Foi um jogo dramático, um empate, mas que acabou em festa. Não era qualquer festa: era uma explosão de orgulho.
Dezenas de cabo–verdianos se reuniram neste domingo (21) no bar Rádio Agulha, na Zona Norte de Porto Alegre, para acompanhar a seleção de Cabo Verde contra o Uruguai. A partida foi válida pela segunda rodada do grupo H da Copa do Mundo e terminou em 2 a 2.
Antes de a bola rolar, o clima era de esperança entre os torcedores. Quem sabe os Tubarões Azuis — como é conhecida a seleção do continente africano — pudessem escrever uma linda história novamente.
É a primeira vez que Cabo Verde disputa a Copa do Mundo. Logo na partida de estreia, a seleção segurou a super favorita Espanha, em um empate em 0 a 0, com atuação magistral do goleiro Vozinha.
Pelo bar, cabo-verdianos portavam bandeiras e vestiam camisetas azuis da seleção de seu país. O DJ Tukinga tocava músicas de artistas de Cabo Verde, com algumas torcedoras eventualmente dançando. Foram servidas tigelas de cachupa — prato típico do país, uma prima da feijoada que envolve feijão, milho, legumes e carnes.
Uma das organizadoras do evento foi a dentista Giséle Lopes, 29 anos, que vive há 11 no Brasil. A ideia para a reunião partiu de um grupo de WhatsApp de cabo-verdianos no Rio Grande do Sul. Na primeira partida, ela assistiu com um grupo de 17 pessoas em casa. Depois, do resultado heroico na estreia, o sentimento tomou uma proporção maior.
— Eu chorei no hino, porque era a primeira vez que a gente não estava cantando o hino dos outros, mas sim o nosso. Para nós, assim, saímos com a sensação de vitória. Cabo Verde festejou como se a gente tivesse ganhado a Copa — relata Giséle.
Marido de Giséle, Valter Fortes, 42 anos (desde 2015 entre idas e vindas ao Brasil), acrescentou que a reunião é uma forma de todo mundo matar um pouco de saudade de casa. Conforme o gestor de projetos, os cabo-verdianos também têm um senso de comunidade muito grande. Estarem juntos para assistirem aos tubarões azuis na Copa traz um sentimento especial.

— Escutar o hino pela primeira vez, todo mundo se abraçando e chorando, é tudo emocionante. E aí a gente pensa: é isso que as pessoas sentem quando vê o país na Copa do Mundo — reflete.
Outro ponto importante é a visibilidade e o sentimento de identificação que estar na Copa proporciona. Giséle pontua que muitas pessoas não sabiam onde era Cabo Verde. Aliás, em 11 anos no Brasil, foi a pergunta mais frequente que ouviu.
— É um pontinho no mapa, que precisa dar um zoom para achar. Acho que essa Copa pode trazer esse outro lado de posicionar Cabo Verde no mapa — destaca Giséle. — O melhor é isso: saberem que a gente existe, que somos uma comunidade pequena, mas muito unida.
Drama e dança
Os cabo-verdianos presentes no bar cantaram o hino com inevitável emoção. Antes, aplaudiram o hino uruguaio em sinal de respeito.
Quando a partida começou, um misto de apreensão e alegria tomou conta da atmosfera do bar. Havia aplausos para lances de desarmes, dribles ou erros do adversário. Gritos para lances próximos à área adversária. Porém, não havia como escapar do nervosismo.
O grito de guerra “Uh! Uh! Uh! Uh! Ah!” era entoado constantemente. Em um corte bem sucedido de Pico" Lopes, um cabo-verdiano celebrou: “Meu zagueiro de linkedin!”.
Para alguns torcedores, outro empate poderia ser uma dádiva. Alguns brincavam que era para os tubarões azuis “amarrarem o jogo”. “Quanto mais trancar o jogo, melhor”, comentou outro. “Empate tá ótimo”, repetiam.
Até que surgiu uma falta próxima à área uruguaia. Um cabo-verdiano comentou com a reportagem: “Nessa hora precisávamos de um Messi”. Mas tinha Kevin Pina, que anotou o primeiro gol da história de Cabo Verde na Copa do Mundo.
Foi uma explosão. Muita euforia, seguidos de “Uh! Uh! Ah!”. Só que, antes do intervalo, o Uruguai virou a partida para 2 a 1. Veio a frustração. Mesmo assim, a torcida aplaudiu a seleção no final do primeiro tempo.
A música voltou a tocar no recinto e os cabo-verdianos voltaram a dançar. Quando rolou Ninguem, Ninguem, Ninguem, de LA-MC Malcriado, o público mais jovem entrou em um êxtase que parecia um gol.

Talvez fosse um ensaio para o que viria no segundo tempo. Cabo Verde empatou, e novamente o Rádio Agulha veio abaixo, com intensidade ainda maior. “Voltamos pro jogo!”, celebrou um torcedor. Os gritos de “só mais um” passaram a ecoar.
O jogo foi tenso até o final, com chances desperdiçadas de ambos os lados. O Uruguai chegou a pressionar durante um período perto do final da partida. Cada bola afastada pela defesa era um novo gol de Cabo Verde. Parecia que os mais de 500 mil habitantes estavam dentro da área.
Por fim, com o encerramento da partida, houve uma virada de chave no ambiente. Imediatamente o DJ começou a tocar música e todos os cabo-verdianos presentes se uniram em uma festa. Estavam dançando, cantando, se abraçando. Felizes e, especialmente, orgulhosos.
Antes do jogo, o historiador Rui Delgado, 44 anos (25 no Brasil) comentou com a reportagem que o mais importante era os cabo-verdianos conviverem e aproveitarem esse momento:
— O que vier para nós vai ser o lucro.
Depois da partida, Rui acrescentou:
— Achei que íamos perder, mas o povo de Cabo Verde é resiliente. Os jogadores já estavam se arrastando em campo no final, mas deram tudo que tinham. É um empate com gostinho de vitória.
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