquela experiência de frustração que ele teve de ficar de fora da outra Copa.
Então ele, mais ou menos, criou uma modalidade de não gerar muita expectativa — explica Fernando.
Na voz de Ancelotti e no nome da camisa é Ibañez. Mas quem o encontar pelo litoral norte gaúcho pode chamar de Roger.
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